domingo, 12 de setembro de 2010

As Viagens de Aubre Sky - O Contraste Entre Duas Gerações



Nos tempos da avó
de Aubre SKY
1960

Eu SOU socialista
Eu SOU feminista
Eu SOU marxista
Eu SOU leninista
Eu SOU estruturalista

Nos tempos de
Aubre Sky
2011

Eu TENHO uma casa na praia
Eu TENHO um carro importado
Eu TENHO um tênis invocado
Eu TENHO um alto cargo
Eu TENHO um cartão de crédito ilimitado

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

As Viagens de Aubre Sky - Nostalgia num Banco de Praça

Em Uberaba existem muitas praças, mas nenhuma delas é tão bela quanto a Jorge Frange, pelo menos para mim. É certo que outrora suas cores pareciam mais vibrantes, suas noites presenteavam-me com o céu estrelado, com o vento suave e com o cheiro de flores que perfumavam os encontros pueris. Penso nos amados que me deram afago nestes bancos de concreto e nas juras de amor criadas em momentos de sincera ternura. Nestes mesmos bancos que escrevi poesias, chorei amarguras e contemplei fatos irrelevantes do cotidiano. Mas agora isto é passado, porque somente escuridão e vandalismo compõem estes espaços. O relógio está em ruínas, os garotos não andam mais de esqueite e o carrinho de cachorro-quente que eu tanto gostava só existe nos livros de História. As árvores secaram, a poluição extinguiu os pássaros e só não estou completamente sozinha porque minha sombra me faz companhia. Meus olhos lacrimejam quando me saltam à memória os inúmeros amigos que aqui conquistei e que aqui lamentei suas mortes. Sem dúvida, esta praça, estes assentos, estas memórias permitem-me contrastar os tempos de luzes com o obscurantismo que atualmente envolve esta área e se estende à minha alma.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

As Viagens de Aubre Sky - A Página do Diário de uma Viciada

A febre está tomando conta do meu corpo. Desvaneço sobre este leito e me rendo aos delírios advindos de um passado alucinante. A realidade e a ilusão se confundem e ponho-me a falar dos homens pelos quais me apaixonei das desventuras intelectuais e dos sofrimentos psicológicos. Antes de perder todo o entusiasmo procurei o sentido da vida, mas não encontrei. Atônita com o comportamento mesquinho das pessoas fui ficando inconsolável. Digo que não foi nas festas de Rock que conheci este caminho tão temido pela maioria dos pais, porém, não nego que foi nas diversões da noite uberabense. Ingressei nesta jornada aos quinze e, por incrível que pareça, nenhum dos meus familiares e amigos desconfiaram de algo. Sempre demonstrei ser uma garota tímida e estudiosa; nunca faltei com as minhas obrigações. Por muito tempo sustentei uma imagem falsa. No entanto, não foi possível continuar teatralizando. A máscara caiu e a situação ficou em perspectiva. Fui obrigada a passar por várias clínicas e não suportei as crises de abstinência. Então, me entreguei à bebida e a concupiscência. Elas, em conjunto com os elementos nocivos, serviram de passaporte para este lugar amedrontador. Nele, sou perseguida por seres fantásticos. Para acalmar, sou torturada, amarrada na camisa de força, dopada com remédios que colocam a mente numa condição vegetativa. Todos os quartos e cômodos possuem uma atmosfera densa, os gritos de horror ecoam no horizonte e os meus companheiros lutam para sobrevier aos ataques de suas próprias assombrações. O tratamento médico é articulado com o espiritual, por isso, estou otimista. Acredito que a debilidade anuncia a libertação do espírito deste corpo fatigado.

sábado, 4 de setembro de 2010

As Viagens de Aubre Sky – Estado de Consciência Alterada

Depois de aspirar, acordou no campo em meio aos girassóis envernizados. O céu estava claro e ao longe vislumbrou o carrossel do imaginário. Entrou num bosque de árvores gigantes e cogumelos dourados. Os animais eram grandes e no meio da estrada caiu um raio cujo som desencadeado arrepiou-lhe o corpo e alterou a cor das faces. O terror causou risos resignados e, inacreditavelmente, aquele espaço do bosque começou a ser deformado. E, de repente, estava numa sala de móveis claros. Uma atmosfera pouco atraente dominava o ambiente e o despertar foi traumático, porque, descobriu que agora era a flor que se voltava para o sol em colapso. Revelou sua beleza e enxergou ao longe o seu predador mais macabro: o homem. Ele vinha armado e destruía o esplendor dos campos que outrora foram claros. A escuridão tomou conta de tudo devido as suas capacidades de representação que geravam muitos estragos. Mas, então, como defesa, a flor que se voltava para o sol era agora um daqueles girassóis envernizados. Abriu os olhos e estava sozinha no conjugado compartilhando o espaço com as agulhas, as seringas e os vestígios do pó cobiçado.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Baile de Máscaras



O meio do imenso muro branco guarda a porta que mais parece uma bocarra disposta a engolir as almas frágeis. As quadras estão divididas e na primeira tem muita grama, nas demais nem tanto. Hoje está frio e o Opala amarelo teve dificuldades para chegar até aqui. Vim porque é meu aniversário. Não estou triste devido à falta de alguém para conversar, mas sim, porque você não está aqui. Na noite passada fiquei lembrando daquele baile de máscaras. Você se lembra? Eu sei que lembra. Foi a madrugada mais marcante da minha vida. Nossa fantasia era a luxúria que escondia os furores que pulsavam por baixo da roupa. Ardendo em fogo, você me cortejou de maneira tão amável que conseguiu levar-me para o quarto (um fiel escudeiro disposto a desbravar horizontes intransponíveis). O vento lá fora soprava doçuras, enquanto eu, ressoava sussurros nas extremidades de seus ouvidos. No principio ofereci uma certa relutância e fiquei trêmula. Depois, te abracei com tanta força que os sinais dos meus dedos ficaram marcados na tua pele. Desflorou-me, e nunca mais tive medo das coisas que acontecem no escuro. Suas encantadoras diabruras aqueceram o meu coração e trouxeram alívio para a mente. E, naquela manhã, antes de receber a notícia do seu trágico acidente, fiquei mapeando na memória os momentos inesquecíveis do nosso prazer. Senti muita culpa e não tive coragem de ir ao enterro. Todavia, agora somos só nós três: eu, você e as máscaras. O vento é a nossa música e nos bailes da vida não tenho dançado com outros homens. Ainda continuo gostando de ti e quando sair vou pedir ao coveiro que faça um jardim e, de preferência, plante muitos girassóis.