sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Em Memória de Edgar Allan Poe - Citação

Havia em torno de nós próprios coisas indistintas, ao mesmo tempo espirituais e materiais, não posso descrever: uma atmosfera pesada, abafadiça; uma sensação de tristeza, de agonia, e sobretudo atormentava-nos este estado terrível da existência, que ataca as pessoas nervosas, quando os sentidos estão vivos e despertos, e as faculdades do espírito adormecidas e fatigadas. Sentíamos um peso mortal, que carregava sobre os nossos membros, sobre os móveis da sala, sobre os copos em que bebíamos. Tudo parecia oprimido e prostrado naquele abatimento sinistro, tudo, exceto as chamas das sete lâmpadas de ferro que esclareciam a nossa orgia, alongando-se em finos filetes de fogo. A mesa de ébano, em volta da qual estávamos assentados, refletindo a pálida claridade das luzes, semelhava um espelho negro, onde cada um contemplava a lividez do próprio rosto e o olhar vago e amortecido dos outros convivas (Allan Poe).

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Tributo a Vincent Malloy

Enclausurado no quarto, no universo fechado, a falta de limites para a imaginação dava formas ao desatino que brotava do corpo moribundo. Preso na masmorra, jogado no fundo do poço, passava a vida se perguntando o que faria, onde iria chegar. Acreditava desconhecer virtudes e fora das horas cantarolava mentiras que alegravam as ilusões da alma triste. Cambiava pensamentos com interlocutores que mesmo sendo mudos diziam muitas coisas. Sentia vontade de cair fora do mundo e sucumbir aos abatimentos e decepções condicionadas por uma realidade fúnebre. Inventava mundos novos que se caracterizavam por sombras e trevas, sofrimentos e agonias, que ficavam presas no aquário de elementos que não existem.

Embriaguei-Me na Noite Passada



Ontem, uma amargura me apertava no peito. Liguei para os amigos e os convidei para sair, mas infelizmente estavam todos ocupados. A tristeza corroia-me e num lapso tomei um banho, borrifei por todo corpo o perfume mais caro, escolhi brincos de ouro, salto alto e coloquei o meu melhor vestido. Já sou bem grandinha e não expliquei à família aonde iria. Meus pensamentos ficaram vazios e entrei no primeiro bar que encontrei. Este ficava numa esquina parcialmente perto da minha casa, apenas a uns quatro quarteirões acima. Tinha uma mesa de sinuca, as paredes eram de um verde encardido, o chão parecia que não via água fazia tempo, havia um balcão e a parede atrás dele possuía três prateleiras cheias de bebidas alcoólicas que variavam de marcas, sabores e preços. Pedi logo uma dose de Cinqüenta e Um, não prestei muita atenção no acontecia e num gole só mandei tudo para dentro. Aquilo desceu rasgando no esôfago e fiz uma careta. Depois pedi uma garrafa do Vinho Chapinha, dispensei o copo e bebi tudo no bico. Os bebuns ficaram olhando-me com olhos espantados, cochichando pelos cantos. Contudo, em nenhum momento se dirigiram a mim ou foram desrespeitosos porque a maior parte deles eram conhecidos do meu pai ou avô. Aos poucos fui ficando mais leve e alegre, estava sentada numa mesa no canto e a única coisa que o meu cérebro processava era a música “Garçom” do Reginaldo Rossi. Meio cambaleando, levantei e quis dançar. Bailei sozinha durante uns vinte minutos, estava falando alto e coisas sem nexo. Cansei e fui me sentar, pedi um torresmo e depois uma salsicha em conserva. Neste meio tempo, senti vontade de ir ao banheiro, um cubículo fétido utilizado por todos. A descarga não estava funcionando e tinha um cocô boiando na água. Aquilo me causou náuseas e de repente uma reviravolta no meu estômago fez eclodir uma sensação de vômito, mas não cheguei a vomitar. Usei o banheiro e sai segurando nas paredes. Entretanto, tive de sair do estabelecimento para poder tomar ar e foi neste momento que não resisti, vomitei na calçada e cai. Uma pessoa, da qual não me lembro, ajudou-me a levantar e a sentar. Mesmo depois de tudo, as feridas da alma ainda não haviam cicatrizado. Então, comecei a misturar bebidas, primeiro cerveja e Martine, depois Whisky e Coca-Cola. Isto, lembrando que já havia tomado pinga e uma garrafa de vinho. Adentrando a madrugada, dormi em cima da mesa e o dono do bar convidou-me educadamente a se retirar porque iria fechar. Sem muita consciência do que estava fazendo, levantei novamente e sai vagando pela rua; não sabia onde estava e perdi o rumo de casa. Tinha vários carros estacionados na frente de um salão de festas e perguntei se algum deles não eram a Christine. Refleti por uns instantes e ri com tom irônico da minha própria idiotice. Olhei para a lua e ela estava linda, contemplei-a. Um riso histérico brotou dentro de mim e simultaneamente as lágrimas explodiram em meus olhos. O mundo ontem realmente estava negro, minha mente em trevas e meu coração em desilusão. Não faço a mínima idéia de como cheguei em casa. Simplesmente, acordei bem tarde com os pais e avós prontos para me fuzilar com sermões. Ouvi tudo calada, estava com uma dor de cabeça desgraçada, o rosto inchado e fisicamente abatida. E, no fim da história, a embriaguez aliviou, mas não curou as amarguras, não livrou-me dos problemas, nem tampouco curou as aflições da alma.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Só Você


É um absurdo não poder amar você.
É um absurdo não poder tocar você.
É um absurdo não poder ficar longe,
estando tão perto de você.
É um absurdo não poder dizer,
que mesmo sem você saber: eu amo você.
É um absurdo meu amor platônico por você.
É odioso gostar tanto de você.
É um absurdo não poder dizer,
que por te amar demais,
eu vou me esquecer de você.

sábado, 14 de agosto de 2010

À Deriva



De peça shakespeariana à novela mexicana
o aperto no coração a fazia divagar.
Com a mente a deriva e os olhos da alma a observar
se perdeu em caminhos procurando encontrar.
Sentiu medo, sentiu frio antes de naufragar,
mas, antes de afogar, tentou nadar.
Nos segundos que antecederam ao desastre
as palavras foram breves, os sentimentos foram muitos
e na falta de ter o que dizer, percebeu que o amava.
Depois de tudo, o navio foi para o fundo do mar.
Ficou flutuando na imensidão e só ai pode enxergar
que sonhar acordada era delírio, ficar com os olhos
abertos e com sono era insônia, perder os olhos no
horizonte azul era melancolia, perder a
melancolia para a invenção era histeria.
Cada um foi para um lado, ela flutuou e
ele ficou preso no fundo do grande barco.
Ele era deles e na sua amplitude, ficaram
perdidos, separados, para todo o sempre.
Ele afundou e o seu coração ficou arruinado.
Foi resgatada por uma fragata e hoje,
sentada naquela areia contaminada pelo lixo,
com os olhos perdidos na vastidão,
sei que com ela está o cérebro e com o mar... seu coração.

Em Memória do Cangaço


Tripa seca, cangaceiros.
Clima forte, tempo seco.
Pistoleiros, arrancavam a cabeça dos cabras.
Soltavam os monstros da mente e
as violências do corpo.
Cavalgavam pela penumbra.
Nos sertões, penteavam gato,
engoliam pena, comiam rato e carne seca.
Rodavam muito, andavam longe.
Conheceram muitos credos,
mas se apegaram a Deus nosso senhô.
Depois de tanta matança,
os sobreviventes deles se vingaram.
Cabras da peste, matadores,
não tiveram chances de salvação.
O movimento certo das peixeiras fizeram
escorrer o cheiro forte de sangue negro pelo chão.
E, então fecharam seus olhos e vagaram
eternamente pelo sertão assombrando
matadores que assassinavam por emoção.

domingo, 8 de agosto de 2010

Nas Curvas da Tua Pele Alva


Com os olhos a desejar, a nudez
daquele corpo era o bastante para perturbar.

Ardendo nas noites silenciosas, a flor da luxúria
perfumava o quarto com uma essência capaz de ludibriar.

Despindo-se devagar, as mãos a explorar as formas
e os caminhos tortuosos foram suficientes para afoguear.

O frio das madrugadas não foi o bastante para
intimidar o calor que nos aquecia em qualquer lugar.

Os movimentos claros com intenções obscuras
multiplicavam-se sob a luz do luar.

Cansados, com as virtudes perfiladas, nossos risos
enterneciam o presente que a Cegonha havida ido levar.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Perdido


Não sabia mais quem era,
mas também não se lembrava
de algum dia ter sido alguém.
Tão sozinho e perdido,
em meio aos outros só enxergava você.
Não conseguiu driblar os problemas mesquinhos.
Suprimido pelo mundo não sabia onde estava.
Sofreu calado e ela não entendeu.
Entre um trago e outro consumiu a vida.
Os sentimentos humanos, cortados na marra,
dilaceraram as flores que nasceriam no campo.
Mas ele estava sozinho e perdido.
Os óculos escuros disfarçavam o personagem.
Agora ele estava em outro mundo,
não sabia onde estava.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Vidas Aturdidas



O tempo que se seguia era de incerteza.
A realidade estava estafante,a vida estava estafante.
A vontade de fugir era gritante; esquecer os
problemas, abater as angústias e extinguir os
pensamentos fabricados. Mas,muitas eram as
tensões que afligiam. Pouco a pouco, as frustrações
os tornaram mais vulneráveis, porque, viver em
desilusão era sofrer. Esqueciam-se do mundo,se isolavam,
tentavam se auto-decifrar num cotidiano extenuado.
As palavras eram o seu ópio e as frases, o compasso.
Em contraponto, os contos, os textos e os poemas,
eram o descompasso entre a mente e o coração.
Não sabiam onde começava um e nem onde terminava o outro,
na verdade, não sabiam de nada. Talvez fossem metade
artistas, talvez metade cientistas. Talvez não fossem
nada disso, talvez fossem apenas uma grande
mentira que todos os dias se reinventavam
para suportar os abatimentos que aturdiam.