domingo, 27 de junho de 2010

Um Prato muito Suculento




De todos os pratos daquele cardápio
existe um que se destaca. Suas carnes
são nobres e seu aroma perfumado.

O desejo de abocanhá-lo é imediato
e suas formas parecem guardar a
fonte de um prazer imensurável.

É um prato para ser degustado
durante longas horas utilizando todos
os talheres guardados no armário.

Qualidades como apetitoso e saudável é pouco
para caracterizar um filé tão bem dotado de
nutrientes que abastecem qualquer corpo fraco.

Mas como é um prato muito caro,
imaginamos nossos lábios tocando aquela
sustança, aquela fartura tão cobiçada.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Tua Obra Propaga


Não importa se sua aparência
foi algumas vezes recriada.

Não importa se os olhos do mundo
não entendeu o seu olhar sob uma
terra onde a infância nunca acaba.

Não importa se a ilusão e
a fantasia te inspirava.

Não importa se um sentido alegórico
te incomodava e a imprensa te
mal tratava com inglórias piadas.

O que importa é que milhares
de nós perdeu a graça, ficamos privados
daqueles passos que tanto empolgava.

Mesmo assim,mais nada importa,
porque é os homens que morrem; suas obras,
quando boas como as tuas, transbordam
no infinito das melodias sempre lembradas.

Estes Teus Olhos Castanhos




Sob a luz dos teus olhos
castanhos é impossível pensar.
Para não ter que ficar suspirando
pelos cantos é melhor desviar os
meus olhos do teu olhar.
Sem consentir, meu interior treme
e a força dos teus encantos
não me deixa raciocinar.
Asseguro-lhe, que meu peito
se enche de angústia quando distante
de ti alguém ousa me chatear.
Tuas súplicas por carinhos todas
as noites vem me atentar.
Então, quando a ternura dos
olhos teus me encontrar, em deleite
minha alma alegre chora por ter
tido a sorte de te encontrar.

sábado, 19 de junho de 2010

Testosterona Concentrada

Um monte de homem nervoso e suado,
o som das bubuzelas soando
por todos os lados e a bola
rolando no gramado é uma
mistura que causa entusiasmo.

Muitas belezas compartilhadas,
os olhos fixados nas jogadas e
os torcedores com a cara pintada
desnudam sentimentos à pátria amada.

Durante os treinos as estratégias
são testadas e as jogadas
ensaiadas ilustram o desafio
que é transpor uma teoria na prática.

Tocando a bola, dando o bote e o rebote
é a Jabulani que apanha e o jogador que faz
o corte. Muitas faltas são marcadas e os
impedimentos desestruturam goleadas.

Dentro dos campos brilham estrelas
de pernas bem torneadas que ora
nos enchem os olhos com bons dribles,
ora nos entristecem com grandes burradas.

Apreciamos então os jogadores e suas jogadas,
gostamos de ver o bonito futebol
e a testosterona concentrada.

Eternamente Juntos

Sonhei contigo na noite passada.
Contemplávamos paisagens macabras,
de móveis antigos numa sala lúgubre.
O ar estava denso e as velas fora dos castiçais.
O silêncio tinha força para trincar os vitrais
e invocar o presságio de um possível corvo “Nunca Mais”.

Toquei o seu rosto lívido e a solidão foi dividida em calafrios.
Nos seus olhos vi o medo, no teu corpo o arrepio.
Atendi o chamado ao colocar o meu fantasma do teu lado.
Vim para libertá-lo da peste, dos sofrimentos do passado.

A sala novamente respirou e o seu suspiro foi nostálgico.
O chão se tornou vale e o assombro um colapso.
No auge da penumbra contemplamos outra
vez o ambiente macabro e então fechou
os olhos para descansar eternamente do meu lado.

Envenenada

Ao olhar aquele epitáfio senti um calafrio.
Entendê-lo não foi um grande desafio,
porque o instante daquela visão pareceu tardio.

Delicadamente talhado na pedra
o pensamento era sombrio: “quem conviveu
comigo viu todos os dias o desatino”.

Perturbador e intrigante
me lembrei daquela vida num instante,
porque a desilusão era desgastante.

Uma coisa apavorante me perseguia,
destruía-me com covardia;
era a loucura que batia.

Estava nas letras e nos livros.
E num dia de humor reprimido
não suportei a tristeza que estava comigo.

Preparei um bonito jantar,
com uma taça de vinho para acompanhar.
Para sofisticar, não economizei
no veneno que nele quis colocar.

Por alguns instantes fiquei a contemplar.
Lembrei-me do passado que insistia em atormentar.
Sem mais tardar, um novo mundo veio se revelar.

O alívio foi profundo, por que
a vida fez da morte o ato mais puro.
Então, a agonia que incomodava sem cessar
foi embora para outro lugar.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

A Descrença de um Homem Ébrio

Perambulando sem rumo,
estava absorto em pensamentos.
Demasiado possesso,
pronunciava insultos e incomodava
com seu hálito ébrio.
Pouco lúcido, as mãos trêmulas,
debatiam-se no seu corpo inquieto.
Estava um trapo e parecia sofrer
com um evento muito certo.
Sua indiferença expressava
uma dor aguda, uma angústia arrebatadora.
Seu descompasso social, entretanto,
não era capaz de destruir a fisionomia
do seu rosto angelical.
Embriagado horas a fio,
não largava o bilhete que trazia consigo.
Balbuciando coisas sem nexo,
despia o significado das letras
que olhava possesso.
No papel alguém dizia que
para todo o sempre partiria
levando na memória uma vida de alegrias.
Tomado por um sentimento inacabado,
era um homem torturado.
Traído no passado, falava das artimanhas
de uma tímida sem embaraço.
Mas agora nada importava,
andava sem rumo pelas madrugadas.
Consumido pelas sombras
a vida era desgraça.
Para sucumbir, tornou-se alcoólatra;
o único sentido que encontrara.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Um Último Pôr-do-Sol em Port Royal




Enriqueci ao propiciar prazeres a temidos piratas e corsários. Nascida num pequeno vilarejo na Inglaterra, filha de humildes artesãos, conheci muito cedo o significado da fome. Aos dezessete me apaixonei por um forasteiro que ludibriou-me com o seu comportamento másculo. Naquele tempo eu possuía beleza, não havia experimentado as coisas do mundo e nem permitido que alguém violasse o meu corpo imaculado. A vida era dura e para ajudar no sustento da família, trabalhava durante longas horas em árduas tarefas. E foi num dia destes, de total desencanto e cansaço, que encontrei o duque. Ele tinha os cabelos danificados pela freqüente exposição ao sol, seus trajes não apresentavam luxo, suas orelhas e pescoço sustentavam adereços de ouro, seus olhos eram castanhos e seus hábitos, rudes. No passado havia sido pirata, mas como trouxe muitas riquezas para as nossas terras, Elizabeth, concedeu-lhe o título que agora tinha. Fui uma presa fácil, porque no tocar da noite me tornei mulher em seus braços. Ele não era romântico e nem delicado, não fez promessas e nem falou galanteios. Simplesmente, convidou-me para partir em sua companhia para Londres; disse que lá eu poderia melhorar de situação e, sem muito pensar, quis me aventurar. Abandonei os meus pais naquele mesmo luar (mal sabia que nunca mais iria vê-los). E, em dois dias, estávamos nos aproximando da cidade. Havia muita lama, o clima era gelado e o nevoeiro confundia os cavalos que estavam com dificuldades para puxar a carruagem. Ao chegarmos, o duque, levou-me a uma edificação de três andares. No primeiro, funcionava uma taberna, no segundo ficavam os quartos e, no último, os aposentos de madame Escarlate; mulher de personalidade singular à qual fui logo apresentada. Ela disse que para me hospedar era necessário satisfazer os desejos dos homens que visitavam a taberna. Com estupor, bati o pé com força no chão, peguei a mala e corri os olhos no ambiente procurando o meu acompanhante, mas ele havia me deixado. Sai desnorteada e passei dias vagando: procurei comida em meio à sujeira, pedi esmolas, senti frio e no ápice do desespero matei um rato e o consumi na carne crua até os ossos. Sem nenhum acolhimento ou condições para retornar ao vilarejo fui obrigada a procurar madame Escarlate. A partir daí ingressei na vida de cortesã. No início, sentia ojeriza do meu próprio corpo e ignorava os espelhos para não ter que ver a decadência das minhas formas. Entretanto, com o passar do tempo, os ferimentos da alma foram calejando e as partes intimas ficaram insensíveis ao toque das mãos imundas. Aos vinte e três já havia dormido com mais de mil homens. Por isso, me tornei uma ótima atriz, fiz fama, ganhei prestígio, conquistei amizades sinceras e passei a ser muito solicitada. Tive a oportunidade de comparecer aos bailes reais e observar a força e o esplendor de Elizabeth. Toquei as suas mãos e até consegui falar com ela algumas vezes. Ela sabia o que eu fazia e nunca me afrontou. Indiscutivelmente, era uma grande soberana. Todavia, foi em um destes festejos que conheci o encantador pirata que me levou para Port Royal. Ele era genuíno: fumava tabaco, tinha amor nas armas brancas, era astucioso e estava impregnado de uma inteligência maligna. Não tinha escrúpulos e por isso conseguia ser um grande flibusteiro. Com ele, viajei pelo mundo e conheci lugares fabulosos. Antilhas, Caribe, Vera Cruz, Panamá, Campeche e Cartagena-das-Índias foram apenas alguns destes lugares. Também naveguei pelos mares do Norte, da África, da Sicília e do canal da Mancha. O pirata em questão não era confiável (nenhum era); ele me ganhou numa jogada de moeda. Se desse cara, eu ficava com um corsário e se desse coroa, ficaria com ele. Foi o que aconteceu e, para contrariar a tripulação, ele permitiu que eu zarpasse. Existia a lenda de que uma mulher a bordo daria azar a expedição, porém, isto nunca ocorreu. O período que convivi com ele foi magnífico, porque pude aprender muitas artimanhas dos flibustes: eles sempre ficavam em lugares estratégicos. Geralmente, em ilhas que permitiam a vigia de rotas marítimas, sobretudo, de navios portugueses e espanhóis. Eles esperavam a embarcação que vinha abarrotada de ouro, prata, pérolas, peles, comidas e medicamentos. Saqueavam, não tinham compaixão ou piedade, não hesitavam em matar. Os navios destes flibusteiros eram sempre muito parecidos, possuíam um pavilhão negro e o mastro se destacava por ter um crânio e duas tíbias desbotadas pelo calor. Eles não tinham aliados, não respeitavam leis, não pertenciam a nenhum Estado. Eram homens dos oceanos, livres das convenções sociais, caracterizados como bandidos, marginais, totalmente perigosos. Apreciei bastante esta época da minha vida, fui muito feliz. Mas não tanto como em Port Royal, a cidade mais pervertida, a Sodoma do Novo Mundo, era o paraíso dos piratas. Ficava na rota de navegação entre a Espanha e o Panamá. Ela foi adquirida pela Inglaterra em 1655. Entretanto, conforme os ingleses não mandavam recursos para o zelo do lugar, os jamaicanos passaram a recorrer aos piratas para tomar conta. Nesta cidade, construí moradia e iniciei a acumulação da minha pequena fortuna. Freqüentadora dos bares, o meu lado libertino se tornou cada vez mais apurado. A falta de moral, a insolência, a desordem e tudo o que a imaginação permitisse era possível em Port Royal. Não deixei o anglicanismo, mas me lancei mais uma vez com alegria na vida promíscua. Pratiquei excentricidades com os piratas mais temidos dos oceanos, nem tinha tempo para me recompor. Apreciei milhares de afagos, beijei milhares de lábios encharcados de rum, participei de jogos de azar e corri ao redor de muitas fogueiras embriagada de vinhos. Sem lamentações, fui à primeira felizarda a tornar-se uma bandida de renome. Com o ouro que juntei, consegui comprar um ótimo barco e ingressar com honra na pirataria. Nas minhas viagens consegui flibusteiros de cabeça leviana e muita força física; pessoas fáceis de manipular, cujo comando e proposta de riquezas se tornaram irrecusáveis. Com eles montei a minha tripulação, deixei a fama de boa cortesã para ganhar outra de rainha do mar. O meu nome causou pavor nos quatro cantos globo e de acordo com o que aprendi não segui leis, não obedeci e nem temi as ameaças de ninguém. Contudo, em meio a tantas aventuras, sempre que podia, voltava para Port Royal. O território mais belo que pisei: suas areias eram as mais brancas, suas águas as mais cristalinas, suas palmeiras as mais verdes e o seu pôr-do-sol o mais arrebatador que enxerguei. Ainda hoje, aqui nesta prisão, quando fecho os olhos consigo sentir a brisa marinha tocando o meu rosto. Consigo visualizar a grande bola de fogo laranja tingindo o céu e refletindo sob o horizonte das águas. Estou com cinqüenta e dois, Port Royal foi engolida pelo mar e o desgaste me levou para o cárcere. Amanhã caminharei para o cadafalso para pagar pelos meus crimes. Não me arrependo de nada, a única tristeza que tenho é não poder vislumbrar mais uma vez o pôr-do-sol de Port Royal. Os instantes que antecedem a morte não são de desencanto, mas sim, de nostalgia de um passado de loucuras e inconveniências que sem duvida causaram inveja nas recatadas mulheres da minha geração. Nasci para viver nos prazeres do mundo e este destino se concretizou.


Londres, 25 de abril de 1700 - Memórias de uma pirata na noite que antecedera a sua execução no cadafalso.