sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Campos Ermos - Acerca da leitura dos sonhos e dos devaneios

Prendeu os cabelos com um lenço de chita e com as próprias mãos foi arrancando as ervas daninhas que nasceram entre o muro e os túmulos mais próximos. Fez tudo aquilo com ar inquieto e, devido ao calor, suava-lhe as têmporas. Para conseguir limpar a lápide teve até de arregaçar as mangas do luxuoso vestido de veludo azul.

Magnólias suspensas guardam as reminiscências dos últimos acontecimentos. Os móveis se perdem na sombra e o tic-tac do relógio dá ao ambiente uma atmosfera lúgubre. As paredes da casa ainda parecem guardar sua alma.

Após perder o marido começou a freqüentar campos ermos; está presa num mundo de idéias e ociosidade. Não se importa mais com as luvas bordadas; só sente o coração palpitar. Para terminar de sucumbir fechou as cortinas para impedir a entrada dos raios de sol. Acendeu as lamparinas e emergiu de um sonho.

Urtigas Madressilvas - Acerca da leitura dos sonhos e dos devaneios

Inerte, permanece horas inteiras sem falar. Sob a luz avermelhada do crepúsculo deixa a imaginação vaguear; procurando o infinito com os olhos fixos no horizonte. Enquanto isso, um cheiro de brisa perfumada vem com as pétalas de madressilvas. Urtigas, porém, crescem em todo lugar.

Depois de desamarrar os espartilhos colocou a camisola branca, delicadamente ornada. Suas rendinhas caíam-lhe dos dois lados da cadeira na qual sentou para descansar. Desvaneceu e conseguiu notar que por trás do muro havia um jardim de flores murchas (as urtigas estão em todo lugar).


Com a leitura de alguns versos adormeceu na poltrona. A luz das velas esmoreceu e a chuva, lá fora, danifica o telhado. Mas, na sala, em cima da mesinha de canto, um vaso com madressilvas flutua no ar. Está ou estava sonhando.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Sobre pessoas fictícias em lugares reais

Escritores excêntricos, atentados pelos desvarios da mente, compunham constantemente os enredos do best seller favorito de Pavoroso. Fascinado pelos hits do horror se esforçava para assimilar pequenas frações da genialidade de um raciocínio brilhante. No Overlook ou no Dolphin, tentava perceber como as minúcias da criação davam significados a universos gigantes. De leitor para personagem e deste para inventor começou com pequenos contos. Tinha dificuldades em saber sobre o que escrever, mas agora que estava desempregado sobrava mais tempo para trabalhar no hobbe. Perturbado, passou dias se esforçando para criar um protagonista para suas histórias. Pensou em seres problemáticos como ele, baixou filmes do Burton no Youtube, refletiu muito sobre os livros de Dostoievski e Foucault. Depois do processo de gestação deu vida à Marley, que se tornou um pacifista sem causas, adorador dos girassóis. Em contraponto, Pavoroso, era tão dependente dos pais que não conseguia nem amarrar os cadarços do sapato. O outro, intransigente, começou a se irritar. Já estava tão convencido de seu poder que possuía vida própria. Partindo o coração das namoradinhas que afagava nos contos, Marley tentou várias vezes se comunicar. No entanto, Pavoroso só sabia divagar para além das idéias. Consumido pela abstração de seus mundos, naufragou. Todavia, Marley estava indo salva-lo ou pelo menos tentar. Um braço, depois o outro e o personagem foi saindo do livro devagar, parecia a menina do “Chamado” saindo da televisão. Os cachos do cabelo bagunçaram, a jaqueta jeans encobriu a camiseta branca de rocker star. Estava fora... Fora das letras, fora da mente de seu criador. Sentia-se bicho grilo procurando Mort Rainey. O pensamento agora era de carne e osso. Andou de um lado para o outro, olhou o quarto, a escrivaninha e o objeto mágico de onde saíra. Não viu Pavoroso, mas ouviu a mãe chamar para lavar as mãos e almoçar. Assustado, Marley saiu desengonçado para se esconder. Não houve tempo e a mulher chegou. Com os olhos estatelados levantou os braços, ficou verde e parado. Mas que estranho, ela passou por ele como se fosse invisível. Assim que houve oportunidade, saiu da casa para procurar o dito cujo. Ao vagar pela ruas ficou impressionado com a beleza da cidade e até duvidou da sinceridade de Pavoroso que sempre descrevia uma Uberaba negra, soterrada pela altura dos prédios e manchada pela poluição da fumaça. O dia da semana era sábado e visitou a Praça Dr. Jorge Frange onde se encantou com a riqueza da Feira Arte e com a singularidade do obelisco do andarilho Bento. Ao passar pela São Benedito, ficou vislumbrado com as luzes. Devorou um pastel assado de bacalhau no Balbec porque seu inventor lhe contara que naquele estabelecimento a comida era boa e barata, não se arrependeu. O tamanho do Manhattan lhe deu náuseas. E, depois de andar por horas, se sentou em um banco na Praça Rui Barbosa. Contemplou a Catedral e observou o casamento que lá acontecia. De longe viu a decoração, o vestido branco e o romance dos noivos que o deixou emocionado. Os olhos encheram de lágrimas e sozinho ele chorou por ter sido condenado a uma vida falsa, fictícia. No mesmo momento, Pavoroso, que nunca havia tomado bebidas alcoólicas, enchia a cara na escuridão do Müchen Pub. Os olhos parados atravessavam o fundo do copo e enxergavam o vazio da vida. Queria fugir da realidade porque não agüentava mais ter de viver. Só pensava em cavar a sepultura para enterrar-se no universo da fantasia, um lugar onde o real é ficção e a ficção é a realidade que liberta. O ritmo da música tinha som de solidão. Desnorteado, saiu trocando os passos ignorando a luz da lua. Estava vagando rumo à ponte que cruzava a lagoa existente no Parque das Acácias. A lagoa era funda e a ponte era alta. Um pulo certeiro, “um salto no escuro”, colocariam fim nas angústias. Ao se recuperar do instante de tristeza, Marley percebeu que já era noite e no rastro de Pavoroso chegou ao pub e perguntou para a moça do caixa se ela havia visto um cara ruivo, de olhos esbugalhados que usava uns óculos semelhantes aos do John Lennon. Lembrou que os olhos peculiares do homem justificavam o nome. Inconvenientemente, saiu andando sem esperar a resposta. O litro de conhaque importado fez Pavoroso rememorar todo um passado de fracassos. Na sarjeta encontrou o sentido para as esquisitices que fazia nas noites de insônia quando de minuto em minuto deitava e levantava sem saber o que fazer. Tomava café e colocava óculos escuros na penumbra assinalada pela iluminação precária do abajur ganhado naquelas pescarias de quermesse. Quase atropelado por um carro abarrotado de universitários, pensou naquelas dores mudas que sofrera nos seus tempos de estudante sonhador. Sonhou tanto ao longo da vida que ela passou. Na calada da madrugada alcançou seu destino. O parque estava lindo e não havia ninguém para admirar. A ponte não era reta, possuía uma forma de arco. No ponto mais alto, bem lá no meio, segurou na “balaustrada” (não sabia o nome daquilo) e, ao contrário do que as pessoas falavam, ele não viu a vida passar diante de seus olhos como um filme. Sentiu somente o desejo de querer pular. E, pulou. Na queda, não teve frio, nem medo e não pensou em nada. Só viu quando o estouro cortante de seu corpo na água fez fatigar os desalentos. Afogou para a vida, nasceu para a morte. Marley chegou, mas já era tarde demais. Chorou novamente por não ter conseguido salva-lo ou, ao menos dizer, o quanto o amava e admirava. Mesmo sendo uma criação, sentiu a dor advinda dos sentimentos. Implorou a morte aos céus. No entanto, agora não era personagem, mas sim, um ser humano. Amaldiçoado à vida, fechou os olhos e lembrou que a carne morre, mas as idéias do seu criador, não.

Sobre pessoas reais em lugares fictícios

Thrin! Thrin! Fez o relógio de Marley às sete da manhã. Escravo deste objeto colocou o travesseiro sobre a cabeça e não acreditou que tinha de levantar. Passou a mão pelos cabelos negros, levemente ondulados. Sentou encostando-se à cabeceira da cama. Em frente, havia uma penteadeira cujo espelho refletiu os olhos rubros. Com seu estilo desengonçado e meio débil vestiu o uniforme do trabalho, pôs os óculos e colocou o All Star de bolinhas azuis que comprara depois de economizar dois meses de salário. Atrasado, saiu levando somente o aparelho de MP3 que tocava a Dança do Quadrado. Desceu a Orlando Rodrigues da Cunha e pegou a Guilherme Ferreira. Foi a pé porque os ônibus da única companhia de transporte público presente na cidade andavam sempre muito cheios, as condições de segurança não eram confiáveis e os seus horários eram imprevisíveis. Já no centro, driblou os carros que circulavam pelas antigas ruas tortuosas que não foram construídas para agüentar um movimento tão intenso. Atravessou o calçadão da Arthur Machado tendo também que enfrentar o fluxo de pessoas. Enquanto isso, a música tocada ecoava na mente. Ao chegar ao trabalho, uma lanchonete que estava se transformando em restaurante self-service, o patrão mal educado o advertiu pelo atraso. Todavia, Marley nem ligou porque já estava acostumado com as grosserias daquele que não se importava com a situação insalubre em que trabalhavam seus funcionários. Ele, o garoto Marley, ficava no caixa onde observava a Praça Rui Barbosa. Nas horas vagas podia contemplar o cotidiano; somava números, tentava diminuir os prejuízos e distribuir por igual à atenção oferecida aos clientes. Mas neste dia o espírito desinquieto questionou a finalidade de uma existência que naquela idade estava considerando como vazia. Olhar a movimentação tornou-se exercício de devaneio, um anestésico. Terminado o expediente, voltou para casa, desta vez de ônibus. Detestava, entretanto, era ele que permitia chegar mais rápido, engolir a comida, correr a água no pêlo e sair novamente (foi à Universidade onde cursava o último ano do curso de Arquitetura). Depois da aula, retornou e no momento em que ficou completamente sozinho teve medo dos monstros nascidos da sua própria criação. Para sucumbir, inventou lugares fictícios e recriou seres encantados. Retornou à Terra do Nunca, pois lá sentia a liberdade de poder voar para todo lugar e não ter que voltar para lugar nenhum. No tocar da madrugada incorporou dom Quixote desbravando gigantes imaginários para despistar a loucura. Perdeu-se procurando encontrar, representou o histérico, sentiu dor e invocou os amigos invisíveis, mas eles não vieram. Ficou desesperado e não teve medo de caminhar novamente para outros mundos. Suicídio noite à dentro? Não, não tinha coragem.

domingo, 18 de dezembro de 2011

O silêncio que musicaliza o amor para a eternidade

Entrementes, o silêncio é
embelezado por uma musicalidade.
Ao amolecer entre meus braços
o ardor se mistura a serenidade e
percebo que a grandeza dos
sentimentos está na simplicidade,
na ternura dos instantes de intimidade,
na expressividade dos pensamentos
subtendidos, nas constelações
entrepostas de corações sem maldade.
Os sentimentos não são meras abstrações,
porque concretizam a imensidão de uma realidade.
Calados, o silêncio tem reciprocidade.
A sombra de um protege o outro
e da sombra nasce a luz que
musicaliza nossas canções mudas.
Secretamente, criamos e recriamos
o compasso da invisibilidade que
só é entendida por aqueles que
encontram um amor de verdade,
um amor que está entrementes,
nas constelações entrepostas,
na brandura que musicaliza o silêncio
de um amor para a eternidade.

Resposta à tuas cartas



Não me canso de reler suas palavras envolventes.
Perco-me entre as letras e esqueço dos contratempos.
O dinheiro, a beleza e o glamour das noites festivas,
tudo se foi e só as tuas cartas me fazem companhia.
Os papéis estão amarelados pelo tempo e
com a tinta manchada pelas tuas lágrimas,
mas quem agora chora em cima delas sou eu.
Todos os meus familiares e verdadeiros amigos
já apodreceram no seio da nossa mãe terra.
Estou sozinha, nem cadela, gato ou cachorro eu tenho.
A não ser estas cartas em que o meu amor é implorado,
mas, quem o implora hoje sou eu.
Certamente não me lançaria de joelhos aos seus pés,
mas pediria com honra o seu perdão.
Escolhi ser do mundo, experimentei tudo o que podia.
Sai com muitos homens, provei comidas,
bebidas e drogas arrebatadoras, andei por todos
os continentes e vi coisas maravilhosas.
Devido as minhas aventuras, tive a
oportunidade de superar limites.
Não nego que foi alucinante e não me arrependo por nada.
Minto, me arrependo somente por nunca
ter respondido as tuas cartas.
Sempre adotei a filosofia do livre-arbítrio,
este mesmo livre-arbítrio que não me deixa ter
poder sobre a vida ou a morte. Neste instante,
estou num leito de hospital, num quarto frio e lúgubre.
Esforço-me para escrever a primeira
e a última carta em resposta a você.
Não é tão bonita quanto as suas e as
frases foram compostas num rascunho.
Minhas mãos estavam trêmulas e pedi
ao enfermeiro que a digitasse.
Espero que o seu endereço ainda seja o mesmo,
espero que ainda queira recebê-la, agora eu só espero...
Espero, estar junto das tuas cartas
que dão sentido aos meus últimos momentos.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Eternamente Corintiana



A cor alva e negra colore nossas vidas;
no delírio das vitórias e no silêncio das derrotas,
ganha destaque porque é ave de rapina.

A cor alva e negra colore nossas vidas;
ganha destaque com os contornos do
gramado sempre propenso aos naufrágios.

A cor alva e negra colore nossas vidas;
sempre em frente, garras firmes,
digna das aves de rapina - Gaviões.

domingo, 6 de novembro de 2011

O peso das formalidades no universo de Luís XIV – Um breve parecer sobre “A Sociedade de Corte”

De acordo com Norbert Elias, Luís XIV, não era um homem de notável inteligência, inventividade ou criatividade, mas se destacava pela imagem que procurava apresentar. Por meio de um comportamento arquitetado ao longo de toda vida seus mais simples gestos eram minuciosamente pensados no intuito de construir uma imagem que fosse correspondente ao “seu próprio ideal de grandeza, de dignidade e de glória do rei da França” (ELIAS, 2001, p.148). Para isso, seu poder era demonstrado através de atos simbólicos presentes tanto nos assuntos públicos quanto nos particulares. Norbert Elias enfatiza, por exemplo, que “o seu despertar, o momento de ir dormir e os amores de Luís eram tão importantes quanto a assinatura de um acordo governamental e eram configuradas com o mesmo nível de organização” (idem: p. 151). Isto, por sua vez, envolvia um grande esforço da parte do soberano, pois, precisava satisfazer as exigências impostas por sua função e por si mesmo; ficava num estado de eterna pressão porque sua auto-representação tinha que ser sempre condizente com sua posição social que não estava, de forma alguma, livre de coerções, muito pelo contrário.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Sigmund Freud e o "Mal Estar na Civilização"

Para Freud nós somos seres desejantes e o desejo é a pulsão natural da vida que envolve a interação social. Quando reprimimos nossos desejos, sofremos. E sofrer em muitos casos implica uma tensão entre o desejo e as regras sociais expressas por normas de comportamento, educação, moral e valores culturalmente instaurados. Essas regras funcionam como fontes repressoras do id, do ego e do superego. O id é a força que impulsiona os nossos desejos, o ego diz respeito ao “eu e o meu desejo” e o superego é a censura que filtra os desejos que em boa parte das vezes são instintivos como, por exemplo, a libido que condiciona um estado de bem estar. Quando o id, o ego e superego estão em descompasso com os padrões impostos pela sociedade surge um “mal estar na civilização” ou, para simplificar, um mal estar nos indivíduos que sofrem por reprimir os desejos que parecem inadequados aos olhos da sociedade. E é aí, neste ponto de tensão, que muitas moléstias psiquicas nascem; é aí que surge os neuróticos, esquizofrênicos, histéricos, psicóticos ou melancólicos. Contudo, nem sempre os desejos reprimidos são sinônimos de sofrimento porque possuímos a capacidade de realizar aquilo que Freud chama de sublimação. Esta sublimação em linhas gerais são maneiras de se compensar os desejos reprimidos pelas normas de comportamento. Para finalizar, pode-se dizer que somos seres movidos por instintos e quando esses instintos são negados em função das regras sociais nos tornamos mais “civilizados”.

domingo, 30 de outubro de 2011

Etiqueta e Cerimonial em Versailles - Um breve parecer sobre a Sociedade de Corte

Segundo Norbert Elias, no livro “A Sociedade de Corte”, a etiqueta e o cerimonial estabelecidos pela realeza em Versailles eram instrumentos de dominação, formas de expressar coerção social e poder. Este autor afirma que durante o Antigo Regime os reis franceses governavam o país a partir de suas casas ou através da corte onde residiam. Promoviam a articulação entre “grandeza do país” e “grandeza da moradia” na qual a máxima real podia ser vislumbrada por meio do palácio de Versailles, “dentro do qual as ações mais pessoais do rei sempre tinham caráter cerimonial de ações de Estado, assim como fora dele cada ação do Estado ganhava o caráter de uma ação pessoal do rei (ELIAS, 2001, p.67). Neste sentido, Luís XIV, por exemplo, organizava o país como uma propriedade pessoal, como uma extensão da corte em que morava. Todas as suas ações, desde as mais corriqueiras até as mais atribuladas, eram minuciosamente pensadas. E, em Versailles, por trás do pano de fundo das formalidades, estava um circuito de tensões e interdependências que serviam de sustentáculo para o seu reinado. Uma corte com cerca de dez mil pessoas aspiravam perspectivas de status e prestigio que não eram mensurados necessariamente a partir da quantidade de riquezas, mas por meio de símbolos e comportamentos inerentes à cortesãos; símbolos de prestigio que visavam a preservação da existência do grupo enquanto grupo distinto.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Nonsense - Compondo seus versos na cidade fantasma





No mundo da irrealidade as dimensões do invisível são imensuráveis e as superfícies planas ganham profundidade. A partir de uma perspectiva que agride a racionalidade a cidade fantasma vai sendo projetada. Então, o espaço físico se torna o palco de um eterno simulacro.

Desrespeitando os limites entre a realidade e a ilusão encontro um lugar que está além da imaginação. É lá que componho seus versos e estruturo o sentido da desrazão. Não obstante, a alucinação e o delírio alimentam a obsessão em estar contigo numa eterna paixão (a todo instante), na cidade fantasma; num lugar muito além da imaginação. Num lugar entre a realidade e a ficção, entre a História e a criação, entre o devaneio e a obsessão. Na cidade fantasma, sem “medo e delírio”, fora da alucinação, da melancolia, da psicose e do desatino que a introspecção anuncia. Então, a realidade é ilusão e a ilusão é a realidade imaginária que te permite suportar o que está nesse mundo de realidade e ilusão – Nonsense.

Nonsense - No divã "o falso é a verdade"




De onde nascem as idéias? De onde vem o tiro? Qual é a verdade? E a mentira da verdade? O público pode ir além da imaginação e criar ilusões que servem para sustentar uma realidade falsa. Mas de onde vem o tiro? De quem é a culpa? Quem sabe? Talvez a mentira que é verdade está no grande truque que é manipular a partir da desrazão que afaga. Neste sentido, “o falso é a verdade” que demonstra desejos, para além da consciência, num lugar onde o real é ilusão.


Deitado comodamente no divã ouvia o psicólogo explicar que quando ele negava determinados assuntos era porque existiam tensões que convergiam em afirmação. Nessa lógica, negar para o terapeuta era afirmar e a mentira era a verdade que o paciente criava para sucumbir às pressões sociais. Sofria com os desrespeitos do patrão, ganhava mal, chegava a casa e sua mulher só reclamava da situação. Mas a verdade era que não estava tendo dinheiro nem para manter as necessidades básicas de sua família. Em meio a tudo isso seus parentes ainda ficavam perguntando por que ele ainda não havia comprado um carro. Em contraponto a essas desventuras tentava demonstrar estar satisfeito: com uma vida boa e tranqüila. Imaginava mundos felizes e criava realidades nas quais divagava por horas e quando acordava não suportava. Pegou o revólver, pensou um pouco e puxou o gatilho. No último suspiro, no instante que antecedeu o tiro, convicções danificadas. Nasceu para a morte e saiu do abismo - Nonsense.

domingo, 11 de setembro de 2011

As Viagens de Aubre Sky – Estado de Consciência Alterada

Depois de aspirar, acordou no campo em meio aos girassóis envernizados. O céu estava claro e ao longe vislumbrou o carrossel do imaginário. Entrou num bosque de árvores gigantes e cogumelos dourados. Os animais eram grandes e no meio da estrada caiu um raio cujo som desencadeado arrepiou-lhe o corpo e alterou a cor das faces. O terror causou risos resignados e, inacreditavelmente, aquele espaço do bosque começou a ser deformado. E, de repente, estava numa sala de móveis claros. Uma atmosfera pouco atraente dominava o ambiente e o despertar foi traumático, porque, descobriu que agora era a flor que se voltava para o sol em colapso. Revelou sua beleza e enxergou ao longe o seu predador mais macabro: o homem. Ele vinha armado e destruía o esplendor dos campos que outrora foram claros. A escuridão tomou conta de tudo devido as suas capacidades de representação que geravam muitos estragos. Mas, então, como defesa, a flor que se voltava para o sol era agora um daqueles girassóis envernizados. Abriu os olhos e estava sozinha no conjugado compartilhando o espaço com as agulhas, as seringas e os vestígios do pó cobiçado.

As Viagens de Aubre Sky - A Página do Diário de uma Viciada

A febre está tomando conta do meu corpo. Desvaneço sobre este leito e me rendo aos delírios advindos de um passado alucinante. A realidade e a ilusão se confundem e ponho-me a falar dos homens pelos quais me apaixonei das desventuras intelectuais e dos sofrimentos psicológicos. Antes de perder todo o entusiasmo procurei o sentido da vida, mas não encontrei. Atônita com o comportamento mesquinho das pessoas fui ficando inconsolável. Digo que não foi nas festas de Rock que conheci este caminho tão temido pela maioria dos pais, porém, não nego que foi nas diversões da noite uberabense. Ingressei nesta jornada aos quinze e, por incrível que pareça, nenhum dos meus familiares e amigos desconfiaram de algo. Sempre demonstrei ser uma garota tímida e estudiosa; nunca faltei com as minhas obrigações. Por muito tempo sustentei uma imagem falsa. No entanto, não foi possível continuar teatralizando. A máscara caiu e a situação ficou em perspectiva. Fui obrigada a passar por várias clínicas e não suportei as crises de abstinência. Então, me entreguei à bebida e a concupiscência. Elas, em conjunto com os elementos nocivos, serviram de passaporte para este lugar amedrontador. Nele, sou perseguida por seres fantásticos. Para acalmar, sou torturada, amarrada na camisa de força, dopada com remédios que colocam a mente numa condição vegetativa. Todos os quartos e cômodos possuem uma atmosfera densa, os gritos de horror ecoam no horizonte e os meus companheiros lutam para sobrevier aos ataques de suas próprias assombrações. O tratamento médico é articulado com o espiritual, por isso, estou otimista. Acredito que a debilidade anuncia a libertação do espírito deste corpo fatigado.




quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Entre a Fantasia e o Espetáculo

Algumas histórias são fantásticas que às vezes duvidamos da sua autenticidade. Seres encantados e criaturas mágicas... Fantasia e espetáculo. No palco da vida os homens são os grandes astros, conseguem fazer da fantasia a realidade que liberta. Mas o que é realidade? O que é representação? O tempo do mundo ou o tempo de mundos a parte? Pensamentos com nexo para seres criadores de universos desconexos. Ilusão, ficção, truque ou enganação? Muitos fazem da vida uma arte; um mundo lúdico de interpretações, invenções de ideais irreais (o que está fora do natural é extraordinário e impressiona). Mas, Aristóteles já dizia que “cada arte se propõe a multiplicar indefinidamente aquilo que constitui seu objeto”: super-heróis, seres mágicos e homens inventados que encaram fabulosos perigos, derrubam gigantes, dão voz ao inanimado, romanceiam aventuras, destroem astros, criam vítimas, geram vilões, dão cores, voz e sentidos a outros tempos de cenas e personagens, de imagens projetadas, de focos de luz, de mundos fora do mundo. Mas não estamos no tempo do efêmero? Computador, rádio, televisão... O mundo tem pressa e o homem, ingênuo, persegue a informação. Saturados, automatizados num autocontrole, cada vez mais presos numa realidade que é ficção, de fantasia e espetáculo.



quarta-feira, 7 de setembro de 2011

História da vida privada no Brasil: Famílias e vida doméstica

“Tratar da vida doméstica na colônia, no seu sentido mais estrito, implica penetrar no âmbito do domicílio, pois ele foi de fato o espaço de convivência e intimidade dos seus indivíduos”.

A distância que separava os membros de uma família, a falta de mulheres brancas, a presença da escravidão negra e a precariedade de recursos eram aspectos que afetavam o cotidiano no Brasil. Desta forma, as pessoas eram forçosamente levadas a repensar costumes e comportamentos no tocante à constituição das famílias, os padrões de moradia, a alimentação e os hábitos que sofriam transformações, por sua vez, elucidadas neste livro que aborda um pouco da vida privada nos tempos de colônia. Nele são recuperados um pouco dos espaços de intimidade, sobretudo, na morada e nas atividades desenvolvidas no seu interior. Logo, o livro é interessante porque leva o leitor a entender elementos das formas de sociabilidade doméstica, pois era efetivamente no domicílio que se inovava nas formas de viver. Vale a pena ler!

domingo, 4 de setembro de 2011

Apologia à História - Nos confins do Império Inca




BERNAND, Carmen e GRUZINSKI, Gerge. História do Novo Mundo: da descoberta à conquista, uma experiência européia (1492 - 1550 ). São Paulo: Editora da USP, 1997.

"Cansado de viajar por toda extensão de seu império acompanhando as tropas de seu filho, o grande soberano Tupac Inca , se retira para a cidade de Cusco. No desenrolar de sua vida , ele se orgulha de ter prosseguido com as conquistas iniciadas por seu pai e ter conseguido submeter dezenas de povos guerreiros. Senão o próprio Tupac Inca , confia a seu filho Titu Huallpa a continuidade dessa importante missão, embora ele fosse muito jovem. Titu Huallpa acompanhado de suas tropas, examina às terras da planície, que acabara de passar para o controle de Cusco. O Inca, estendeu a essas terras planas e desérticas seu idioma quíchua. Os povos que ali estavam foram forçados à rendição, cortando os canais de irrigação que lhes traziam a vida, e os antigos rebeldes tornaram-se dóceis tributários, transformando orgulho em servilismo. No interoir de seu Império , a ordem se sucedeu ao caos. No entanto, o filho do Sol sabe que as vitórias muito rápidas são frágeis e que existem espaços irredutíveis à sua lei. As tropas incaicas estavam sempre em atividade. Contiveram Chiriguanos , Kollas e Charcas. Em direção ao noroeste, continuaram sua progressão, devastaram o país dos cañaris, dizimando a população masculina e deportando para Cusco aqueles que tiveram suas vidas poupadas.O filho do Sol percorreu pessoalmente a maioria das terras "conquistadas"; as pessoas afastavam-se de seu caminho em sinal de veneração, arrancavam cílios e sombrancelhas invocando seu nome. Tupac Inca benefíciava seus capitães, soldados e senhores que lhe prestava obediência, coisa que não tinha preço, pois, tinham sido iluminados pela luz do Sol. Este parecia ser o seu lema - os soldados manejavam a fenda e os porretes com habilidade, escolhendo a lua cheia para atacar. Graças a esse sistema, a paz parecia haver triunfado das disputas regionais. Nesse período uma tranquilidade relativa reinou sobre os quatro orientes do Império. A beira do oceano, Titu Huallpa descobre a prosperidade do Senhor das Planícies. O Inca, que não aprecia atividades mercantis, tenta limitar seu alcance no seio de seu império. Tolera, no entanto, as do Senhor das Planícies, que dispõe de uma frota de milhares de embarcações, pois sabe que elas trazem bens tão inestimáveis quanto raros em suas terras. Diante disso o Senhor das Planícies resolve selar um casamento entre sua filha e Titu Huallpa . A beleza da princesa cativa de imediato o coração do moço, contradizendo, ela o repele. Segundo sua palavra o casamento só aconteceria, se ele fizesse com que a água chegasse nos seus "domínios". Então, Titu Huallpa passa à apelar para todos os meios possíveis. Mandou sacrificar cem recém nascidos lá onde os rios que alimentam os canais tem sua fonte . Mandou abrir a montanha, para fazer chegar a neve dos picos e inundar o vale com sua água benéfica. Esvaziou lagos e fez ofertas às forças do céu e das profundezas centenas de conchas. Enfim, quando tudo parecia perdido, um filete de água jorrou de uma fonte seca; o filete tornou-se riacho, e o riacho corredeira. A corrente penetrou nas canalizações e a substância vital chegou a todas as plantas que a seca destruíra. A bela finalmente se rende a seus braços, e os dois ficam em harmonia com as forças telúricas, por um instante. Mas infelizmente Titu Huallpa conheceu a felicidade muito tarde; a medida que o verde voltava a crescer nas planícies, o jovem ia ressecando e encolhendo, tornando-se a múmia que viria a ser após a morte."

sábado, 3 de setembro de 2011

Apologia à História - As Múltiplas Faces da Escravidão

Quando ouvimos falar na palavra escravo logo nos lembramos dos africanos que foram trazidos para o Brasil em outrora. Mas, você sabia, por exemplo, que o sentido de escravidão, servidão, escravismo e cativo são diferentes? Se você é daqueles que não sabe, pois é! Desde a antigüidade os povos lidaram com essas formas de relações, sem ter, ao que tudo indica a noção clara do que é e como funcionavam essas formas de subjugação. Ao se referir, por exemplo, em escravidão na Idade Antiga estamos falando de homens que foram reduzidos a condição de cativos ou, por assim dizer, prisioneiros de guerra que eram obrigados a conviver no meio social de forma inferior, mais que, todavia tinham direitos e deveres limitados. Pode-se dizer que escravos e cativos são sinônimos; escravo não era basicamente aquele que era obrigado a trabalhar contra a vontade tendo que se submeter à força e a exploração bruta de outros homens. Quando estudamos os movimentos de expansão também das civilizações antigas percebemos que os exércitos e seus generais vinham conquistando terras e capturando homens que por sua vez se tornavam cativos do povo vencedor, mas muitas vezes esses homens eram inseridos nos exércitos desses povos para ajudá-los nas próximas conquistas, isto é, auxiliavam e trabalhavam para a população do Império ao qual estavam submetidos. Assim, adquiriam o estigma de combatente perdedor, mas não perdiam o valor de ser humano. Simplesmente ficavam sujeitos a uma participação mais restrita na sociedade. Servem de exemplo ainda as civilizações das regiões Andinas e Mesoamericanas. Com ênfase nos Astecas; eles faziam cerimônias de sacrifício humano em homenagem a seus deuses. Para isso, recorriam a povos com os quais tinham diferenças regionais, capturavam-nos e ofereciam em seus rituais. Na costa do Brasil os Tupinambás também apanhavam adversários e os sacrificavam e devoravam. Prontamente, tanto os Astecas como os Tupinambás prendiam e aprisionavam pessoas para realizarem suas manifestações religiosas, no entanto, não estabeleciam relações escravistas, pois dentro da realidade que estavam inseridos, não estavam criando situações anormais, apenas tornando cativos, pessoas necessárias a seus rituais. Conclui-se então que escravo ou cativo é aquele que é obrigado a se submeter a uma forma de dependência social, que pode se dar à base da força e da violência. Essas condições não necessariamente fazem escravos estes sujeitos. Assim podem fazer parte do meio social ó que de forma inferior. Tratando-se do termo escravismo percebe-se exatamente o elemento que o difere de escravidão. Ao falarmos em escravidão não consideramos o ser humano como mercadoria. No escravismo as relações que se fixam ao ramo social se passam de forma fria e indiferente. Cria-se em torno do escravo um invólucro de servidão, isto é sugere-se a relação de senhor e servo. Onde o escravo é comprado, vendido, alugado, doado e submetido a tratamentos hostis e subumanos. Ganha acima de tudo o status servil, que deveria ser vitalício e hereditário. É estabelecida uma forma de exploração sistemática onde o servo é obrigado a produzir o máximo e receber o mínimo e/ou nada. A vontade do senhor vigora num patamar de superioridade; a totalidade lucrativa dos produtos gerados pelo trabalho escravo vão todos para o bolso do senhor. Os africanos citados no início do texto, o indígena brasileiro do século XVI, os vassalos e suseranos da Idade Média, os índios americanos que foram forçados pelo encomiendeiro espanhol. Todos eles foram subordinados a formas de conduta pré-estabelecidas por homens que visavam concentrar o poder e desenvolver grandes mercados. Seria o que poderíamos chamar de “eventual” negociação de pessoas, ou seja, definir como escravismo. Multidões de habitantes em diferentes eras caíram no escravismo. Os romanos e os gregos, por exemplo, faziam de escravos “prisioneiros de guerras, devedores de insolventes, mulheres e homens capturados em razias, crianças e jovens vendidos pelos parentes, etc”. Até aí, nada parece ter sofrido modificações. Só parece porque a partir do momento que o escravo é utilizado como mercadoria, sendo vendido como mero objeto de produção, sujeitando-se às humilhações que dilaceram a resistência física e mental fica claro a diferença entre escravidão e escravismo. Ressalta-se: escravidão envolve trabalho cativo; escravismo trabalho servil. Em Roma e na Grécia o escravismo era mais voltado para um pensamento de bem “comum”; do que se refere à administração do Estado. No Brasil e na América latina em geral estava totalmente voltado para a exploração incondicional que visava atender interesses individuais e da coroa portuguesa. O ser humano que negocia outros seres humanos em condições de superioridade, forçosamente implanta diversas modalidades de exploração do trabalho produtivo e improdutivo que, seja no passado ou no presente, colaboraram e colaboram para a formação de boa parte da desigualdade social que temos atualmente. Pensarmos em escravidão com o olhar que temos hoje implica a necessidade de um olhar crítico que distingue fundamentações que já estabelecemos entre escravismo e escravidão. No século XIX, pensadores como Marx e Engels afirmaram que relações sociais antagônicas sempre estiveram presentes em nossas sociedades: “homem livre e escravo, patrício e plebeu, barão e servo, mestres e companheiros, numa palavra, opressores e oprimidos”2. Prontamente, nesse raciocínio é possível perceber a formação “estrutural” das relações que dizem respeito à subordinação de homens como instrumento de produção que independente do período sempre estiveram presentes na História. Agora nos perguntamos: será que na sociedade contemporânea as relações entre chefe e operário, trabalhador pensante e trabalhador braçal nada têm a ver com escravidão vigorando como camuflagem chamada de mais valia? Assim como em tempos anteriores os escravos trabalhavam para ter o direito de receber alimentação, habitação e vestimentas, hoje os trabalhadores recebem formalmente um salário que eqüivale o quanto produzem e o quanto trabalham? Isto é, recebem o mínimo para sobreviver com qualidade? O antagonismo de classes citado por Marx e Engels existe só entre proletários e burgueses, ou estão presentes quando países mais desenvolvidos exploram países menos desenvolvidos? Será que esses antagonismos não se relacionam com o escravismo africano no Brasil colonial? Não se incorporam no pensamento eurocêntrico de expansão marítima do século XV e XVI? Incógnitas para um assunto que parece não chegar ao fim em pleno século XXI. É entristecedor quando ligamos a televisão e ouvimos notícias que denunciam o trabalho escravo que ainda existem no Brasil, ele se estende desde crianças que trabalham nas ruas das grandes cidades e são exploradas com trabalho compulsório, até cidadãos que se concentram nas áreas rurais dos extremos e interior do país. Sem estar registrados como trabalhadores não possuem carteira assinada, nem tão pouco recebem pelos serviços prestados. É lamentável saber que esses trabalhadores sabem que estão se sujeitando a condições de escravidão e mesmo assim têm de se submeter. Parece uma faca de dois gumes: se uma pessoa tenta assumir o papel de cidadão que produz, recebe e paga suas contas, mas não encontra emprego e vê sua família passando fome, o que é preferível? Migrar para o interior do país e se submeter a “escravidão” em troca de moradia e alimentação? Se marginalizar para trazer o sustento à família? Mandar as crianças e a esposa arrumar uma atividade que acarretará o recebimento de dinheiro nos sinais de trânsito? É complicado. Em muitas dessas situações acontece o que já falamos: o trabalhador vai para o interior, leva a família e se submete ao trabalho escravo para não morrer de fome, que seria o que aconteceria se ele ficasse na grande cidade esperando a oportunidade de emprego. Se voltarmos um pouco na história, perceberemos que quando foi editada a lei que aboliu a escravatura no nosso país, muitas pessoas que eram escravas, preferiram continuar sendo escravas para não ter que mudar para os morros das cidades e correr o risco de não conseguir ter acesso aos meios mínimos necessários a sua sobrevivência. Ver um escravo, no presente ou no passado é como olhar um quadro. São várias as formas de observá-lo. Porém, o olhar do artista nunca será compreendido em sua totalidade, assim como a experiência de quem já foi ou participou de alguma forma de escravismo e escravidão será insubstituível e impensável para aqueles que não viveram a experiência na prática.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Apologia à História - O tempo na História





O tempo do relógio e do cronômetro é uma criação que foi resultada do engenho humano. Na história esse tempo diz respeito ao tempo do homem, ele não é contínuo e varia de sociedade para sociedade. Entretanto o que importa são as experiências humanas no tempo. Estamos localizados num tempo e espaço diferentes daquele em que nossos antepassados viveram. A solução dos problemas de ontem não servem para os de hoje. Logo, é essa diferença é que faz com que o nosso tempo seja diferente. Voltar no tempo é um ideal irreal porque como poderia o homem se libertar do presente e se transportar para o passado? Ainda que para o historiador o passado seja sempre um tempo presente não vai simplesmente fazer igual quando se locomove de ônibus ou de carro. Até por que o tempo é relativo, pode variar de pessoa para pessoa, passar mais de vagar ou mais rápido. Por exemplo, o calendário cristão é diferente do mulçumano, as comemorações orientais são diferentes das ocidentais, nos países mais desenvolvidos as pessoas vivem sempre correndo enquanto nos países menos desenvolvidos o tempo parece sempre igual. Os povos cristãos ocidentais dividiram o estudo dos homens em História e pré- história, porém, nenhuma periodização é adequada para abarcar tema tão vasto como História. Desde nossos antepassados, quando começaram a desenvolver seu raciocínio já estavam fazendo História. Por isso a colocação “pré-história” é um equívoco porque convencionar que o ser humano só se desenvolveu enquanto ser social depois da invenção da escrita dá a impressão de que antes dela os homens primitivos não tinham história. Pensando assim, até parece que o homem já nasceu com um alto desenvolvimento de inteligência, capaz de inventar a escrita. Demarcar o tempo histórico em períodos foi só uma forma didática de situar o leitor no tempo e servir de referencial tendo em vista que o cenário histórico não é contínuo, mas sim, dinâmico. Coisas de ontem não seram as mesmas de hoje e o contexto passa a ser outro. Um fato junto com apenas um personagem histórico, sozinhos, não pode ser responsável pela modificação de um período. Todas as transformações ocorrem dentro de um contexto, uma estrutura que não está livre de um processo histórico. Juntando o conjunto desses enredos temos a modificação da história que possibilita entender que o tempo não é linear, mas de continuidade e rupturas. E que é justamente essa complexidade do tempo que move o elo que permite entender que a História não pode ser uma ciência fragmentada e nem separada em compartimentos onde se pode acessar sem fazer relação com outros momentos, pois não existe história da revolução francesa ou história da revolução industrial sem um contexto que condicionou a eclosão de ambos os momentos. Por isso existe a importância de se problematizar os fatos visando transformá-los em conhecimento. Porque ao se relacionar fato histórico e acontecimento é necessário que se tenha o entendimento que nem todo acontecimento merece a qualificação de fato histórico. Acontecimento só se torna fato histórico se for direcionado para uma forma de conhecimento que atinja a sociedade de alguma maneira. Todavia, o homem constrói a história a partir de suas práticas, representações e interpretações que cria para a vida e para o próprio tempo dela.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Edward Mãos de Tesoura



Edward mãos de tesoura é um filme de 1990 realizado sob a direção de Tim Burton tendo como destaque o ator Jhonny Deep. Sendo um misto de fantasia e horror a história é um sobre um cara que, criado por um inventor de personalidade singular, tem tesouras no lugar das mãos. Ele morava sozinho num castelo no alto de uma montanha da qual a perspectiva permitia a vizualização de uma cidadezinha e certo dia recebeu a visita de uma vendedora do AVON que impressionada com a sua situação o levou para a tal cidade e lá ele conheceu a filha da vendedora, menina com a qual foi viver um breve romance. Tendo características diferentes daquelas de outras pessoas ele foi alvo de conversas inglórias e até de perseguissões. O filme sem dúvida tem um desenrolar fantástico e vale a pena assistir.



Vincent Malloy

Enclausurado no quarto, no universo fechado, a falta de limites para a imaginação dava formas ao desatino que brotava do corpo moribundo. Preso na masmorra, jogado no fundo do poço, passava a vida se perguntando o que faria, onde iria chegar. Acreditava desconhecer virtudes e fora das horas cantarolava mentiras que alegravam as ilusões da alma triste. Cambiava pensamentos com interlocutores que mesmo sendo mudos diziam muitas coisas. Sentia vontade de cair fora do mundo e sucumbir aos abatimentos e decepções condicionadas por uma realidade fúnebre. Inventava mundos novos que se caracterizavam por sombras e silêncios, sofrimentos e agonias, que ficavam presas no aquário de elementos que não existem.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Mort Rainey




Com o seu roupão descosturado, os cabelos despenteados e os óculos avantajados, ele é encantador. Em uma cabana à beira do lago, sozinho e isolado, se esforça para criar novas histórias. Escritor consolidado, recentemente traído pela esposa, sente a inspiração lhe faltar. Suas únicas companhias são o cachorro, a preguiça, o sofá e o sono. Psicologicamente desamparado, suas frustrações abrem a janela da mente cuja beleza é bizarra; a esperteza dela está em elaborar maneiras para sucumbir aos seus conflitos e desejos mais íntimos. Paradoxalmente, a abstinência criativa abre espaço para o nascimento daquilo que está dentro de si, isto é, enquanto acredita que tudo que tenta produzir não passa de lixo literário sua mente edifica a grande criação. Mistura a realidade e a ilusão para compor a perseguição entre autor e personagem, loucura e sanidade. Com atitudes um tanto cômicas, fala sozinho, gesticula quando não gosta de algo e sabe ser irônico. Demonstra introspecção e amedronta-se com aquilo que supõe não poder controlar, mas tudo se torna claro quando descobre que a fantasia faz parte do espetáculo. Sem Dúvida, um sujeito de comportamento singular que faz da desilusão a salvação que vai além dos limites da imaginação de testemunhas oculares. Denota o universo da invenção e da reinvenção propagada por verdades que só se tornam verdades no mundo daquele que as forjou. Sobre isso, a mente de Mort Rainey encontrou uma maneira de compensar a falta de engenho, mais do que isso desencadeou um modo perigoso de satisfazer seus anseios mais obscuros.

sábado, 27 de agosto de 2011

Alguns pontos da palestra sobre a História do movimento psicanalítico (27/08/11)

Sendo hoje o dia oficial do psicólogo tive a oportunidade de participar de uma palestra na UFTM ministrada pela professora e psicanalista Dr.ª Sandra Nunes Caseiro. Ela iniciou dizendo que Freud no início do século XX teve muitas dificuldades para inserir a psicanálise na Universidade e brincou: “Freud era um homem austero porque além de pobre e judeu ainda aparecia na Universidade falando umas idéias que para sua época não tinham nada a ver”; Neste sentido, Freud demonstrava seriedade para ajudar a dar validade as suas colocações que eram alvo sempre de muitas críticas, mas mesmo assim afirmava que “aquilo que você pensa que você é é só a pontinha do iceberg”. Destarte, a partir dessas breves menções a Freud Caseiro adentrou a explicação do processo histórico na antiguidade com ênfase nas civilizações grega e romana, mas esta explicação se deu é claro relacionando-se com seu olhar de psicanalista. Disse que “na Grécia antiga existia o culto aos deuses, mas a religiosidade não reprimia o pensamento racional das pessoas que tinham uma preocupação com a vida que se vivia”; falou também dos romanos que “gostavam de conquistar, davam importância a lutas, batalhas e guerras”. No entanto, Caseiro apontou que com o crescimento do Império a população romana aumentou e iniciaram-se as invasões bárbaras que fizeram com que as famílias ficassem cansadas de ser saqueadas e sofrer com a falta de alimento. Daí, de forma um pouco embaralhada a psicanalista contou que neste contexto surgiu a figura de Cristo que foi uma espécie de motivação para as pessoas viverem, pois se tinham uma vida difícil na Terra, na morte alcançariam os céus (se seguissem os mandamentos de Cristo, é claro). Então a figura de Cristo oferecia uma razão de viver, uma imortalidade pessoal. Seguiu falando que na Idade Média a mente do homem retrocedeu porque estava cerceada pela religião, sobretudo no que toca as ações da Igreja Católica. Disse também, que na visão medieval de mundo existia uma hierarquia na qual no topo estava Deus, depois os anjos, os homens, os animais, as plantas e as pedras. Isto por sua vez dava segurança ao homem que era norteado por uma estrutura teológica. Daí falou do Renascimento e do Iluminismo abordando alguns estudiosos destes períodos. Falou também do zeitgeist que nada mais é do que “aquilo que rola na cabeça das pessoas em uma determinada época” e deixou claro que a partir do Iluminismo ficou difícil identificá-lo tendo em vista que muitos pensamentos começaram a “pipocar” em lugares específicos e as modificações começaram a se dar de maneira muito rápida. Explicou ainda alguns aspectos da Idade Moderna e então retornou a explicações acerca de Freud que colocava que o homem era bem mais que razão, isto é, era um “homem psicológico” que possuía dois agrupamentos psíquicos: a consciência e a inconsciência. A razão para Freud, segundo ela, tinha seus limites e na mente havia mais coisas. Freud descentralizava o homem porque na sua ótica “nós tínhamos consciência apenas de uma parte do que nós somos”. Assim sendo, ele funda a psicanálise que vai tratar de teorias sobre a mente e pensar o homem no geral; saindo do que é patológico. Freud começou a trabalhar na idéia de inconsciente e dizia que os sintomas são símbolos, fragmentos para a verdade nos quais os sonhos são sintomas/símbolos que podiam ser decifrados permitindo a chegada em questões do inconsciente que era povoado de fantasias e desejos infantis. Caseiro neste ponto fez uma série de comentários e mencionou a criação da teoria das pulsões. Por fim, já nas perguntas da platéia, explicou que hoje em dia ninguém está livre da pressão cultural que de forma quase imperceptível está em todos os lugares e sempre nos submetemos a ela.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Tim Burton





"É curioso que esse rótulo me persiga... Deve ser alguma peculiaridade da cultura americana, onde você é rotulado por alguma característica quando é muito jovem, isso gruda em você para o resto da vida, não importa o que você faça. hoje, se eu sair na rua vestido de palhaço, rindo à toa, ainda vão dizer que tenho uma personalidade sombria".

A fantasia faz parte da realidade e a realidade faz parte da fantasia. Elas se misturam e dão vida a mundos que transcendem o natural. Criam um palco de variedades para dar vivacidade a platéias que apreciam a relação densa entre o tempo e o espaço, a loucura e a razão, a história e a ficção. Fronteiras para a imaginação não existem. As diferentes leituras para um mesmo tema e as imagens que criamos para estas podem ir além de nossas expectativas. Sobre isso, apreciar o seu trabalho significa ter a oportunidade de perceber que a profundidade da arte se entremeia com as possibilidades da estética. Um sujeito bem humorado que se dedica a carreira, a família e aos amigos. É rotulado como soturno devido ao comportamento de juventude, mas isto não é verdade. Em suas entrevistas e produções é possível perceber uma personalidade alegre e inteligente. No entanto, vangloriá-lo somente é estar sendo mesquinho, por que ele já enfrentou dificuldades, já recebeu muitas críticas e nem todos seus filmes foram sucessos de bilheteria. Ele tem um estilo próprio, por que sua obra contempla desde personagens pitorescos em ambientes escuros, até explosões de cores, fantasia e humor. Bizarro e estranho são adjetivos limitados para ele, tendo em vista que demonstra versatilidade. Livre de estereótipos consegue demonstrar que cada trabalho tem suas especificidades: envolve pesquisa, produção e todos os detalhes que abrangem a sua concretização. Mais do que dirigir, elabora animações, escreve e esboça os desenhos daquilo que tem em mente. Não faz tudo sozinho, conta com a participação de pessoas que muito o ajudam. É fato que adora trabalhar com Johnny Deep, os dois entrementes se entendem, pois, a amizade e a confiança que existe fora das telas servem como força motriz para o alcance de objetivos propostos. Também, é impossível não rir ao assistir programas de TV nos quais os dois participam. Sem dúvida, não são irmãos de sangue, mas, são de coração. Estão envelhecendo juntos, amadurecendo e trocando experiências. Vincent Price, Robert Smith, Edgar Alan Poe e Ed Wood foram alguns dos homens que o inspiraram. Uma coisa interessante, e nobre, é que além de explorar o universo da imaginação, ele evidência gostar de História. Utiliza-a para mostrar que as pessoas, reais ou fictícias, não são meras aberrações que podem cometer coisas grotescas. Mas, são seres de carne e osso que fazem o que fazem por alguma razão. O que esta fora do comum torna-se normal. E, perder-se em criações significa talvez encontrar o caminho correto para descobertas que encenam a complexidade da existência. Por isso, o “esquisito” ou “anormal” timburtiano superam fronteiras e reinventam o que parece ridículo. Sobre isso, a fantasia arrasta o imaginário para lá das representações ao confirmar que estas estão ligadas a processos de abstração.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Dostoiévski



"Uma outra circunstância ainda me atormentava sem cessar: verificava que não me parecia com ninguém e que ninguém se parecia comigo."



A mãe morreu de tuberculose e o pai foi assassinado. Sua relação com este último, ao que tudo indica, era tensa. Ingressou na Academia Militar e cursou engenharia, mas esta não era a sua vocação. Gostando de ler, criar e escrever foi levado a abandonar a carreira de engenheiro para se dedicar a literatura. Conheceu Balzac, um grande escritor de sua época. Entusiasmado, começou a realizar traduções, depois, se lançou na vida literária com todo fervor. Aos vinte e quatro anos teve reconhecimento, porém, as dívidas e os ataques de epilepsia se tornaram infortúnios presentes. Muitos eram os elogios, mas, também, muitas eram as críticas que o atingiam levando-o a depressão. Escrevia sobre temas íntimos do comportamento humano e mostrava a loucura, a humilhação, a vaidade, o assassinato, o egoísmo e as idéias suicidas dos seus personagens com perfeição. Algumas de suas obras abordam aspectos de suas experiências pessoais. Exemplifica-se “Recordações da Casa dos Mortos”, onde relata o período em que esteve na prisão por participar de reuniões com um grupo de intelectuais que eram acusados de forjar idéias que desagradavam o então governante da Rússia, Nicolau I. Foi condenado ao fuzilamento e no dia de sua execução, quando já estava em frente as armas, chegou-lhe a informação de que o czar havia poupado a sua vida. Em contraponto, ele teria de cumprir cinco anos de trabalho na Sibéria. A vida no cárcere implicou uma existência sofrida e modificou suas visões de mundo. Quando finalmente foi solto ficou proibido de voltar para Moscou ou São Petersburgo. Entretanto, conseguiu autorização para voltar no mesmo ano. Publicou algumas produções, se casou, fundou uma revista com a ajuda de seu irmão e viajou pela Europa. Ao retornar à Rússia estava completamente endividado porque gastara todo o dinheiro em jogos. Mas, mesmo assim, teve disposição para criar um jornal, tendo em vista que a revista fora proibida de circular. Contudo, a morte da esposa e do irmão renderam-lhe enorme desgosto pela vida: afundou em dívidas, foi embora do país e entregou-se a jogatina. Dentro deste contexto, a infelicidade e o abatimento envernizavam seus escritos. Quando foi para a Europa pela primeira vez, conheceu uma garota com a qual viveu uma aventura amorosa e ao retornar aquele continente tentou reatar o romance, mas foi recusado. Logo, começou a estruturar “Crime e Castigo” cujo fim era solicitado com urgência pelo editor da revista em que seria publicado. Para dinamizar o processo contratou uma moça para lhe ajudar, se apaixonou por ela e posteriormente se casaram. Viajaram juntos e tiveram uma filha que faleceu em seguida. Depois disso, escreveu “O Idiota”, “Os Endemoniados”, “Diário de um Escritor” e, por último, “Os Irmãos Karamazov”. Morreu em São Petersburgo, aos cinqüenta e nove anos, de hemorragia pulmonar associada com enfisema e ataque epilético. Seu legado abrange escritos esplendidos, porque mais do que histórias os seus personagens escancaram emoções que ilustram desejos e desilusões. Sobre isso, nos permite olhar para dentro de nós mesmos e refletir. Desnuda coisas que são dá natureza humana: aquilo que nos envergonha, aquilo que nos faz pensar no que realmente somos são apenas alguns dos elementos que fazem as suas produções serem intemporais.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Os idiotas não morrem

Dostoiévisk que me perdoe à ousadia, mas os idiotas nunca morrem. Entra século e sai século nós continuamos lá, perdidos no tempo e no espaço carregando o estigma social de loucos, antiquados, excêntricos, desarticulados, asnos e etc. Somos tímidos, disciplinados e ficamos facilmente encabulados; chamados de ridículos gostaríamos de ter o poder da invisibilidade para driblar as descomposturas tão valorizadas pela sociedade. E é desse mundo de enganos e fingimentos, dessa realidade de mesquinharia e patifaria que nasce o nosso sonho de reclusão e sossego. Procuramos os lugares mais isolados para nos curvarmos sobre nossos próprios pensamentos, para restaurar nossas pitorescas possibilidades. Também, para sucumbir aos eventos traumáticos, nos trancafiamos nos porões da mente, na escuridão do inconsciente. Velhos romancistas, filósofos, psicanalistas, teóricos da História e as canções de rock tornam-se o ópio que abre as portas de uma realidade paralela. Essa realidade liberta, alivia, galvaniza nossas frustrações; espanta nossas assombrações e pondera nossas fúrias. Contudo, o retorno ao mundo real, concreto e opressor também é traumático porque nos vemos obrigados a lembrar do estigma que todos os dias se cristaliza em identidade: somos idiotas, visto que procuramos encontrar as “bobagens” perdidas em algum lugar entre os devaneios.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Pink Floyd e a teoria das cores de Isaac Newton: uma leitura sobre o álbum "The Dark Side of the Moon"

Você deve estar aí pensando em como a banda Pink Floyd e a teoria das cores de Isaac Newton se relacionam. Pois bem, sabe aquele álbum The Dark Side of the Moon que tem um som muito apreciado pelos fãs, então, a capa daquele disco remete a teoria das cores de Isaac Newton. Em linhas gerais essa teoria diz que um “prisma não modifica e nem introduz novas características nos raios, pois estes já estão presentes no feixe de luz branca antes dele passar pelo prisma. Assim, o prisma simplesmente “decompõe” a luz branca em suas cores componentes” (2004: p. 62); exatamente como na capa do álbum que, por sua vez, envolve uma série de efeitos sonoros e trechos de entrevistas que são apresentadas em meio às canções. Nessas entrevistas as perguntas parecem um pouco desconexas e confusas, mas são interrogações que dizem respeito às angústias e inquietações do homem no cotidiano. O encarti lembra também a perspectiva psicodélica que é bem característica da banda no que toca a produção de efeitos sonoros e visuais; exemplifica-se a miscelânia de cores que causam certo impacto na consciência e na percepção. Prontamente, nas entrelinhas do álbum é possível perceber que somos como um feixe de luz branca que se decompõe em suas cores componentes em contato com um prisma, isto é, as cores da nossa essência só são realmente reveladas quando entramos em contato com as experiências que acumulamos ao longo da vida.

domingo, 21 de agosto de 2011

Realidade e Ficção no subconsciente

A mente é um labirinto que guarda os segredos do subconsciente. Enquanto a consciência é clara e plana o subconsciente é escuro e profundo porque está associado a uma parte de difícil acesso na psique. Nele geralmente estão escondidos nossos desejos reprimidos, recalcados, ou o resultado e o impacto advindo de eventos traumáticos. Implica o supra-sumo, o âmago, a essência da mistura de criações que estão longe de levar em consideração quaisquer discursos sobre lógica, pudor, razão ou moral. Desconhece os limites porque eles são fronteiras imaginárias que não existem; são invenções que desempenham a função de jaulas que só aprisionam. Produzir e observar, existir e modificar, transformar para novamente poder inventar outras criações que muitas vezes desencadeiam ações que deformam o espaço e alteram a percepção do tempo. Um tempo que não é aquele do relógio, mas aquele que permite a edificação de realidades concretas e abstratas, objetivas e subjetivas. Neste sentido, as criações podem modificar a realidade e esta pode corresponder aos elementos de criações que, como um nó cego e um salto no escuro, coexistem e se inter-relacionam. A realidade, prontamente, pode ser uma invenção que termina por desembocar no campo da ficção. Isto é, a realidade pode ter aspectos de uma ficção e uma ficção pode ter aspectos de realidades que num primeiro momento passam pelo ponto desconexo das idéias nunca pensadas. Uma realidade e uma ficção subconsciente que preenche o vazio e permite a eclosão do que está sufocado, reinventa o que está censurado, repugna as angústias e vive os devaneios arquitetados pela própria loucura. Aquela loucura subconsciente das mentiras que escondem os resquícios da verdade e das verdades que podem ser a montagem de uma grande mentira. Num movimento de escuridão e claridade fica complicado realizar a cartase, então, não é mais possível discernir o quê é realidade dentro da ficção e o quê é ficção dentro da realidade.

sábado, 20 de agosto de 2011

Por que ela matou o marido?

Na adolescência foi uma pessoa que sofreu muitas desilusões amorosas. No entanto, para atrair os garotos utilizava uma estratégia diferente: arrumava-se da maneira mais feia possível e falava sobre assuntos que fugiam ao comum pois, para ela o rapaz que sobrevivesse a tamanha inadequação ganharia seu coração. Isto porque mostraria que não ligava para a aparência e nem para as maluquices da sua cabeça. Isto nunca deu certo, porém, já na idade adulta um menino de olhar furtivo se encantou por sua estranheza e ela ficou estupefata porque aquilo nunca acontecera. Já passava dos vinte e não acreditava mais em galanteios. Contudo, como estava sofrendo de abstinência afetiva, não se fez de difícil. Ele era “problemático” e ela também, logo, o casamento não demorou a sair. O seu amor estava revestido de imortalidade e jurou trabalhar para que fosse sempre à única mulher em sua vida. Viveram anos muito felizes: liam e criavam poesias, iam com freqüência ao cinema e ao teatro, discutiam muitos livros. Na casa deles não havia televisão, nem telefone, nem computador, nem nada que os ligasse ao mundo exterior. A vida se passava numa cápsula onde nenhum mal poderia os atingir. Ela trabalhava de arquivista e ele era balconista numa pastelaria. A vida era simples, mas alegre. Não tiveram filhos, nem quiseram. Todavia, o tempo foi passando e a velhice os pegando. A saúde de ambos se tornou vulnerável e pôr uma infelicidade o câncer o atingiu. Ficaram abatidos e os tratamentos além de dolorosos, eram desgastantes. Ela passou quarenta dias com ele no hospital fazendo quimioterapia. Mas, com o decorrer do tempo, numa tarde chuvosa de domingo, ele recebeu alta. Foi um dia alegre e ela o tratou com muita afetuosidade, mas, na verdade morria o vendo sentir dores tão terríveis. Tudo ficou muito difícil. Em casa, dentro do quarto, montaram uma pequena estrutura hospitalar e uma enfermaria onde havia um grande armário abarrotado de remédios. Entretanto, o médico numa visita de rotina os reuniu e foi sincero: pelas condições em que ele estava teria no máximo mais três semanas de vida. O silêncio pairou no ar e eles se olharam entrementes. Não havia coisas a serem ditas, o médico foi embora, e ela se deitou ao seu lado. Depois ela se levantou, suspirou dolorosamente e ficou imersa nos seus próprios pensamentos. Os dias seguintes foram tensos, ele gritava de dores porque o câncer já havia se espalhado por todo o corpo. Destarte, ele não estava conseguindo aproveitar seus últimos instantes devido a debilidade física que só aumentava. Na segunda semana ela decidiu então dispensar a enfermeira para tentar ajudá-lo a esquecer da doença e voltar a viver no aconchego do lar onde haviam sido tão bem-aventurados. Mesmo assim, ela também teve dificuldades para conter o júbilo da sua desilusão, mas fez de tudo para fazer os últimos momentos dele os mais agradáveis possíveis. Ele, igualmente, tentava fingir estar bem, mas o aspecto físico e os gemidos denunciavam o sofrimento. Não obstante, na terça-feira daquela semana ela começou a pensar em tudo o que se passava. Sempre cultivou uma personalidade lúgubre, tinha as suas excentricidades e "imitava a sanidade com perfeição" (Poe). Pensou no plano que na sua mente significava libertação. Então, na manhã seguinte, antes dele acordar aos berros com a amargura da sua enfermidade pegou uma série de remédios, misturou e injetou na seringa que o mantinha vivo. Teve frieza tendo em vista que pensava estar o livrando de um martírio; era "a morte de um belo homem" (Poe) que nascia. E, por um instante ficou estática, mas quando recuperou a razão ligou para a ambulância e para a polícia. Contou tudo o que havia feito e foi acusada de assassinato; alguns vizinhos afirmam que ela sofria de doenças mentais. Contudo, quem sabia da intensidade das experiências que vivera era somente ela, que naquela prisão do seu querido em vida, tentava não se lembrar do semblante cadavérico que o massacrava.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Filmes, cartões postais e carros antigos





Filmes, cartões postais e carros antigos,
suicídios plurais num dia-a-dia sem sentido.
Mapas sem trajetórias e roteiros sem destinos,
para além do imaginário o desabafo é o desatino.
No poema desafino. Devaneios, invenções irreais;
decomposição do pensamento e vícios de linguagem.
A contingência do espírito, o singular na paisagem.
A alucinação é o juízo. No devir da solidão o
caminho é o delírio. Os reflexos reais do
pensamento no vazio. Como último suspiro,
convicções danificadas: lembranças para aqueles
que já foram esquecidos. Mas e os filmes, os cartões
postais e os carros antigos? Invenções reais,
devaneios plurais, lembranças onde o desabafo
se torna desatino, sonhos daqueles que já foram esquecidos.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Girassóis Envernizados



Para conseguir sobreviver
no limite entre a realidade e a
ilusão, desenho as palavras.
Porque é no tocar das palavras
simples que te encontro num
lugar muito além da imaginação.
Se a alma está doente, calma!
Existe um lugar lá fora do mundo,
onde não mais encontraremos
os girassóis envernizados. Lá,
onde o plano contempla os
carrosséis do imaginário.
Mas se mesmo assim a alma
continuar doente, calma!
A verdade qualquer hora deixa de
ser desilusão, pois se a realidade
agora te exonera, me acompanhe
por esses lugares lá fora do mundo;
lá, onde a realidade é ilusão.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

A Descrença de um Homem Ébrio

Perambulando sem rumo,
estava absorto em pensamentos.
Demasiado possesso,
pronunciava insultos e incomodava
com seu hálito ébrio.
Pouco lúcido, as mãos trêmulas,
debatiam-se no seu corpo inquieto.
Estava um trapo e parecia sofrer
com um evento muito certo.
Sua indiferença expressava
uma dor aguda, uma angústia arrebatadora.
Seu descompasso social, entretanto,
não era capaz de destruir a fisionomia
do seu rosto angelical.
Embriagado horas a fio,
não largava o bilhete que trazia consigo.
Balbuciando coisas sem nexo,
despia o significado das letras
que olhava possesso.
No papel alguém dizia que
para todo o sempre partiria
levando na memória uma vida de alegrias.
Tomado por um sentimento inacabado,
era um homem torturado.
Traído no passado, falava das artimanhas
de uma tímida sem embaraço.
Mas agora nada importava,
andava sem rumo pelas madrugadas.
Consumido pelas sombras
a vida era desgraça.
Para sucumbir, tornou-se alcoólatra;
o único sentido que encontrara.

domingo, 14 de agosto de 2011

Estratégias de um sedutor

Seu jeito de falar e se aproximar
é capaz de fazer qualquer uma titubear.
Inteligência é algo que parece não lhe faltar.
As mãos são delicadas e
demonstram doçura ao examinar.
Perto dele é impossível não
sentir o coração acelerar.
Em estado de graça, por ele,
até os moveis pelo chão podem rolar.
Cada minuto ao seu lado parece voar.
O fôlego é perdido e as
palavras ficam por completar.
Ficar febril, querer deitar,
são os primeiros sintomas que
podem surgir se você dele se afastar.
O diagnóstico não é difícil de interpretar,
porque o sentido da moléstia está
em por ele se apaixonar.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Entre lágrimas e convulsões

O amiguinho havia quebrado seu brinquedo:
cavalinhos no carrossel de luzinhas.
Elas brilhavam e os cavalinhos rodavam,
rodavam e rodavam no ritmo da agonia.
Perturbação no pensamento,
sentiu falta da heroína.
Cocaína era melhor, mas o corpo
contra a parede ela batia.
As mãos tremiam, os olhos choravam
e a boca espumava; era a crise
de abstinência que crescia.
No entanto, supunha estar no lugar errado.
Seu problema era com as drogas
e não com um psiquiatra renomado.
Enfiaram-lhe uns remédios goela abaixo
e foi parar no quarto alcochoado.
Estirada num canto, os olhos vidrados
e os cavalinhos rodando no
carrossel das luzinhas que brilhavam.
Mas agora seu amiguinho imaginário
remontava o antigo brinquedo quebrado;
no sanatório vendo as luzes que rodavam.

terça-feira, 8 de março de 2011

Entre pulsões de leitura e crises de nervos

A leitura era o seu vício,
um território sem fronteiras,
um caminho para o abismo.
Subterrâneos; lugares obscuros
abriam espaço para os delírios.
A mente caia, se abria,
era a mão da loucura que batia.
Um tormento profundo submergia
em crises de nervos e sem dúvida
a pulsão de leitura repercutia.
Eram as crises de nervos,
o despertar da loucura que aparecia.

sábado, 5 de março de 2011

Entre Fumaça de Cigarros e Copos de Cerveja

“Eu desisti de mim mesmo” disse Antônio no auge da infelicidade. Sua tristeza contemplava o comportamento recatado. Quanto mais abria a mente, mas estranho ao meio social se tornava. Fora do contexto, antiquado, lia Diehl para ver “os sonhos do futuro no passado”. Não sabia decodificar nas palavras seus pensamentos desumanos. Do boteco observava a movimentação no bordel. Embora fosse tímido, seu estilo andróide atraia muitas mulheres. Cativava tanto que podia escolher as que achava mais belas possuindo, conseqüentemente, uma vida sexual ativa. Certo dia uma garota do bordel foi buscar uma bebida e perguntou por que tão simpático homem se perdia entre a fumaça de cigarros e copos de cerveja. Cabisbaixo respondeu que bebia para esquecer do amor atribuído a uma menina que na juventude conhecera na universidade. Segundo ele, fazia muito tempo e nunca mais à havia visto. Confessou ter tido muitas mulheres, mas aquela que nunca tocou foi a única que alcançou seu coração. Não sabia se ela estava viva ou morta, casada e com filhos. Só sabia que ela não havia se tornado uma profissional famosa porque não ouviu, nem leu, nada que se relacionasse ao seu nome. Com os cabelos grisalhos, no mesmo momento, uma mulher levantava o copo cheio de rum do outro lado do mundo. Sozinha num pub em Liverpool bebia para esquecer o amado da juventude. Fazia muito tempo, mas ela lembrava. Imaginava que agora ele estaria gordinho e calvo. Divagava ao criar filmes em que os dois um dia se encontrariam. Mas não, na realidade desapaixonante da vida isso nunca aconteceria.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Nonsense - Compondo seus versos na cidade fantasma


No mundo da irrealidade as dimensões do invisível são mensuráveis e as superfícies planas ganham profundidade. A partir de uma perspectiva que agride a racionalidade a cidade fantasma vai sendo projetada. Então, o espaço físico se torna o palco de um eterno simulacro.

Desrespeitando os limites entre a realidade e a ilusão encontro um lugar que está além da imaginação; um ponto no inconsciente. É lá que componho seus versos e estruturo o sentido da desrazão. Não obstante, alucinação e delírio alimentam a obsessão em estar contigo numa eterna paixão (a todo instante), na cidade fantasma; num lugar muito além da imaginação.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

À Sombra de Belos Cavalheiros

Numa roupa simples ou num smoking, o coração se enche de ternura quando os vejo. Com as faces perfiladas sinto-me embriagada por doses fartas de alegrias que se misturam a devaneios. Perto deles, sob seus olhares atenciosos, a sensação de proteção desencadeia volúpias. Frases afetuosas e abraços carinhosos multiplicam o desejo de aproximação. No cotidiano, ou fora dele, a presença de cavalheiros é uma necessidade, uma das principais fontes da inspiração. Loiros, ruivos, negros ou com a tez morena, passam de desconhecidos para amigos cujo nível de intimidade permite confidências guardadas nas caixas mais secretas. Mas, não são só alegrias e volúpias que os cavalheiros despertam. Eles também alimentam a alma e dão sentido a vida. Entre felicidades e desventuras nunca se negam a falar mentiras que confortam ou verdades que atormentam. Ajudam a abrir as portas da mente e esquecer os caminhos do abismo. Sempre ao meu redor fazem da troca de idéias um benefício constante. Quando longe, não se esquecem de mim. Quando perto, a simples presença causa venturas imensuráveis. Sozinhos ou em grupos tornam-se o teto da minha casa, a luz do meu dia, vivificam a minha fantasia. E quando não há nenhuma indagação a questionar, eles tomam conta dos meus pensamentos.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Entre as letras e o desatino: morte num beco e hotel de Uberaba

Devido aos desalentos da vida, Jardel perdera o coração aos quinze anos. Terminou o ginásio e ingressou na universidade, cujos conhecimentos adquiridos colaborou no amadurecimento de idéias e criação de um ser falso, descompromissado com a verdade. Cinco anos após se formar já estava completamente estabilizado financeiramente. Podia viajar pelo mundo e em cada cultura que conhecia descobria dentro destas muitas outras. Aos quarenta, a excentricidade efetivava o humor mórbido, contemplava as aventuras libertinas e apreciava o beijo do dragão para abater a melancolia que revigorava não as moléstias do corpo, mas a demência do espírito. Certo dia, numa tarde de inverno em um modesto hotel na aconchegante cidade de Uberaba, escreveu ferozmente o final do livro no qual há tempos trabalhava. A escrivaninha encostada na janela contrastava a antiga máquina de escrever com os galhos secos das árvores vistas no horizonte da pastagem também seca. Ao terminar, pegou a bengala apoiada na porta entreaberta, desceu calmamente as escadas que davam no hall de entrada do apartamento. Saiu do prédio e caminhou pela alameda, se dirigindo a um restaurante freqüentado por pessoas de vida promíscua. A mesa no canto sombreava a aparência do observador que para festejar a finalização do seu trabalho, escolheu a vítima: uma mulher pouco politizada que dançava uma música sensual no palco central. Discretamente convidada por ele, se sentou à mesa e tomou o primeiro de vários drinks. Sorrisos e uma agradável conversa abria caminho para o consumo de bebidas. Ela estava com fome e ele pagou um farto banquete. Depois de se deliciar com uma série de pratos raros, para agradecer, ela aceitou acompanhá-lo até ao hotel. Já era noite e a simpática alameda naquela hora parecia bizarra, os galhos retorcidos das árvores assemelhavam-se aos tentáculos dos monstros que habitavam as profundezas da mente dos desenhistas dos quadrinhos de horror. A escuridão e o deserto das ruas da circunvizinhança facilitaram, então, a realização dos planos fúnebres do autor que conduziu a mulher ao beco da morte. Fingiu oferecer uvas para lembrar-se do velho Jack e sacou a pequena foice com lâmina afiada para concretizar o ato que fazia palpitar na memória as ações de Pierre Rivière da comuna de Aunay. Num golpe certeiro retalhou vísceras para abstrair o órgão que aos quinze anos lhe fora roubado, o coração. Depois de retirar, enrolou-o cuidadosamente no mesmo lenço que usou no restaurante para enxugar o suor do rosto. Na maleta surrada, encontrada no beco, coloco-o. Como era habilidoso, poucos foram os pingos de sangue que tocaram a sua roupa devidamente alinhada. Cético, adentrou o hall do apartamento assoviando alegremente um ritmo baiano. Foi até a cozinha, retirou o coração da maleta, abriu a torneira e lavou. Picou em cubos pequenos, adicionou cebolinha verde e condimentos exóticos. O aroma singular tomou conta do ambiente e acompanhado da última taça de vinho saciou a angústia que o corroia desde a comemoração da finalização do livro que, antes daquele, havia sido, como todos os outros, um estouro nas vendas, muito elogiado por acadêmicos consagrados, literatos de sucesso e leitores problemáticos. Depois da sua festinha particular, bateu uma sensação de nostalgia e começou a se lembrar do tempo trágico de sua vida. Recordou o dia do parricídio em que o seu pai, num cesso de loucura, degolou o seu avô. Deixou o pensamento voar para a infância marcada por um comportamento diferente: assustava outras crianças, conversava com interlocutores invisíveis, corria pela casa sem roupa, ria sem motivos, sacrificava sem dó animais pequenos. Também, contava histórias que causavam estupor. Ao se recuperar do instante de divagação, olhou ao redor e notou a solidão que era mascarada pela invenção das vidas imaginárias que criava nos livros. O sucesso não lhe salvou, nem tampouco o dinheiro de uma carreira próspera. Olhou para o horizonte, caminhou até a sacada e pulou.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Nonsense – Um jantar com o fantasma de Dostoiévski



O corpo está encabrunhando. As folhas da árvore secam e o tempo se perde para os telespectadores da vida. O fundo do poço exala um cheiro acre. Lodo e concreto impedem a circulação do ar; a escuridão decompõe a decoração do espaço que torna-se grande para abarcar os sentimentos viciados. Entretanto, o lugar já abrigou tantos desatinados que suas águas secaram, foram absorvidas para alimentar os monstros das mentes doentes. Todos os dias são o fim do mundo e o fim já não tem mais importância porque neste local vivo você morre. Todavia, a escuridão é a luz que cega, os excessos que sufocam e as frases tristes que não fazem sentido.


Assim que adentrei aquele recinto fui engolfada por uma tristeza massacrante. A morte estava onipresente, um arrepio me subiu pela espinha e senti vontade de chorar. Na verdade, fiquei impressionada com a hostilidade dos seguranças para com os famintos que se aproximavam da porta do estabelecimento. Isto significava que fora daquele restaurante refinado Uberaba tinha fome e sofria com a miséria dos muitos andarilhos que vagavam pelas ruas sem a esperança de amparo. Eu tinha uma reserva e logo fui levada ao local que me foi destinado. Não pedi nada e esperei por uns oito minutos até que ele começou a se materializar na cadeira à minha frente. No seu primeiro suspiro foi possível perceber o cheiro do hálito ébrio e, de imediato, indagou onde estavam as cartas para jogarmos. Mas quando perguntou não teve coragem de me encarar nos olhos, suas mãos estavam trêmulas e pude notar que de maneira subtendida ele me analisava. Gostaria de ter sabido o que ele pensava e supus que aquele mundo físico estava entrando em confronto com seu mundo psicológico. Ele fez uma observação sobre o calor do nosso país tropical, pois estava acostumado com o frio de São Petersburgo e as tempestades de neve da Sibéria. Demonstrou ser uma pessoa inquieta e atormentada porque os mesmos paradoxos presentes em suas obras se estendiam às suas falas. Em quanto isto, lá fora o vento e a chuva tentavam arrebentar as vidraças. “Eu imaginava aventuras e criava para mim uma existência fantástica para viver de um modo ou de outro” (DOSTOIEVSKI, p.32), disse ele calmamente ao levar a taça de vinho aos lábios. E eu ali, estática, ouvia atenciosamente cada palavra que ele falava. Conversamos sobre “As memórias do subsolo”, as “Recordações da casa dos mortos”, os “Irmãos Karamazov”, o “Eterno marido”, “O idiota” e o livro de contos. Foi aí então que percebi como ele era singular e o quão fascinante era o mundo em que vivia: “em casa lia a maior parte do tempo, tentava assim extinguir sob impressões exteriores o que fervilhava constantemente em mim. As únicas impressões exteriores de que dispunha me vinham da leitura. Elas eram para mim um grande conforto, naturalmente: comoviam-me, distraíam-me, atormentavam-me; porém um momento chegava em que ficava fatigado. Sentia necessidade de agir: então, de repente, mergulhava na libertinagem, numa sórdida libertinagenzinha hipócrita, subterrânea. Minha irritação contínua tornava minhas paixões ardentes. Meus impulsos apaixonados terminavam em crises de nervos, com lágrimas e convulsões” (DOSTOIEVSKI, p. 58).

Quando dei por mim já passava das onze, o garçom me sacudia porque queria fechar o bar. Coloquei a mão sobre as têmporas, enxerguei a garrafa de vodka, fiz uma careta e senti minha cabeça latejar. O meu jantar com Dostoievski havia sido um sonho e estava na hora de voltar para o buraco onde eu morava.

Nonsense – Memórias do Sanatório Espírita de Uberaba (15/08/1935)




O que é real para nós pode não ser real para os outros. A força da imaginação pode criar realidades mentais tão reais quanto à realidade concreta. Entretanto, as realidades imaginárias, sozinhas, não transformam realidades concretas só pelo fato de existirem. Mundos dentro do mundo onde os homens alcançam a abstração dos olhos e da percepção; mundos dentro de mundos mentais que transcendem a utopia da razão. Então, o que é realidade, o que é ilusão no universo da criação já não faz o menor sentido.


Hoje pela primeira vez comparecemos ao Sanatório. O prédio de 1933, embora surrado pelo tempo, continua belíssimo. O contato mantido com os loucos não foi estonteante, mas interessante. Subimos as escadas com um corrimão que as nossas mãos não alcançavam. Entramos no hall e nos deparamos com três recepcionistas; mulheres do tipo que lançam olhares de julgamento por cima da armação dos óculos. Saindo do Hall adentramos uma sala cuja decoração era constituída por um quadro intrigante. Nesta sala havia dois bancos de madeira no estilo daquele que compõe o cenário da “Praça é Nossa”. Nas extremidades do ambiente existiam duas portas que iam dar em outras salas da enigmática arquitetura que no seu estado inicial tinha a forma de âncora. Foi em uma dessas salas que tivemos o primeiro contato com um “louco” que dizia ser o braço direito de Napoleão. E, por isso, ele reivindicava o recebimento de suas gratificações. No início sentimos um pouco de medo, mas depois não. Ele tinha os olhos vermelhos, parecia atordoado e queria fumar um cigarro. Convidou o meu amigo para se sentar a seu lado (foi hilária a cara dos enfermeiros). Mas logo, apareceu à senhora que iria abrir a biblioteca. Ela pediu que a acompanhássemos até um corredor estreito no qual fomos apresentados a um responsável da instituição. Após isto ela nos levou até a última sala no fim do corredor. Neste percurso observamos uma peculiaridade: todas as portas ficavam trancadas e as mulheres que se inseriam no espaço não podiam usar brincos e nem objetos cortantes, eram medidas de segurança.


Quando a senhora abriu a sala não havia biblioteca e todas as minhas perspectivas de vida naquele momento se exauriram porque que me foi explicado que quando cheguei ao sanatório estava sozinha, que não tinha nenhum amigo comigo. A realidade neste momento se tornou insuportável e os indecifráveis mundos imaginários se tornaram superfícies de sentidos vazios. E talvez por isso tivesse chegado a hora de pensar na minha própria significância enquanto organismo vivo; o momento de colocar em julgo as toneladas de incertezas cultivadas ao longo de uma vida planejada a partir da criação de testemunhas oculares, de imagens que deram vida ao meu amigo Marley. Aquele menino favorito que só a minha mente enxergava, o eterno companheiro, o conteúdo ilusório que o psiquiatra afirmava ser a fonte da minha esquizofrenia.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Nonsense – No divã “o falso é a verdade”


De onde nascem as idéias? De onde vem o tiro? Qual é a verdade? E a mentira da verdade? O público pode ir além da imaginação e criar ilusões que servem para sustentar uma realidade falsa. De onde vem o tiro? De quem é a culpa? Quem sabe? Talvez a mentira que é verdade está no grande truque que é a vida. “O público gosta de ser manipulado por verdades falsas”. Neste sentido, “o falso é a verdade” que demonstra desejos inconscientes. Para além da imaginação esses desejos denotam o universo da criação e da opressão propagada pela invenção de coisas que só fazem sentido no mundo daqueles que as criam.


Deitado comodamente no divã ouvia o psicólogo explicar que quando ele negava determinados assuntos era porque existiam tensões que convergiam em afirmação. Nessa lógica do terapeuta negar era afirmar e a mentira era a verdade que o paciente criava para sucumbir às pressões sociais. Sofria com os desrespeitos do patrão, ganhava mal, chegava a casa e sua mulher só reclamava da situação. Mas a verdade era que não estava tendo dinheiro nem para manter as necessidades básicas de sua família. Em meio a tudo isso seus parentes ainda ficavam perguntando por que ele ainda não havia comprado um carro. Em contraponto a essas desventuras tentava demonstrar estar satisfeito: com uma vida boa e tranqüila. Imaginava mundos felizes e criava realidades nas quais divagava por horas e quando acordava não suportava. Pegou o revólver, pensou um pouco e puxou o gatilho. No último suspiro, no instante que antecedeu o tiro, convicções danificadas. Nasceu para a morte e saiu do abismo.

Nonsense – As vacas, os bifes e as idéias no abate


A vaca está prenha e o restante do gado lança o seu olhar bovino sobre ela. O momento que se antecede é o do abate, mas ela não sabe. A sua vida mais a de sua cria será interrompida para satisfazer desejos: filé, paleta, picanha, fraldinha, cupim; carnes nobres, outras nem tanto. Quem se importa? O bife mal passado sangra no prato, ele está berrando assim como outra vaca berra no pasto. Mais vidas serão interrompidas, por quê? Simplesmente, porque tem de matar a fome de alguém.


Ela está prenha, suas idéias são sua cria. O momento que se antecede é o do abate. Mas, neste caso ela sabe. A sua vida mais a de sua cria será interrompida para satisfazer desejos. Métodos, conceitos, teorias, procedimentos, cientificidades; perspectivas nobres, outras nem tanto. Quem se importa? A idéia que transcende os conceitos comungados por acadêmicos está quase sempre propensa ao abate. Ela já sangra, é chegado o massacre. O abate estabelecido pela cientificidade.

Suada e trêmula Maria acordou ofegante no meio da madrugada. No dia seguinte iria defender a sua tese para aquisição do doutorado. Estava ansiosa e tinha medo de não conseguir responder a todos os questionamentos da banca examinadora, isto é, temia ao abate intelectual. E, numa área afastada da cidade, num sítio bem organizado, estavam às vacas e no prato do dono, o bife mal passado.