quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Enamorada por Ti

Sinto uma espécie de vertigem
quando teus olhos brilham
para mim com afeição.

Sinto meu mais bom humor aparecer
quando teus sentimentos nutridos
de respeito vem em minha direção.

Sinto minha temperatura cair
quando separado de ti
está o meu frágil coração.

Sinto o meu mundo cingir
quando teu silêncio reflete
um pouco de desatenção.

Sinto-me querida quando tua
simplicidade majestosa coloca o
meu universo em expansão.

Sinto-me enamorada por
ti quando teu riso encantador
absorve minha emoção.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Coração Ilhado


O Queen sem o Freddie, o Nirvana sem o Kurt e o Pink Floyd sem o Roger Waters é igual a mim sem você (não tem sentido). Significa que o coração está ilhado e os sentimentos foram mortos e sepultados. A imaginação atrofia e as idéias perecem numa ansiedade que é capaz de fazer qualquer um perder a razão. A infelicidade desacelera o tempo e o coração não mais pulsa diante dos focos de luz que surgem no ato dos galanteios de outros. É como uma cena sem roteiro, uma imagem sem conteúdo, um milionário que perdeu o dinheiro. Os dias tornam-se escuros e a escuridão ilumina a angústia na alma. Esta angústia culmina na areia da praia quando os olhos fixos na imensidão do oceano enxergam o vazio desse coração ilhado, de sentimentos tristes. Contudo, sei que a alegria irá emergir quando puder novamente encontrá-lo.

domingo, 26 de dezembro de 2010

As festividades revelam que alguns bebuns são filósofos (25/12/10)

No relógio faltam poucos minutos para meia noite. Estou estática num lugar estratégico para observar a euforia dos componentes do meu clã; eles parecem uma forma muito primitiva de vida. Minha avó, minha mãe e minha tia transitam afobadas com as comidas da ceia. Minha irmã e prima mais nova assistem um desenho animado, embora não estejam ouvindo nada devido ao volume do som. Este, por sua vez, indica estar programado para reproduzir repetidamente as canções do Milionário e José Rico, Amado Batista, Eduardo Costa e companhia. Com a movimentação, outra prima é contemplada no sofá da sala com um bombardeio de beijos e abraços do seu novo namoradinho. Espalhados pela casa têm também os “integrados” que não são parentes, mas que estão na área (geralmente são amigos de alguém ou pessoas da vizinhança) que querem comer e beber de graça. E, numa mesa na varanda, também situada num lugar bem sugestivo (perto do freezer e da churrasqueira), estão o grupo máster, os boêmios da família. Neste grupo encontram-se as maiores figuras, eles falam exageradamente, cantam quando tem vontade e não economizam nas pérolas filosóficas que surgem nos instantes em que cachaça explode na cabeça. Receitas de como contornar os problemas do convívio social até como resolver o entupimento da pia do banheiro são expostas com naturalidade e sabedoria. Reflexões profundas sobre o amor, a dor e o sofrimento também fluem sem dificuldades e causam ressonância. E no auge das emoções, eles revelam suas histórias, seus modos de ver o mundo e personalidade que demonstra se complexificar na medida em que os convivas se despedem, o volume da música é abaixado e o efeito da cachaça vai se esvaindo. Enfim, alguns bebuns são filósofos.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Conversando com os anjos

Entre a realidade e a
imaginação faço um esforço
para exorcizar meus delírios.
Desafio a desrazão e driblo
a solidão num ponto de fuga;
o lugar da utopia.
Meu pensamento é caótico
e sinto estar perdendo a razão.
Para resistir, me lanço num
espaço e tempo onírico,
converso com os anjos e
consigo exorcizar meus delírios;
num ponto de fuga: o lugar
entre a realidade e a ilusão,
muito além da utopia e do delírio.
Converso com os anjos...

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Papai Noel é Metaleiro

Aquela barba e cabelos compridos não enganam, Papai Noel é metaleiro. A roupa vermelha berrante é o retrato de um estilo intrigante. Com exceção do natal, nos demais dias do ano ele deve ficar horas se embriagando. Por isso, tem aquela caricaturada barriga gigante, mas penso que com a correria e padrões de beleza sugeridos pelos tempos modernos ele tem feito um esforço para emagrecer e ficar mais sarado. E todo aquele papo de dingo-bell e roll- roll- roll deve ser fruto de suas viagens psicodélicas regadas à Heavy Metal e Rock n’ Roll. Afinal de contas, para agüentar a maratona de voar pelos céus num veículo estranho, é preciso muito metal na mente e rock no coração. Aposto que durante os vôos ele curte o Metálica e o Motorhead enquanto se empantufa com a comida pegada nas casas que visita. Depois de deixar os presentes, que nem sempre chegam a todos os lares do mundo (muitos nem tem um lar), dorme o dia todo para ter fôlego o suficiente para festejar no feriado do ano novo tocando sua guitarra raivosa que fica guardada no cantinho do trenó.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Gustave Courbet e "A Origem do Mundo"

Devo confessar que esta não é uma obra que ficaria contemplando por horas, na verdade, a acho horrível, mas gosto da reação que ela causa nas pessoas quando a veem pela primeira vez. Ela faz parte de um movimento artístico chamado Realismo, que foi uma reação ao Romantismo. Cresceu com intensidade na França do século XIX, cujo contexto foi marcado por lutas sociais. Os pintores dessa tendência enfatizam a objetividade e buscam retratar o real sem adicionar elementos fictícios. Courbet, como um dos precursores, pintou vários auto-retratos no início da carreira. Depois, paisagens que demonstram as aspirações de sua época como, por exemplo, produções que abordam as classes trabalhadoras dentro de panoramas maiores. Falando desta obra em específico, “A Origem do Mundo”, foi pintada em 1866 num momento da carreira em que o pintor passou a valorizar o erotismo. Já possuía reconhecimento consolidado, era arrogante e gostava de afrontar a burguesia. O quadro foi encomendado por um diplomata turco que era colecionador de artes do gênero. De acordo com o que pesquisei, depois do tal colecionador, o quadro passou por inúmeras mãos e foi parar no Museu d'Orsay, local onde atualmente está. A reação que provocou na sociedade de seu tempo é muito prazerosa de se ler porque deturpava o moralismo e agredia os conceitos de boa arte comungados na academia; feições de espanto nos homens e constrangimento nas mulheres ocorreram. Hoje, olhando para ela e raciocinando, acredito que Courbet foi genial já que o movimento do qual participava era o Realismo e o nome que deu a obra estão em consonância; retratou com perfeição o elemento que guarda a semente que germina no mundo: os homens.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Entre dois mundos: Psicose - Esquizofrenia

A esquizofrenia é uma forma de psicose marcada pela coexistência de diferentes realidades na mente do indivíduo. Um mundo que é real entra em rota de colisão com um mundo criado internamente pela mente. Esses mundos se fundem e a pessoa perde a capacidade de diferenciar o real do delírio; ela passa a viver vários tempos num só. Pensamentos, alucinações, razão e emoção se inter-relacionam simultaneamente. Surgem assim estados confusionais onde as atividades mentais geram pulsões que lutam para se expressar e, no auge do desespero, muitas vezes, ocorre o suicídio. Os estados confusionais se exemplificam com delírios visuais ou auditivos. Logo, ver coisas que não existem, ouvir vozes e ideias de perseguição constituem o universo da esquizofrenia que desencadeia impulsos destrutivos. Estes impulsos, por sua vez, integram um pavor constante e um aniquilamento iminente que contribui para a inevitável danificação de todos os aspectos da psiquê. Não obstante, isso exige tratamento psiquiátrico e o uso de remédios que não asseguram a cura, mas permitem um relativo controle. Em suprassumo, a esquizofrenia é um misto de loucura e razão, realidade e ilusão, alucinação e emoção das mentes que não separam o real da criação; espantosa e ofensiva, enganadora e lastimável, desse jeito é a esquizofrenia: um mergulho profundo num mundo racional e de fantasia, um mundo de medo e delírio, dor, sofrimento e vazio.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Um beijo e um sonho de valsa

Nessa manhã risonha
gostaria de beijá-lo
carinhosamente na face.

Gostaria de envolvê-lo num
afago e dizer palavras doces
bem pertinho dos ouvidos.

Gostaria de saber das suas
idéias e planos para poder
incentivá-lo ou acompanhá-lo.

Gostaria de fazer meus os seus sonhos
e compartilhar uma vida de
eterna ternura e sonho de valsa.

Simplesmente gostaria...

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Sigmund Freud e o “Mal estar na Civilização”

Para Freud nós somos seres desejantes e o desejo é a pulsão natural da vida que envolve a interação social. Quando reprimimos nossos desejos, sofremos. E sofrer em muitos casos implica uma tensão entre o desejo e as regras sociais expressas por normas de comportamento, educação, moral e valores culturalmente instaurados. Essas regras funcionam como fontes repressoras do id, do ego e do superego. O id é a força que impulsiona os nossos desejos, o ego diz respeito ao “eu e o meu desejo” e o superego é a censura que filtra os desejos que em boa parte das vezes são instintivos como, por exemplo, a libido que condiciona um estado de bem estar. Quando o id, o ego e superego estão em descompasso com os padrões impostos pela sociedade surge um “mal estar na civilização” ou, para simplificar, um mal estar nos indivíduos que sofrem por reprimir os desejos que parecem inadequados aos olhos da sociedade. E é aí neste ponto de tensão que muitas moléstias psicológicas nascem; é aí que surge os neuróticos, esquizofrênicos, histéricos, psicóticos ou melancólicos. Contudo, nem sempre os desejos reprimidos são sinônimos de sofrimento porque possuímos a capacidade de realizar aquilo que Freud chama de sublimação. Esta sublimação em linhas gerais são maneiras de se compensar os desejos reprimidos pelas normas de comportamento. Para finalizar, pode-se dizer que somos seres movidos por instintos e quando esses instintos são negados em função das regras sociais nos tornamos mais “civilizados”.

Soneto do semestre quase perfeito na UFTM

Entre inteligências pré-fabricadas
e artesanalmente construídas
vislumbrei espécies raras.

Entre os livros e a poesia, o
sacrifício e a profecia vi a mutilação
das percepções cristalizadas.

Entre o susto e a curiosidade,
concepções destruídas e recriadas,
vi verdades sendo invalidadas.

E eu ali, no oceano de inteligências variadas,
tão séria e calada reinventei
meu mundo com idéias transformadas.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

O sujeito voyeur e as imagens fabricadas

O orkut, o twitter, o youtube, o msn e o facebook são exemplos de como a necessidade de ser visto tem crescido na atualidade. O sujeito voyeur neste sentido está em fabricar imagens não do que se é, mas do que se gostaria de ser. Um “ideal de eu” é minuciosamente arquitetado em projeções que por um lado apagam a dimensão crítica dos sujeitos e por outro viabilizam a realização do desejo de estar em evidência. O prazer da observação se soma a necessidade de ver e ser visto porque geralmente atribui-se muito sentido às opiniões alheias. Existe também a construção de um “eu virtual”, um self que dialoga com o “eu real” e o “eu ideal” que pode ser identificado quando, por exemplo, escolhemos fotos ou idéias para serem postadas no universo virtual. Essas escolhas permitem que o outro construa imagens daquilo que somos. Essas imagens por sua vez são representações que geralmente deixam as nossas imperfeições ocultadas. Prontamente, perdemos muito tempo tentando criar imagens daquilo que gostaríamos de ser e nos esquecemos de ser o que realmente somos.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Falando Entrementes

Não fique tristonho, a vida
é um palco de vareidades dispostas
numa desordem organizada.

Não fique tristonho e
não se esqueça de ser sempre
do geito que é, lindo.

Não fique tristonho, sentir-se
fora de contexto ou desarticulado
não é um problema, muito pelo contrário.

Não fique tristonho, gosto de você
do jeito que é e quando quiser meu
coração simples estará aberto.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Um livro do Freud e as canções do Elvis na não presença do menino dos olhos claros

Imersa nas explicações freudianas
procuro respostas de como
driblar a presença da sua ausência.
Para ajudar, as canções do Elvis
ecoam no silêncio do quarto auxiliando
na composição do amor imaginário.
O objeto do desejo, a sublimação e
as variáveis de uma interpretação;
nada se encontra mas tudo se encaixa.
O Freud na mente e o som do Elvis na caixa.
Tudo é confuso e a confusão parece ser
a nossa marca registrada: nós temos tudo
e ao mesmo tempo nunca tivemos nada.
Eu gosto de você e você nunca diz nada.
O Freud infelizmente não explica tudo;
e, na falta dos teus olhos claros, até
as músicas do Elvis não dizem nada.
Tudo é confuso mas tudo se encaixa;
eu gosto de você e você não diz nada.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Soneto à tua ausência

Lentos são os segundos
até a hora de encontrá-lo.
Para resistir ouço uma música,
leio uns livros, faço os trabalhos.
Mas, tristes são os dias que
não consigo encontrá-lo.

Lentos são os minutos
até a hora de encontrá-lo.
Para resistir torno-me ilha,
afogo meus pensamentos no
cemitério dos naufragos.
Mas, tristes são os dias que
não consigo encontrá-lo.

Lentas são as horas
até o momento de encontrá-lo.
Para resistir escrevo um poema, rabisco
um texto, te procuro nos quadros.
Mas, tristes são os dias que
não consigo encontrá-lo...

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Textículo - Os oportunistas

Na maior parte do tempo eles ficam em estado de repouso intelectual e são os principais personagens de um teatro chamado contradição, cujo enredo gira em torno do aproveitamento de situações favoráveis. Eles pensam pouco, estudam pouco, escrevem pouco, leem pouco e falam muito. E nessa teatralização não mensuram esforços para “pegar carona no barco”. Sem dúvidas, indiscretos, descarados, ousados!?

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Soneto ao cavalheiro dos olhos claros

Peço-lhe desculpas se em algum
momento a minha embriaguez
intelectual te incomodou.

Peço-lhe desculpas
se em meus olhos um
abismo você enxergou.

Peço-lhe desculpas se o meu
lirismo te chateou e o meu
tímido sorriso te nauseou.

Peço-lhe desculpas...

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Na ausência dos teus olhos claros

Naquela terra inóspita,
de inteligências variáveis,
alegravam-me a presença
dos teus olhos claros.

Em meio a massa amorfa,
solidão, timidez e várias
visões de mundo em colapso.

Mas até mesmo a luz
dos teus belos olhos claros
se apagaram; tornaram-se
distantes mesmo eu querendo
estar sempre do seu lado.

E agora? Na ausência dos teus
olhos claros eu procuro você,
"tão longe, do meu lado".

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Nos encantos dos teus olhos claros

Na escuridão onde propaga o
silêncio fui iluminada pela
beleza dos teus olhos claros.

Separados por um muro
imaginário fiquei distante
mesmo estando do teu lado.

Entre os poucos diálogos educados
fiquei devaneando, pensando ser
você meu dom Juan de Marco.

Tão longe, do meu lado;
entre as multidões, isolados;
vislumbrados com o carinho imaginado.

Mas quando o vejo meu coração se acelera
e sinto ser você o cavalheiro dos encantos,
meu príncipe dos belos olhos claros,
o querido há muito tempo esperado.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Isaac Newton



Se fosse possível caracterizá-lo em uma única palavra diria que comprometimento foi o seu forte. Um sujeito reservado que dedicou a maior parte das horas da vida ao estudo da física, da matemática, dos fenômenos que constituem a natureza em geral e era também um inventor. Obstinado a explicar e a demonstrar a coerência de suas descobertas ficava imerso num oceano de números e leituras que davam sentido ao seu cotidiano. Não tinha muitos amigos, não era de ficar tagarelando, não freqüentava festividades e, pelo que consta em sua biografia, não recebia com senso de humor as críticas que recebia. Sem dúvida, um homem solitário que não estabelecia grandes laços afetivos ou dispunha-se a gostar dos outros. Entretanto, sua personalidade introspectiva não foi capaz de ofuscar sua genialidade. Graduou-se na Universidade de Cambridge aonde veio mais tarde a lecionar matemática. Formulou teoremas, fez descobertas no campo da gravitação, da dinâmica e criou cálculos. Foi membro do parlamento inglês e ocupou a cadeira de presidente da Royal Society, uma instituição que tinha a função de gerar conhecimentos científicos. Realizou estudos da alquimia, não deixou de desempenhar práticas anglicanas e por muito tempo trocou correspondências com o filósofo, também inglês, John Locke. Pesquisadores dizem que pertenceu ao movimento Rosa Cruz, cuja crença está associada a seres iluminados com habilidades extraordinárias. Segundo suas estimativas, após investigar textos bíblicos, o mundo não irá acabar antes de 2060. Conseguiu também fomentar pesquisas que posteriormente seriam classificadas como ocultistas. O período histórico de sua existência é chamado de Iluminismo, que tinha como principio a crítica aos dogmas políticos, religiosos e da razão, surgindo assim como oposição ao Absolutismo. As idéias tidas como verdades deixaram de ser passivamente aceitas e os homens dessa época almejavam independência intelectual acreditando que tudo deveria ser motivo de exame. Newton, dentro deste contexto, foi indiscutivelmente um dos maiores cientistas de sua época, cujas contribuições se estendem até os dias de hoje. Morreu aos oitenta e quatro anos, de problemas renais, deixando na história conhecimentos que estão longe de contemplar quaisquer discursos - Por Raniele Oliveira em janeiro de 2010.

sábado, 13 de novembro de 2010

Café, Ostentação e Nostalgia

Entre o ouro negro e a ostentação
choravam os negros com a exploração.

Entre as carruagens e as cartolas dos latifundiários
reinava um país de analfabetos; desamparados.

Entre um Brasil moderno e avançado
mascarava-se a realidade e o arcaico.

Entre o Brasil, a Inglaterra e a França, mais
que um mero oceano: abolição tardia,
imigração, pouca industrialização, corrupção...

Modernidade, Modernismo e Modernização?
Tantas contradições, século XIX, ainda pouca indagação...

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Fora de Contexto

Ao lançar os olhos no horizonte,
vislumbrou a massa; amorfa.
A homogeneidade imperava
num contexto em que todo mundo
sabia tudo e não pensava quase nada.
O senso comum se apresentava
sob diversas formas; se reinventava.

Todo mundo criticava, falava com impessoalidade
e exterioridade, mas, sem saber criavam
uma nova modalidade de massa:
aquela de idéias pré-fabricadas; aquela
que " fala muito e não diz nada".

E ele ali parado,
com a solidão ao seu lado,
estava fora da massa.
Era uma substância "estranha",
rejeitada, repelida pela mesmice
tão vangloriada por aquela
tão complexa e sofisticada
forma de massa.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Em busca do Imperfeito

Racionalizaram as emoções
e ridicularizaram a
capacidade de se encantar.
O ato gradativo de se apaixonar
tornou-se uma lástima
caracterizada pela falsidade no falar.
Os prazeres breves tornaram-se
objetos do desejo e do pensar.
Chorar, sofrer e amar tornaram-se
flagelos dos quais é preciso se distanciar.
Ser feliz não está no que é,
mas no que se pode comprar.
A representação do homem bem
sucedido é o que se quer conquistar.
Literalmente vivemos o tempo em que
"tudo que é sólido se desmancha no ar".
Diz-se que a imagem do homem perfeito,
de sorrisos plásticos e relações maquiadas,
é o que se quer alcançar.
Contudo, agora eu lhe pergunto:
onde está o medo, a ilusão e a prática do devanear?
Será que aquilo que faz o homem tornar-se homem
são imperfeições necessárias de se eliminar?
Se ser perfeito é reproduzir discursos e
conquistar bens para fazer o outro se ludibriar,
então quero esquecer a estupidez
desse tempo e lugar. Quero ser imperfeita,
alguém de "carne e osso" sempre
disposta a se reinventar. Alguém
imperfeito, porque a imperfeição
é o elemento capaz de nos humanizar.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

TUCA NADA

TUCA NADA foi cercada pela tonalidade vermelha.
TUCA NADA foi engolfada pela força da massa.
TUCA NADA foi apoiada pela elite parasitária.
TUCA NADA foi julgada pela inegável falácia.
TUCA NADA foi contemplada pela articulação co-ligada.
TUCA NADA foi desarticulada pela ousadia da prática.
TUCA NADA foi vitoriosa pela representação conquistada.
TUCA NADA foi derrotada pela vermelhidão co-ligada.

TUCA NADA subiu SERRA.
TUCA NADA desceu SERRA.
TUCA NADA não conseguiu firmar o
ninho no ponto mais alto da serra.

TUCA NADA não se conforma em ver os pares do LULA lá.
TUCA NADA não desanimará em DILMArcar o seu lugar.
TUCA NADA não desistirá da oposição a recriar.

TUCA NADA, TUCA NADA, TUCA NADA...

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

O amor imaginário e as idéias de Platão

Ao desconfiar de seus sentidos descobriu
que o mundo real não é perfeito. Para
sucumbir, se rendeu ao ócio e ao pensar.
Elevou-se no discernimento do espírito e
não se fez de rogada ao contemplar.
Se libertou das relações efêmeras,
aqueceu a frieza da impessoalidade e
percebeu que os devaneios, quando
postos em ação, também podem criar.
Criou um mundo onde nada era plano
e tudo era passível de se desmaterializar.
Neste mundo, a realidade estava no teto
e a decomposição do pensamento
revelava a profundidade do lugar.
Em meio ao movimento enxergou o belo
par de olhos que queria encontrar.
No principio pensou ser alucinação,
obsessão do devaneio ou do pensar.
Mas depois tudo ficou claro como a
neblina numa noite escura e sem luar.
Saltou atônita num universo novo,
porque era o amor platônico
que acabava de encontrar.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Muita Pompa e Pouco Argumento


Eles gostam de ostentar opiniões sem argumentos;
grandes discursos e poucos feitos
num mundo saturado pela falta de tempo.

O tempo do relógio, a caixa de e-mail
e sites de relacionamento;
é muita pompa e pouco argumento.

Engolfados por pensamentos pré-fabricados
constroem sistemas e ficam alienados;
enclausurados nas suas próprias vaidades e
sentimentos sustentados por grandes fingimentos.

Oscilando entre o “eu sou” e o “eu tenho”
acumulam conhecimentos para se
gabarem diante de um grupo pequeno.

Francamente, é muita pompa e pouco argumento!

domingo, 12 de setembro de 2010

As Viagens de Aubre Sky - O Contraste Entre Duas Gerações



Nos tempos da avó
de Aubre SKY
1960

Eu SOU socialista
Eu SOU feminista
Eu SOU marxista
Eu SOU leninista
Eu SOU estruturalista

Nos tempos de
Aubre Sky
2011

Eu TENHO uma casa na praia
Eu TENHO um carro importado
Eu TENHO um tênis invocado
Eu TENHO um alto cargo
Eu TENHO um cartão de crédito ilimitado

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

As Viagens de Aubre Sky - Nostalgia num Banco de Praça

Em Uberaba existem muitas praças, mas nenhuma delas é tão bela quanto a Jorge Frange, pelo menos para mim. É certo que outrora suas cores pareciam mais vibrantes, suas noites presenteavam-me com o céu estrelado, com o vento suave e com o cheiro de flores que perfumavam os encontros pueris. Penso nos amados que me deram afago nestes bancos de concreto e nas juras de amor criadas em momentos de sincera ternura. Nestes mesmos bancos que escrevi poesias, chorei amarguras e contemplei fatos irrelevantes do cotidiano. Mas agora isto é passado, porque somente escuridão e vandalismo compõem estes espaços. O relógio está em ruínas, os garotos não andam mais de esqueite e o carrinho de cachorro-quente que eu tanto gostava só existe nos livros de História. As árvores secaram, a poluição extinguiu os pássaros e só não estou completamente sozinha porque minha sombra me faz companhia. Meus olhos lacrimejam quando me saltam à memória os inúmeros amigos que aqui conquistei e que aqui lamentei suas mortes. Sem dúvida, esta praça, estes assentos, estas memórias permitem-me contrastar os tempos de luzes com o obscurantismo que atualmente envolve esta área e se estende à minha alma.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

As Viagens de Aubre Sky - A Página do Diário de uma Viciada

A febre está tomando conta do meu corpo. Desvaneço sobre este leito e me rendo aos delírios advindos de um passado alucinante. A realidade e a ilusão se confundem e ponho-me a falar dos homens pelos quais me apaixonei das desventuras intelectuais e dos sofrimentos psicológicos. Antes de perder todo o entusiasmo procurei o sentido da vida, mas não encontrei. Atônita com o comportamento mesquinho das pessoas fui ficando inconsolável. Digo que não foi nas festas de Rock que conheci este caminho tão temido pela maioria dos pais, porém, não nego que foi nas diversões da noite uberabense. Ingressei nesta jornada aos quinze e, por incrível que pareça, nenhum dos meus familiares e amigos desconfiaram de algo. Sempre demonstrei ser uma garota tímida e estudiosa; nunca faltei com as minhas obrigações. Por muito tempo sustentei uma imagem falsa. No entanto, não foi possível continuar teatralizando. A máscara caiu e a situação ficou em perspectiva. Fui obrigada a passar por várias clínicas e não suportei as crises de abstinência. Então, me entreguei à bebida e a concupiscência. Elas, em conjunto com os elementos nocivos, serviram de passaporte para este lugar amedrontador. Nele, sou perseguida por seres fantásticos. Para acalmar, sou torturada, amarrada na camisa de força, dopada com remédios que colocam a mente numa condição vegetativa. Todos os quartos e cômodos possuem uma atmosfera densa, os gritos de horror ecoam no horizonte e os meus companheiros lutam para sobrevier aos ataques de suas próprias assombrações. O tratamento médico é articulado com o espiritual, por isso, estou otimista. Acredito que a debilidade anuncia a libertação do espírito deste corpo fatigado.

sábado, 4 de setembro de 2010

As Viagens de Aubre Sky – Estado de Consciência Alterada

Depois de aspirar, acordou no campo em meio aos girassóis envernizados. O céu estava claro e ao longe vislumbrou o carrossel do imaginário. Entrou num bosque de árvores gigantes e cogumelos dourados. Os animais eram grandes e no meio da estrada caiu um raio cujo som desencadeado arrepiou-lhe o corpo e alterou a cor das faces. O terror causou risos resignados e, inacreditavelmente, aquele espaço do bosque começou a ser deformado. E, de repente, estava numa sala de móveis claros. Uma atmosfera pouco atraente dominava o ambiente e o despertar foi traumático, porque, descobriu que agora era a flor que se voltava para o sol em colapso. Revelou sua beleza e enxergou ao longe o seu predador mais macabro: o homem. Ele vinha armado e destruía o esplendor dos campos que outrora foram claros. A escuridão tomou conta de tudo devido as suas capacidades de representação que geravam muitos estragos. Mas, então, como defesa, a flor que se voltava para o sol era agora um daqueles girassóis envernizados. Abriu os olhos e estava sozinha no conjugado compartilhando o espaço com as agulhas, as seringas e os vestígios do pó cobiçado.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Baile de Máscaras



O meio do imenso muro branco guarda a porta que mais parece uma bocarra disposta a engolir as almas frágeis. As quadras estão divididas e na primeira tem muita grama, nas demais nem tanto. Hoje está frio e o Opala amarelo teve dificuldades para chegar até aqui. Vim porque é meu aniversário. Não estou triste devido à falta de alguém para conversar, mas sim, porque você não está aqui. Na noite passada fiquei lembrando daquele baile de máscaras. Você se lembra? Eu sei que lembra. Foi a madrugada mais marcante da minha vida. Nossa fantasia era a luxúria que escondia os furores que pulsavam por baixo da roupa. Ardendo em fogo, você me cortejou de maneira tão amável que conseguiu levar-me para o quarto (um fiel escudeiro disposto a desbravar horizontes intransponíveis). O vento lá fora soprava doçuras, enquanto eu, ressoava sussurros nas extremidades de seus ouvidos. No principio ofereci uma certa relutância e fiquei trêmula. Depois, te abracei com tanta força que os sinais dos meus dedos ficaram marcados na tua pele. Desflorou-me, e nunca mais tive medo das coisas que acontecem no escuro. Suas encantadoras diabruras aqueceram o meu coração e trouxeram alívio para a mente. E, naquela manhã, antes de receber a notícia do seu trágico acidente, fiquei mapeando na memória os momentos inesquecíveis do nosso prazer. Senti muita culpa e não tive coragem de ir ao enterro. Todavia, agora somos só nós três: eu, você e as máscaras. O vento é a nossa música e nos bailes da vida não tenho dançado com outros homens. Ainda continuo gostando de ti e quando sair vou pedir ao coveiro que faça um jardim e, de preferência, plante muitos girassóis.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Em Memória de Edgar Allan Poe - Citação

Havia em torno de nós próprios coisas indistintas, ao mesmo tempo espirituais e materiais, não posso descrever: uma atmosfera pesada, abafadiça; uma sensação de tristeza, de agonia, e sobretudo atormentava-nos este estado terrível da existência, que ataca as pessoas nervosas, quando os sentidos estão vivos e despertos, e as faculdades do espírito adormecidas e fatigadas. Sentíamos um peso mortal, que carregava sobre os nossos membros, sobre os móveis da sala, sobre os copos em que bebíamos. Tudo parecia oprimido e prostrado naquele abatimento sinistro, tudo, exceto as chamas das sete lâmpadas de ferro que esclareciam a nossa orgia, alongando-se em finos filetes de fogo. A mesa de ébano, em volta da qual estávamos assentados, refletindo a pálida claridade das luzes, semelhava um espelho negro, onde cada um contemplava a lividez do próprio rosto e o olhar vago e amortecido dos outros convivas (Allan Poe).

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Tributo a Vincent Malloy

Enclausurado no quarto, no universo fechado, a falta de limites para a imaginação dava formas ao desatino que brotava do corpo moribundo. Preso na masmorra, jogado no fundo do poço, passava a vida se perguntando o que faria, onde iria chegar. Acreditava desconhecer virtudes e fora das horas cantarolava mentiras que alegravam as ilusões da alma triste. Cambiava pensamentos com interlocutores que mesmo sendo mudos diziam muitas coisas. Sentia vontade de cair fora do mundo e sucumbir aos abatimentos e decepções condicionadas por uma realidade fúnebre. Inventava mundos novos que se caracterizavam por sombras e trevas, sofrimentos e agonias, que ficavam presas no aquário de elementos que não existem.

Embriaguei-Me na Noite Passada



Ontem, uma amargura me apertava no peito. Liguei para os amigos e os convidei para sair, mas infelizmente estavam todos ocupados. A tristeza corroia-me e num lapso tomei um banho, borrifei por todo corpo o perfume mais caro, escolhi brincos de ouro, salto alto e coloquei o meu melhor vestido. Já sou bem grandinha e não expliquei à família aonde iria. Meus pensamentos ficaram vazios e entrei no primeiro bar que encontrei. Este ficava numa esquina parcialmente perto da minha casa, apenas a uns quatro quarteirões acima. Tinha uma mesa de sinuca, as paredes eram de um verde encardido, o chão parecia que não via água fazia tempo, havia um balcão e a parede atrás dele possuía três prateleiras cheias de bebidas alcoólicas que variavam de marcas, sabores e preços. Pedi logo uma dose de Cinqüenta e Um, não prestei muita atenção no acontecia e num gole só mandei tudo para dentro. Aquilo desceu rasgando no esôfago e fiz uma careta. Depois pedi uma garrafa do Vinho Chapinha, dispensei o copo e bebi tudo no bico. Os bebuns ficaram olhando-me com olhos espantados, cochichando pelos cantos. Contudo, em nenhum momento se dirigiram a mim ou foram desrespeitosos porque a maior parte deles eram conhecidos do meu pai ou avô. Aos poucos fui ficando mais leve e alegre, estava sentada numa mesa no canto e a única coisa que o meu cérebro processava era a música “Garçom” do Reginaldo Rossi. Meio cambaleando, levantei e quis dançar. Bailei sozinha durante uns vinte minutos, estava falando alto e coisas sem nexo. Cansei e fui me sentar, pedi um torresmo e depois uma salsicha em conserva. Neste meio tempo, senti vontade de ir ao banheiro, um cubículo fétido utilizado por todos. A descarga não estava funcionando e tinha um cocô boiando na água. Aquilo me causou náuseas e de repente uma reviravolta no meu estômago fez eclodir uma sensação de vômito, mas não cheguei a vomitar. Usei o banheiro e sai segurando nas paredes. Entretanto, tive de sair do estabelecimento para poder tomar ar e foi neste momento que não resisti, vomitei na calçada e cai. Uma pessoa, da qual não me lembro, ajudou-me a levantar e a sentar. Mesmo depois de tudo, as feridas da alma ainda não haviam cicatrizado. Então, comecei a misturar bebidas, primeiro cerveja e Martine, depois Whisky e Coca-Cola. Isto, lembrando que já havia tomado pinga e uma garrafa de vinho. Adentrando a madrugada, dormi em cima da mesa e o dono do bar convidou-me educadamente a se retirar porque iria fechar. Sem muita consciência do que estava fazendo, levantei novamente e sai vagando pela rua; não sabia onde estava e perdi o rumo de casa. Tinha vários carros estacionados na frente de um salão de festas e perguntei se algum deles não eram a Christine. Refleti por uns instantes e ri com tom irônico da minha própria idiotice. Olhei para a lua e ela estava linda, contemplei-a. Um riso histérico brotou dentro de mim e simultaneamente as lágrimas explodiram em meus olhos. O mundo ontem realmente estava negro, minha mente em trevas e meu coração em desilusão. Não faço a mínima idéia de como cheguei em casa. Simplesmente, acordei bem tarde com os pais e avós prontos para me fuzilar com sermões. Ouvi tudo calada, estava com uma dor de cabeça desgraçada, o rosto inchado e fisicamente abatida. E, no fim da história, a embriaguez aliviou, mas não curou as amarguras, não livrou-me dos problemas, nem tampouco curou as aflições da alma.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Só Você


É um absurdo não poder amar você.
É um absurdo não poder tocar você.
É um absurdo não poder ficar longe,
estando tão perto de você.
É um absurdo não poder dizer,
que mesmo sem você saber: eu amo você.
É um absurdo meu amor platônico por você.
É odioso gostar tanto de você.
É um absurdo não poder dizer,
que por te amar demais,
eu vou me esquecer de você.

sábado, 14 de agosto de 2010

À Deriva



De peça shakespeariana à novela mexicana
o aperto no coração a fazia divagar.
Com a mente a deriva e os olhos da alma a observar
se perdeu em caminhos procurando encontrar.
Sentiu medo, sentiu frio antes de naufragar,
mas, antes de afogar, tentou nadar.
Nos segundos que antecederam ao desastre
as palavras foram breves, os sentimentos foram muitos
e na falta de ter o que dizer, percebeu que o amava.
Depois de tudo, o navio foi para o fundo do mar.
Ficou flutuando na imensidão e só ai pode enxergar
que sonhar acordada era delírio, ficar com os olhos
abertos e com sono era insônia, perder os olhos no
horizonte azul era melancolia, perder a
melancolia para a invenção era histeria.
Cada um foi para um lado, ela flutuou e
ele ficou preso no fundo do grande barco.
Ele era deles e na sua amplitude, ficaram
perdidos, separados, para todo o sempre.
Ele afundou e o seu coração ficou arruinado.
Foi resgatada por uma fragata e hoje,
sentada naquela areia contaminada pelo lixo,
com os olhos perdidos na vastidão,
sei que com ela está o cérebro e com o mar... seu coração.

Em Memória do Cangaço


Tripa seca, cangaceiros.
Clima forte, tempo seco.
Pistoleiros, arrancavam a cabeça dos cabras.
Soltavam os monstros da mente e
as violências do corpo.
Cavalgavam pela penumbra.
Nos sertões, penteavam gato,
engoliam pena, comiam rato e carne seca.
Rodavam muito, andavam longe.
Conheceram muitos credos,
mas se apegaram a Deus nosso senhô.
Depois de tanta matança,
os sobreviventes deles se vingaram.
Cabras da peste, matadores,
não tiveram chances de salvação.
O movimento certo das peixeiras fizeram
escorrer o cheiro forte de sangue negro pelo chão.
E, então fecharam seus olhos e vagaram
eternamente pelo sertão assombrando
matadores que assassinavam por emoção.

domingo, 8 de agosto de 2010

Nas Curvas da Tua Pele Alva


Com os olhos a desejar, a nudez
daquele corpo era o bastante para perturbar.

Ardendo nas noites silenciosas, a flor da luxúria
perfumava o quarto com uma essência capaz de ludibriar.

Despindo-se devagar, as mãos a explorar as formas
e os caminhos tortuosos foram suficientes para afoguear.

O frio das madrugadas não foi o bastante para
intimidar o calor que nos aquecia em qualquer lugar.

Os movimentos claros com intenções obscuras
multiplicavam-se sob a luz do luar.

Cansados, com as virtudes perfiladas, nossos risos
enterneciam o presente que a Cegonha havida ido levar.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Perdido


Não sabia mais quem era,
mas também não se lembrava
de algum dia ter sido alguém.
Tão sozinho e perdido,
em meio aos outros só enxergava você.
Não conseguiu driblar os problemas mesquinhos.
Suprimido pelo mundo não sabia onde estava.
Sofreu calado e ela não entendeu.
Entre um trago e outro consumiu a vida.
Os sentimentos humanos, cortados na marra,
dilaceraram as flores que nasceriam no campo.
Mas ele estava sozinho e perdido.
Os óculos escuros disfarçavam o personagem.
Agora ele estava em outro mundo,
não sabia onde estava.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Vidas Aturdidas



O tempo que se seguia era de incerteza.
A realidade estava estafante,a vida estava estafante.
A vontade de fugir era gritante; esquecer os
problemas, abater as angústias e extinguir os
pensamentos fabricados. Mas,muitas eram as
tensões que afligiam. Pouco a pouco, as frustrações
os tornaram mais vulneráveis, porque, viver em
desilusão era sofrer. Esqueciam-se do mundo,se isolavam,
tentavam se auto-decifrar num cotidiano extenuado.
As palavras eram o seu ópio e as frases, o compasso.
Em contraponto, os contos, os textos e os poemas,
eram o descompasso entre a mente e o coração.
Não sabiam onde começava um e nem onde terminava o outro,
na verdade, não sabiam de nada. Talvez fossem metade
artistas, talvez metade cientistas. Talvez não fossem
nada disso, talvez fossem apenas uma grande
mentira que todos os dias se reinventavam
para suportar os abatimentos que aturdiam.

sábado, 31 de julho de 2010

Guerras e Jogos de Xadrez



Para quê os homens entram em guerra?
Várias faces, muitas peças de xadrez querendo
ocupar o mesmo espaço num mesmo jogo.
O rei, a rainha, o bispo, o poder...
A jogada final, o xeque Matt
é quantas pessoas podem matar.
Expandir o poder, chegar ao final.
O rei absoluto, sozinho no tabuleiro,
subjuga seus súditos. Sem saber quem
lutou, quem sofreu, quem ou quantos morreram.
Aqueles que fizeram de tudo para serem
lembrados, aqueles que chegaram no
fim do jogo quase sempre intactos.
Quem são eles? Uns poucos afortunados!?
Quantas peças conseguem derrubar?
Muitas faces e as invencíveis armas,
o xeque Matt, a cartada final e a última jogada:
Guerra no tabuleiro. O tabuleiro é o mundo,
onde quem perde pode outro dia ganhar.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Entre Suspiros e Sobressaltos

O contato do teu corpo no meu e os teus
lábios na minha face, amoleciam-me.
Imersa em sentimentalidades, a tua
afetuosidade fazia bater forte meu
coração; agitavam-me, numa fogosa
paixão expressa por intensa malícia
e voluptuosidade. Cantarolava horas a
fio e o meu jardim ficava florido
enquanto tua voz desfalecida compunha
buquês de palavras delicadas. Tuas
carícias estonteadoras dilatava a minha
vaidade, ampliava minha feminilidade e
despertava sensações risonhas. Numa
mistura de calma, sedução e pecado
ficava flutuando como uma pluma na água.
E,na profundidade da nossa calma,
vislumbrava o infinito. Devagarinho,
teus galanteios coravam a minha face
e animavam minha disposição para as
alegrias das noites que, a sós, fazíamos
festivas. Teus atrevimentos, tuas juras,
teu jeito de proceder o aconchego deixavam-me
palpitante, com pernas e mãos tremulas.
O desenfreamento da nossa paixão estava em
todos os cômodos, impregnado na memória
da nossa casa. Mas, agora, tudo é passado.
A instituição do casamento foi quebrada e
a inevitável viuvez, definha-me. Uma dor
emocional e psicológica me deixa entre a
amargura dos suspiros e o delírio dos sobressaltos.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Na escuridão da caixa



Mil pássaros batendo as asas numa pequena caixa fechada.
Estão ficando doentes porque falta luz.
A escuridão limita o horizonte dos vôos rasantes.
Corpos e bicos se debatem.
Quem olha de fora só vê a caixa.
Mas os que estão nela é que sabem.
A falta de espaço abafa o canto.
As penas que se soltam pregam o desencanto.
Nunca mais navegarão nos céus.
Viagem longa, contrabando. Miscelânea
de cores embalsamada numa mesa no canto.
A vida é cruel e na escuridão da caixa,a doença
que está matando abre a porta do infinito azul.
Na sala, o solitário enxerga a caixa,
o seu coração guarda os pássaros.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

No looping das pálpebras


Os olhos fechados rompem com os laços da discórdia.
A petulância e a insolência são esquecidas no afago.
O suspiro profundo desarma a boca cheia de palavras ásperas.
A tolerância floresce para sustentar a felicidade falsa.

Os olhos abertos selam os atos da discórdia.
A petulância e a insolência são lembradas
nos momentos amargos. O suspiro profundo
arma a mente com pensamentos nostálgicos.
A tolerância falece para não esquecer das grandes farsas.

Os olhos fechados e abertos movimentam
o looping das pálpebras. A petulância e
a insolência são destruídas no afago. O
suspiro corrompe a estabilidade da alma
e a tolerância novamente entra em colapso.

A sós com Billie


Neste quarto escuro, estamos a sós.
Lançada contra rochedos sinto-me
abraçada por tuas palavras; é como
se elas fossem melodias tocadas em
ambientes noturnos como minha alma.
O tom da tua voz alivia e tenho reflexões elevadas.
Lá fora, o mundo desdenha de mim, mas tuas
interpretações diminuem a ira concentrada
entre os escombros de minha alma.
Sou indigna de teu talento ávido,
porque ele ameniza feridas... Feridas que
sangram sob a forma de paixões recolhidas.
Entre a luz dessas velas, o fogo
também alimenta minha alma.
O que nos une é um CD e um rádio.
Sei que quando minhas pálpebras ficarem cansadas
e o meu olhar tornar-se turvo, você partirás.
Deixará ausente uma das poucas alegrias
que nutrem minha alma.
Para sucumbir, espero-lhe na noite seguinte.
Michael teve sua Billie Jean, eu tenho você,
minha querida Billie... Billie Holiday,
que nas noites uberabenses
acolhe o sofrimento de minha alma.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Filmes, Cartões Postais e Carros Antigos



Filmes, cartões postais e carros antigos,
suicídios plurais num dia-a-dia sem sentido.
Mapas sem trajetórias e roteiros sem destinos,
para além do imaginário o desabafo é o desatino.
No poema desafino. Devaneios, invenções irreais;
decomposição do pensamento e vícios de linguagem.
A contingência do espírito, o singular na paisagem.
A alucinação é o juízo. No devir da solidão o
caminho é o delírio. Os reflexos reais do
pensamento no vazio. Como último suspiro,
convicções danificadas: lembranças para aqueles
que já foram esquecidos. Mas e os filmes, os cartões
postais e os carros antigos? Invenções reais,
devaneios plurais, lembranças onde o desabafo
se torna desatino, sonhos daqueles que já foram esquecidos.

domingo, 18 de julho de 2010

Pensamento




O pensamento dimensiona a alma,
aproxima o que está afastado.
Desmistifica ídolos de ascendência e
colore naturezas pouco decifráveis.
Gera conjecturas, cria coisas esdrúxulas,
transforma as frutas verdes em maduras.
Edifica e destrói estruturas, matéria-prima
para duradouras molduras. Permite
encontrar o fascínio que se encontra
afastado, arquitetar os desvarios dos
grandes gênios, dos grandes magos, das
idéias dos loucos e dos deslizes dos fracos.
O pensamento é o arcabouço de tudo que é criado,
está em todos nós, pode diminuir ou crescer,
só depende daquele que pode ir além do que crê.

sábado, 17 de julho de 2010

Girassóis Envernizados



Para conseguir sobreviver
no limite entre a realidade e a
ilusão, desenho as palavras.
Porque é no tocar das palavras
simples que te encontro num
lugar muito além da imaginação.
Se a alma está doente, calma!
Existe um lugar lá fora do mundo,
onde não mais encontraremos
os girassóis envernizados. Lá,
onde o plano contempla os
carrosséis do imaginário.
Mas se mesmo assim a alma
continuar doente, calma!
A verdade qualquer hora deixa de
ser desilusão, pois, se a realidade
agora te exonera, me acompanhe
por esses lugares lá fora do mundo;
lá, onde a realidade é ilusão.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Reações Involuntárias



Pequenos sinais explodem no rosto
como centenas de rosas vermelhas que florescem
em beleza numa manhã de primavera.
Um corpo de homem, com uma mente de menino.
Enxergo-te perdido e sua confusão me confunde.
Sua fala sem nexo, às vezes,
me faz querer pular de um abismo.
Mas seus olhos em doçura
me permitem enxergar o paraíso.
Então é melhor sair de perto de mim, menino.
Não nego que o seu comportamento desordenado
faz nascer volúpias expressas por meio
de reações involuntárias e subjetividades entrepostas.
Mas, sei que não posso tê-las.
Então, espera a primavera virar verão.
Espera, para viver a época do frio que enfurece
os campos calmos nas noites de tempestade e furacão.
Mais depois de tudo novas belas manhãs
de primavera explodirão em flores,
vermelhas como o platonismo das reações involuntárias;
vibrantes, como os desvarios da mente contrariada.

Separados



Fora da luz dos teus olhos castanhos,
perco o fascínio pelo mundo.
Tudo se torna estranho e a
realidade racional fica pouco atraente.
A ilusão torna-se barco desancorado,
o peito emana um chiado e o choro anuncia a solidão.
As utopias do passado tornam-se
as inspirações para o nosso epitáfio.
Mas, agora nada é emoção.
A alma fica fatigada e o salto
nas terras fantásticas anuncia a libertação.
Inexistências, devaneios, mundos mágicos
permitem-nos sucumbir à escuridão.
Separados, cada um vai para um lado
e então os dias da vida se tornam amargos.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Em outras Galáxias

Os olhos verdes hipnotizam.
Os lábios carnudos ressoam palavras belas.
Primeiro de longe, depois mais perto.
Os opostos se atraem,
carnes e pêlos se tocam,
arrepios transbordam.
Deslizando as mãos pelas curvas,
a cápsula encontra a nave.
Fora da Terra, num lugar transcendental,
os fluxos anunciam espasmos.
Braços e coxas se confundem sob a luz baixa.
Os astros testemunham sussurros.
Com o universo desflorado o astronauta sai da nave.
Na escuridão do infinito,
a luz clara dos olhos anuncia a felicidade.
Da Terra vê o passado,
do teu lado alcança outras galáxias.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Não Chore Julinho!



Tua bravura foi fortalecida e tua
honra concretizada quando seus
olhos explodiram em lágrimas.

Não chore Julinho!

A dor da derrota não pode apagar
o desejo de conquista e de
glórias sonhadas durante horas.

Não chore Julinho!

Teu corpo é forte e teu espírito,
temido. Portanto, não deixe um momento
desapaixonante acabar contigo.

Não chore Julinho!

O objetivo de vencer uma copa não
desconstrói os méritos construídos
em anos de inúmeras vitórias.

Não chore Julinho!

Reflita sobre o passado,
acenda as luzes e abra as portas, pois,
queremos ver você na próxima copa.

sábado, 3 de julho de 2010

Futebol é um Plano Razo - 02/07/2010




No Brasil, futebol é coisa séria.
O sentimento nacionalista integra os
milhares e uma onda verde e amarela
cobre as terras fertéis e as áridas.
Cada um daqueles que entra nos campos
carrega o peso da responsabilidade,
da tradição e da raça. Entretanto,
as possibilidades de derrotas ou
vitórias são vertentes claras.
São anos de muito treino e preparo;
o quadro semelhante para todos os
jogadores que representam seus povos
nos gramados. Quando vencem, são
homens idolatrados. Quando perdem,
são duramente criticados. Mas,
futebol é um plano razo. Envolve
grandes batalhas, grandes alegrias
ou grandes fracassos. E hoje,
arrebatados por um gosto amargo,é
a imprensa e as centenas de técnicos
gaiatos que encenam o teatro sórdido
pensado fora da pressão dos gramados.
Adrenalina, testosterona e um desenrolar
dramático. Engolfados pela laranja
mecânica, nossos guerreiros ficaram
desolados. E nós, junto com eles, choramos
entristecidos, decepcionados, frustrados.
Mas, lembremos, futebol é um plano razo,
é um baú que surpreende até os mais
avisados,é um território de estratégias,
técnica e talento apurado. Controle psicológico
e emocional também fazem parte do prato.
Mas, abatidos pelo sistema o Dunga e o Felipe
Melo não foram os culpados, pois, o grupo que
ganha em conjunto,perde também em conjunto,
porque navegam no mesmo barco. Mas, lembremos,
futebol é um plano razo. As vitórias fogem
do controle e as alegrias se tornam passado.
E, quem um dia perdeu, no outro faz a
festa enquanto alguém chora calado.

domingo, 27 de junho de 2010

Um Prato muito Suculento




De todos os pratos daquele cardápio
existe um que se destaca. Suas carnes
são nobres e seu aroma perfumado.

O desejo de abocanhá-lo é imediato
e suas formas parecem guardar a
fonte de um prazer imensurável.

É um prato para ser degustado
durante longas horas utilizando todos
os talheres guardados no armário.

Qualidades como apetitoso e saudável é pouco
para caracterizar um filé tão bem dotado de
nutrientes que abastecem qualquer corpo fraco.

Mas como é um prato muito caro,
imaginamos nossos lábios tocando aquela
sustança, aquela fartura tão cobiçada.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Tua Obra Propaga


Não importa se sua aparência
foi algumas vezes recriada.

Não importa se os olhos do mundo
não entendeu o seu olhar sob uma
terra onde a infância nunca acaba.

Não importa se a ilusão e
a fantasia te inspirava.

Não importa se um sentido alegórico
te incomodava e a imprensa te
mal tratava com inglórias piadas.

O que importa é que milhares
de nós perdeu a graça, ficamos privados
daqueles passos que tanto empolgava.

Mesmo assim,mais nada importa,
porque é os homens que morrem; suas obras,
quando boas como as tuas, transbordam
no infinito das melodias sempre lembradas.

Estes Teus Olhos Castanhos




Sob a luz dos teus olhos
castanhos é impossível pensar.
Para não ter que ficar suspirando
pelos cantos é melhor desviar os
meus olhos do teu olhar.
Sem consentir, meu interior treme
e a força dos teus encantos
não me deixa raciocinar.
Asseguro-lhe, que meu peito
se enche de angústia quando distante
de ti alguém ousa me chatear.
Tuas súplicas por carinhos todas
as noites vem me atentar.
Então, quando a ternura dos
olhos teus me encontrar, em deleite
minha alma alegre chora por ter
tido a sorte de te encontrar.

sábado, 19 de junho de 2010

Testosterona Concentrada

Um monte de homem nervoso e suado,
o som das bubuzelas soando
por todos os lados e a bola
rolando no gramado é uma
mistura que causa entusiasmo.

Muitas belezas compartilhadas,
os olhos fixados nas jogadas e
os torcedores com a cara pintada
desnudam sentimentos à pátria amada.

Durante os treinos as estratégias
são testadas e as jogadas
ensaiadas ilustram o desafio
que é transpor uma teoria na prática.

Tocando a bola, dando o bote e o rebote
é a Jabulani que apanha e o jogador que faz
o corte. Muitas faltas são marcadas e os
impedimentos desestruturam goleadas.

Dentro dos campos brilham estrelas
de pernas bem torneadas que ora
nos enchem os olhos com bons dribles,
ora nos entristecem com grandes burradas.

Apreciamos então os jogadores e suas jogadas,
gostamos de ver o bonito futebol
e a testosterona concentrada.

Eternamente Juntos

Sonhei contigo na noite passada.
Contemplávamos paisagens macabras,
de móveis antigos numa sala lúgubre.
O ar estava denso e as velas fora dos castiçais.
O silêncio tinha força para trincar os vitrais
e invocar o presságio de um possível corvo “Nunca Mais”.

Toquei o seu rosto lívido e a solidão foi dividida em calafrios.
Nos seus olhos vi o medo, no teu corpo o arrepio.
Atendi o chamado ao colocar o meu fantasma do teu lado.
Vim para libertá-lo da peste, dos sofrimentos do passado.

A sala novamente respirou e o seu suspiro foi nostálgico.
O chão se tornou vale e o assombro um colapso.
No auge da penumbra contemplamos outra
vez o ambiente macabro e então fechou
os olhos para descansar eternamente do meu lado.

Envenenada

Ao olhar aquele epitáfio senti um calafrio.
Entendê-lo não foi um grande desafio,
porque o instante daquela visão pareceu tardio.

Delicadamente talhado na pedra
o pensamento era sombrio: “quem conviveu
comigo viu todos os dias o desatino”.

Perturbador e intrigante
me lembrei daquela vida num instante,
porque a desilusão era desgastante.

Uma coisa apavorante me perseguia,
destruía-me com covardia;
era a loucura que batia.

Estava nas letras e nos livros.
E num dia de humor reprimido
não suportei a tristeza que estava comigo.

Preparei um bonito jantar,
com uma taça de vinho para acompanhar.
Para sofisticar, não economizei
no veneno que nele quis colocar.

Por alguns instantes fiquei a contemplar.
Lembrei-me do passado que insistia em atormentar.
Sem mais tardar, um novo mundo veio se revelar.

O alívio foi profundo, por que
a vida fez da morte o ato mais puro.
Então, a agonia que incomodava sem cessar
foi embora para outro lugar.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

A Descrença de um Homem Ébrio

Perambulando sem rumo,
estava absorto em pensamentos.
Demasiado possesso,
pronunciava insultos e incomodava
com seu hálito ébrio.
Pouco lúcido, as mãos trêmulas,
debatiam-se no seu corpo inquieto.
Estava um trapo e parecia sofrer
com um evento muito certo.
Sua indiferença expressava
uma dor aguda, uma angústia arrebatadora.
Seu descompasso social, entretanto,
não era capaz de destruir a fisionomia
do seu rosto angelical.
Embriagado horas a fio,
não largava o bilhete que trazia consigo.
Balbuciando coisas sem nexo,
despia o significado das letras
que olhava possesso.
No papel alguém dizia que
para todo o sempre partiria
levando na memória uma vida de alegrias.
Tomado por um sentimento inacabado,
era um homem torturado.
Traído no passado, falava das artimanhas
de uma tímida sem embaraço.
Mas agora nada importava,
andava sem rumo pelas madrugadas.
Consumido pelas sombras
a vida era desgraça.
Para sucumbir, tornou-se alcoólatra;
o único sentido que encontrara.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Um Último Pôr-do-Sol em Port Royal




Enriqueci ao propiciar prazeres a temidos piratas e corsários. Nascida num pequeno vilarejo na Inglaterra, filha de humildes artesãos, conheci muito cedo o significado da fome. Aos dezessete me apaixonei por um forasteiro que ludibriou-me com o seu comportamento másculo. Naquele tempo eu possuía beleza, não havia experimentado as coisas do mundo e nem permitido que alguém violasse o meu corpo imaculado. A vida era dura e para ajudar no sustento da família, trabalhava durante longas horas em árduas tarefas. E foi num dia destes, de total desencanto e cansaço, que encontrei o duque. Ele tinha os cabelos danificados pela freqüente exposição ao sol, seus trajes não apresentavam luxo, suas orelhas e pescoço sustentavam adereços de ouro, seus olhos eram castanhos e seus hábitos, rudes. No passado havia sido pirata, mas como trouxe muitas riquezas para as nossas terras, Elizabeth, concedeu-lhe o título que agora tinha. Fui uma presa fácil, porque no tocar da noite me tornei mulher em seus braços. Ele não era romântico e nem delicado, não fez promessas e nem falou galanteios. Simplesmente, convidou-me para partir em sua companhia para Londres; disse que lá eu poderia melhorar de situação e, sem muito pensar, quis me aventurar. Abandonei os meus pais naquele mesmo luar (mal sabia que nunca mais iria vê-los). E, em dois dias, estávamos nos aproximando da cidade. Havia muita lama, o clima era gelado e o nevoeiro confundia os cavalos que estavam com dificuldades para puxar a carruagem. Ao chegarmos, o duque, levou-me a uma edificação de três andares. No primeiro, funcionava uma taberna, no segundo ficavam os quartos e, no último, os aposentos de madame Escarlate; mulher de personalidade singular à qual fui logo apresentada. Ela disse que para me hospedar era necessário satisfazer os desejos dos homens que visitavam a taberna. Com estupor, bati o pé com força no chão, peguei a mala e corri os olhos no ambiente procurando o meu acompanhante, mas ele havia me deixado. Sai desnorteada e passei dias vagando: procurei comida em meio à sujeira, pedi esmolas, senti frio e no ápice do desespero matei um rato e o consumi na carne crua até os ossos. Sem nenhum acolhimento ou condições para retornar ao vilarejo fui obrigada a procurar madame Escarlate. A partir daí ingressei na vida de cortesã. No início, sentia ojeriza do meu próprio corpo e ignorava os espelhos para não ter que ver a decadência das minhas formas. Entretanto, com o passar do tempo, os ferimentos da alma foram calejando e as partes intimas ficaram insensíveis ao toque das mãos imundas. Aos vinte e três já havia dormido com mais de mil homens. Por isso, me tornei uma ótima atriz, fiz fama, ganhei prestígio, conquistei amizades sinceras e passei a ser muito solicitada. Tive a oportunidade de comparecer aos bailes reais e observar a força e o esplendor de Elizabeth. Toquei as suas mãos e até consegui falar com ela algumas vezes. Ela sabia o que eu fazia e nunca me afrontou. Indiscutivelmente, era uma grande soberana. Todavia, foi em um destes festejos que conheci o encantador pirata que me levou para Port Royal. Ele era genuíno: fumava tabaco, tinha amor nas armas brancas, era astucioso e estava impregnado de uma inteligência maligna. Não tinha escrúpulos e por isso conseguia ser um grande flibusteiro. Com ele, viajei pelo mundo e conheci lugares fabulosos. Antilhas, Caribe, Vera Cruz, Panamá, Campeche e Cartagena-das-Índias foram apenas alguns destes lugares. Também naveguei pelos mares do Norte, da África, da Sicília e do canal da Mancha. O pirata em questão não era confiável (nenhum era); ele me ganhou numa jogada de moeda. Se desse cara, eu ficava com um corsário e se desse coroa, ficaria com ele. Foi o que aconteceu e, para contrariar a tripulação, ele permitiu que eu zarpasse. Existia a lenda de que uma mulher a bordo daria azar a expedição, porém, isto nunca ocorreu. O período que convivi com ele foi magnífico, porque pude aprender muitas artimanhas dos flibustes: eles sempre ficavam em lugares estratégicos. Geralmente, em ilhas que permitiam a vigia de rotas marítimas, sobretudo, de navios portugueses e espanhóis. Eles esperavam a embarcação que vinha abarrotada de ouro, prata, pérolas, peles, comidas e medicamentos. Saqueavam, não tinham compaixão ou piedade, não hesitavam em matar. Os navios destes flibusteiros eram sempre muito parecidos, possuíam um pavilhão negro e o mastro se destacava por ter um crânio e duas tíbias desbotadas pelo calor. Eles não tinham aliados, não respeitavam leis, não pertenciam a nenhum Estado. Eram homens dos oceanos, livres das convenções sociais, caracterizados como bandidos, marginais, totalmente perigosos. Apreciei bastante esta época da minha vida, fui muito feliz. Mas não tanto como em Port Royal, a cidade mais pervertida, a Sodoma do Novo Mundo, era o paraíso dos piratas. Ficava na rota de navegação entre a Espanha e o Panamá. Ela foi adquirida pela Inglaterra em 1655. Entretanto, conforme os ingleses não mandavam recursos para o zelo do lugar, os jamaicanos passaram a recorrer aos piratas para tomar conta. Nesta cidade, construí moradia e iniciei a acumulação da minha pequena fortuna. Freqüentadora dos bares, o meu lado libertino se tornou cada vez mais apurado. A falta de moral, a insolência, a desordem e tudo o que a imaginação permitisse era possível em Port Royal. Não deixei o anglicanismo, mas me lancei mais uma vez com alegria na vida promíscua. Pratiquei excentricidades com os piratas mais temidos dos oceanos, nem tinha tempo para me recompor. Apreciei milhares de afagos, beijei milhares de lábios encharcados de rum, participei de jogos de azar e corri ao redor de muitas fogueiras embriagada de vinhos. Sem lamentações, fui à primeira felizarda a tornar-se uma bandida de renome. Com o ouro que juntei, consegui comprar um ótimo barco e ingressar com honra na pirataria. Nas minhas viagens consegui flibusteiros de cabeça leviana e muita força física; pessoas fáceis de manipular, cujo comando e proposta de riquezas se tornaram irrecusáveis. Com eles montei a minha tripulação, deixei a fama de boa cortesã para ganhar outra de rainha do mar. O meu nome causou pavor nos quatro cantos globo e de acordo com o que aprendi não segui leis, não obedeci e nem temi as ameaças de ninguém. Contudo, em meio a tantas aventuras, sempre que podia, voltava para Port Royal. O território mais belo que pisei: suas areias eram as mais brancas, suas águas as mais cristalinas, suas palmeiras as mais verdes e o seu pôr-do-sol o mais arrebatador que enxerguei. Ainda hoje, aqui nesta prisão, quando fecho os olhos consigo sentir a brisa marinha tocando o meu rosto. Consigo visualizar a grande bola de fogo laranja tingindo o céu e refletindo sob o horizonte das águas. Estou com cinqüenta e dois, Port Royal foi engolida pelo mar e o desgaste me levou para o cárcere. Amanhã caminharei para o cadafalso para pagar pelos meus crimes. Não me arrependo de nada, a única tristeza que tenho é não poder vislumbrar mais uma vez o pôr-do-sol de Port Royal. Os instantes que antecedem a morte não são de desencanto, mas sim, de nostalgia de um passado de loucuras e inconveniências que sem duvida causaram inveja nas recatadas mulheres da minha geração. Nasci para viver nos prazeres do mundo e este destino se concretizou.


Londres, 25 de abril de 1700 - Memórias de uma pirata na noite que antecedera a sua execução no cadafalso.

domingo, 30 de maio de 2010

Me Despindo para Você

Tua timidez é amedrontadora
e ao mesmo tempo estonteante.
Teu jeito educado é tão bom
que chega a ser nauseante.
A força das tuas palavras sobre
meus pensamentos é massacrante.

Quando me pega pela cintura
com ar solene ou quando
se coloca do meu lado com
postura vigilante, descubro
que a felicidade da vida está
nesses pequenos instantes.

Ouvir os teus suspiros,
sentir o teu suor e retê-lo
entre meus braços causa
grande furor e entusiasmo;
os desejos se afloram e
os corpos entram em colapso.

Quando aperta de leve as
minhas mãos ou quando
passeamos em silêncio pelas ruas,
meus batimentos cardíacos se
multiplicam em imensurável ternura
e desnudam uma adorável paixão.

Driblar a tua inquietação e
fazê-lo feliz durante a insônia
é a minha maior diversão.
Juntos, inventamos várias
cenas construídas sem
nenhuma dramatização.

As curvas do teu corpo
são como dunas nas quais
é fácil se perder, os teus
lábios se contraindo na
minha pele é algo que nem
posso descrever.

O que posso dizer é que
sem você não posso viver.
Tu és a fonte da minha realização
e com os sentimentos despidos,
confesso-lhe que do teu
lado quero morrer.

sábado, 29 de maio de 2010

Endiabrados

Lançou o seu olhar bovino sobre eles.
Uns batiam o lápis na mesa,
outros, dormiam ternamente.
A maior parte, infelizmente,
conversava ferozmente.
Ele, ali parado, do lado do quadro,
esboçou na mente o seu plano bizarro.
No dia seguinte, um aluno
apareceu estrangulado;
grudado com fios de aço na
extremidade do quadro.
Arrasado estava o pai do endiabrado,
mas, com lamento nos olhos
e frieza no coração, feliz estava
o professor, igulamente endiabrado.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Eu, Tu e o Silêncio

Primeiro, nosso diálogo era literatura.
Depois veio o silêncio.

Separados por um muro imaginário,
nosso encanto foi quebrado.

Nós três no mesmo espaço,
cada qual no seu quadrado.

Olhos e olhos nunca mais se encontraram.
O desafeto desamarrou todos os laços.

Com um sorriso embaçado,
as vezes, o confronto é inevitável.

Embaraçados, ficamos nós três,
constrangidos no mesmo espaço.

Mas aquele amor do futuro
não existiu nem no passado.

E agora estamos sós, separados,
por um muro imaginário.

Sem dúvidas, acompanhados...
pelo silêncio, insuperável.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Ele Sabe

Ele sabe ser atraente quando aperta os lábios de preocupação.
Ele sabe ser discreto quando está em tentação.
Ele sabe ser cortez quando instigado a perdição.
Ele sabe o remédio que cura as dores de qualquer coração.

Ele é o cavalheiro que de tanto saber
fez desabrochar em flores os sentimentos
guardados no fundo do meu coração,
fez-se o muso da minha inspiração.

Ele só não sabe que quando aperta os lábios de preocupação
incendeia desejos e dimensiona a minha emoção.
Ele só não sabe que quando está em tentação
instiga os pontos mais obscuros da minha imaginação.
Ele só não sabe que quando faz uma explicação
minha alma se eleva e entendo o
significado da palavra paixão.

sábado, 15 de maio de 2010

As Faces da Morte

A morte não está somente
num corpo baleado ou
num caixão lacrado.
A morte não está somente
à sete palmos.
A morte está num plano fracassado,
num amor não compartilhado,
num objetivo não alcançado.

A morte não está somente
numa moléstia não curada
ou num ataque do coração.
A morte está nos dias
de interminável solidão,
nas feridas que não cicatrizam
utilizando apenas água e sabão.

A morte não está somente
num farto gole de vinho envenenado
ou num prato de comida estragada.
A morte está numa vida
não vivida, num corpo
de espírito malfadado.

A morte não está somente à sete palmos.
A morte está também nos nossos
pequenos grandes fracassos.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

As Flores não Brotam mais Naquele Jardim

Antes de a bruma tomar conta de tudo vi nascer grandes idéias na terra fértil daquela mente. Com uma caneta na mão e uma folha em branco muitas cores, formas e tons delineavam a engenhosidade da imaginação. Árvores exuberantes, frutos voadores, girassóis flutuantes, coelhos azuis e cogumelos gigantes eram retratados no jardim do seu cérebro brilhante. O céu era um quadriculado preto e branco, as nuvens eram rosadas e os habitantes possuíam poderes mágicos. As técnicas da levitação e do tele-transporte já estavam muito desenvolvidas, não existia poluição e qualquer um que quisesse podia viajar por todo o universo. Em meio a tantas invenções e aventuras realizadas no papel, a mente, começou a pregar-lhe algumas peças. Havia momentos que as idéias iam se materializando na sua frente e, sem dúvida, ficava literalmente imerso nas ilusões que produzia. As verdades da sua imaginação só eram interrompidas quando passava horas se deliciando com algum livro ou filme. Fora das alegrias geradas pelos devaneios a sua vida certamente era monótona, soturna e problemática. Isto fez com que buscasse cada vez mais refúgio no seu mundo fantástico. Na verdade, gostaria de nunca mais ter que sair dele. O que se seguiu foi um embate entre a realidade pouco atraente da vida e os devaneios fomentados no próspero jardim da sua imaginação. Na confusão desse embate a bruma surgiu de mansinho e foi se espalhando. Todas as cores se perderam e o jardim sobrevive agora como um campo de plantas mortas.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Eu, Tu e a Utopia

Foi na escuridão dos teus olhos
que encontrei os pontos de luz
que iluminaram a minha vida.

Foi na doce sinfonia da tua voz
que silenciei o desatino
que atormentava meu dia-a-dia.

Foi na confusão da tua alegria
que encontrei a mesma calmaria
presente no esplendor de cada dia.

Foi na escuridão dos teus olhos,
na doce sinfonia tocada pela tua alegria
que decifrei o significado da palavra utopia.

Você Dormindo ao Meu Lado

Não existe nada mais agradável
do que contemplar você
dormindo ao meu lado.

Afogada num oceano de entusiasmos
é uma honra oferecer-lhe afago;
torno-me ilha e você naufrago.

Debaixo das cobertas,
meus lábios inquietos tocam
o seu rosto avermelhado.

Com o cheiro de cidreira e o geito delicado
é impossível não se apaixonar
ao ver você sonhando ao meu lado.

E eu, sonhando contigo,
desvendo o sentido ao ter
você dormindo ao meu lado.

Ao menino que se formou na USP



Ele não veio num cavalo branco,
mas veio vestido de médico,
num jaleco branco.

Altivo, inteligente, educado;
um jovem que encontrei por acaso
numa bela manhã de segunda.

O emblema da USP bordado na roupa
cobria o delicado braço, mas descoberto
ficou meu coração envergonhado.

Encabulada e com as faces rosadas,
fiquei, quando ele descobriu que
nenhuma moléstia me degradava.

A cena foi engraçada, porque,
ele também ficou desconcentrado
e escreveu o atestado no papel errado.

No ato da consulta nossos sentidos
se amplificaram e cada minuto
foi apreciado com muito entusiasmo.

domingo, 25 de abril de 2010

Alice no País das Maravilhas


Depois de dois anos acompanhando o processo de criação do filme, pode-se dizer que o resultado final integra uma explosão de cores numa atmosfera escura. Essa atmosfera faz com que a intensidade das cores se apague um pouco, iluminando, conseqüentemente, o estilo de Tim Burton que se caracteriza pela mistura de fantasia e horror, expressos de forma sutil. Está presente na rainha de copas que não titubeia ao mandar decapitar aqueles que a desagrada e também no lago infestado de cadáveres que cerca o seu castelo. Os personagens conseguiram bilhar individualmente, mas três se destacaram. Alice, de Mia Wasikowska, foi interpretada, até certo ponto, como uma pessoa que acreditava estar sonhando com um lugar onde tudo que via era fruto de sua mente, produto da imaginação. Numa seqüência de diminuir e crescer aparece com belos figurinos e, no inicio, quando está prestes a ser pedida em casamento, por um lorde, a sua negação interior quanto ao pedido a impulsiona a enxergar um grande coelho branco vestido. Ele mostra a ela um relógio marcando a hora; a hora de voltar. Antes do retorno, no mundo real, ela interage com personagens que remetem ao comportamento de pessoas que na prática não são aquilo que deveriam ser. O lorde não demonstra ter o refinamento que se espera ao soar o nariz, o marido de sua irmã a traí no jardim e tem uma tia solteirona que delira esperando um príncipe. Essas figuras e situações levam Alice a sucumbir ao pedido. Correndo rumo ao horizonte, chega até o buraco que a leva de volta. Ao adentrar novamente o país, o estilo timburtiano nasce arrebatador, está na forma das portas, nas árvores e nas escadas. O Chapeleiro Louco, na atuação de Johnny Depp, surge composto por uma personalidade excêntrica, com uma voz intrigante. Rouba a cena e ofusca Alice com seu jeito pitoresco. Às vezes, fala tão rápido que mal dá para entender, possui também um interessante vocabulário. Os cabelos alaranjados, os olhos esverdeados e o chapéu tão cobiçado pelo gato enriquecem as suas boas ações e expandem sua imagem louco; em repetidos momentos pergunta o quê um corcunda e uma escrivaninha tem em comum. Torna-se um dos principais aliados de Alice para desestruturar o poder da Rainha de Copas, também chamada de Rainha Vermelha, feita por Helena Bonham Carter. Com uma cabeça grande num corpo pequeno, dissemina malvadezas pelo país das maravilhas e demonstra ter apreço pelo fato de ser tão temida e, ao mesmo tempo, ilustra um ser enciumado e cheio de ressentimentos. A sua principal estratégia de controle é ordenar que cortem a cabeça de seus inimigos. Passa por uma falsa bajulação de sua corte que se fantasia com características bizarras só para agradá-la. Pensa ser o centro do país, é autoritária, não tem estima por seus animais móveis e exige que todos a sirvam, inclusive a sua irmã, a Rainha Branca, representada por Anne Hathaway. Com uma maquilagem que valoriza a boca, os olhos e as sobrancelhas num universo claro, a Rainha Branca tenta expressar beleza em seus movimentos delicados; consegue ser cômica e a brancura de seu reino é opaca. Perto da Atuação de Johnny Depp e Helena Bonham Carter a interpretação de Anne Hathaway é igualmente opaca. Com uma modesta participação o Valete, feito por Crispin Glover indica um personagem inescrupuloso que assedia Alice e finge fidelidade a Rainha de Copas. Tem também os irmãos Tweedledee e Tweedledum que são muito engraçados. Sobre tudo isto, na minha visão, as três figuras que foram mais bem interpretadas são, inquestionavelmente, o Chapeleiro Louco e a Rainha de Copas. A Alice não foi tão brilhante, mas teve seu realce. Contudo, deve-se levar em conta, tanto no caso da atriz que interpretou a Alice, quanto no caso de Anne Hathaway, que é difícil encenar algo incrível perto de dois atores bem mais experientes e conceituados. Os animais em animação também brilharam, gostei muito da largata fumando (ópio?!) e do gato, com temperamento inusitado, que fica invisível. Em relação à tecnologia 3D é impossível não ficar encantado. Ao voltar do país das maravilhas, Alice recusa o noivado e diz, de fato, o que pensa sobre a realidade em que vive e as pessoas que a cerca. Neste instante ela parece estar detestável, mas, depois, é admissível entender o significado que, na minha leitura, está em fazer do mundo real o país das maravilhas, segundo as nossas possibilidades buscar-se-á ousar, criar, transcender limites, abater dificuldades, guiar nosso destino para alcançar as “lonjuras” dos nossos sonhos para que eles se materializem de verdade. Aí está o sentido da última fala do chapeleiro desejando “boas lonjuras” à Alice.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Ao Novo Dom Juan de Marco




Teus olhos emanam amor
e são reluzentes como raios.
Silenciam pensamentos amargos
e aguçam os desejos guardados.

Igualmente belos e sedutores são os lábios.
Sorridentes como os olhos,
se assemelham a corações apaixonados.
Sempre vermelhos instigam travessuras
e pensamentos sobre mundos encantados.

Na composição dos olhos
e no movimento dos lábios
a intensidade da tua formosura
ofusca qualquer espaço.
Por isso, espero que fiques
sempre do meu lado.

segunda-feira, 29 de março de 2010

À Sombra de Belos Cavalheiros


Numa roupa simples ou num smoking, o coração se enche de ternura quando os vejo. Com as faces perfiladas sinto-me embriagada por doses fartas de alegrias que se misturam a devaneios. Perto deles, sob seus olhares atenciosos, a sensação de proteção desencadeia volúpias. Frases afetuosas e abraços carinhosos multiplicam o desejo de aproximação. No cotidiano, ou fora dele, a presença de cavalheiros é uma necessidade, uma das principais fontes da inspiração. Loiros, ruivos, negros ou com a tez morena, passam de desconhecidos para amigos cujo nível de intimidade permite confidências guardadas nas caixas mais secretas. Mas, não são só alegrias e volúpias que os cavalheiros despertam. Eles também alimentam a alma e dão sentido a vida. Entre felicidades e desventuras nunca se negam a falar mentiras que confortam ou verdades que atormentam. Ajudam a abrir as portas da mente e esquecer os caminhos do abismo. Sempre ao meu redor fazem da troca de idéias um benefício constante. Quando longe, não se esquecem de mim. Quando perto, a simples presença causa venturas imensuráveis. Sozinhos ou em grupos tornam-se o teto da minha casa, a luz do meu dia, vivificam a minha fantasia. E quando não há nenhuma indagação a questionar, eles tomam conta dos meus pensamentos.