segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Uma realidade em Uberaba: Desrespeito e Humilhação no Hospital de Pessoas Pequenas

Quando eu tinha uns dez anos acompanhei a mamãe até o Hospital de Pessoas Pequenas. Fomos levar a minha irmã que naquela época ainda era um bebê. Ela tinha febre e vomitava sem parar. Já havia horas que estava ruim e meus pais, desesperados, não quiseram mais esperar. Saímos de madrugada. Meu pai era operário de uma grande empresa de fertilizantes e tinha de estar no trabalho às seis da manhã. Por isso, ele só nos transportou. O Hospital em si era dividido em duas partes. Uma, era destinada ao atendimento público e a outra ao privado. Ambas contavam com Pronto-Socorro. Não tínhamos plano de saúde e nem dinheiro para pagar uma consulta. O jeito então era ficar aguardando no Pronto-Socorro da área pública, que estava bem cheia. No sistema de funcionamento tinha demora, era necessário preencher uma burocrática ficha, cujo número indicava o momento da criança ser atendida. Este número geralmente equivalia à ordem de chegada. As condições de espera eram degradantes porque o acesso aos bebedouros e banheiros era difícil, as funcionárias da recepção não sabiam dar informações e passavam a maior parte do tempo fofocando ou comentando sobre os acontecimentos da novela. Os bancos rústicos, de concreto, também não eram muito confortáveis e depois de horas observando a angústia dos filhos, os responsáveis começaram a se irritar. Mães puseram-se a andar de um lado para o outro com as crianças nos braços, essas choravam sem parar. Um pai furioso bateu no vidro que separava a sala da recepção da sala de espera. Perguntava em que momento o seu filho seria atendido. Desrespeitosamente, a funcionária quis saber quem ele pensava que era. Vermelho como um pimentão, o homem parecia que ia ter um infarto e, de forma grosseira, foi explicado a ele que a demora se deu devido a falta de médicos no plantão; naquela noite dois profissionais estariam cumprindo o horário. Todavia, somente um estava trabalhando e era na área particular. Isto queria dizer que as crianças com pais que possuíam maiores recursos financeiros eram priorizadas no atendimento. Depois de saber disso, os ânimos ficaram cada vez mais exaltados. Minha mãe perdeu a paciência, junto com ela, muitas outras. A balburdia foi tão grande que o médico foi chamado num instante. Ele deu início aos atendimentos que eram realizados de maneira descompromissada. Não examinava a criança, simplesmente olhava de longe e dizia que era virose. Na verdade, todos que saíam da sala traziam o mesmo diagnóstico. O dia amanheceu e minha irmã conseguiu o atendimento depois de doze horas de espera. Se o caso fosse mais sério poderia ter morrido. Felizmente, isso não aconteceu com ninguém, mas, uma coisa é certa, todos que estiveram no Hospital de Pessoas Pequenas naquela noite tiraram à prova de que o serviço de saúde pública em Uberaba é infinitamente precário, se ganha muito desrespeito e humilhação. E hoje, anos após este ocorrido, ainda assisto no noticiário os mesmos problemas, as mesmas indignações.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Eu, tu e o horizonte

Queria visitar contigo todos os lugares

que a mente almejar e o dinheiro permitir.

Admirar o pôr-do-sol,

filosofar nas montanhas,

ficar juntinhos numa cabana ou

fazer amor sob o luar.

Conhecer outros povos,

outras línguas, outros lugares,

sentir sabores e respirar outros ares.

Compartilhar aspirações e dividir frustrações

numa pitoresca jornada cujo objetivo

está em olharmos o outro para entender a nós mesmos.

Também, para observar as ações

do homem no tempo e no espaço.

Aí então, nem as pirâmides do Egito ou

as geleiras do Alaska serão distantes para nós porque,

como um mergulho profundo no infinito do universo,

nessas andanças nós três seremos eternos: eu, tu e o horizonte.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Por assim dizer, o que é o amor


O amor é uma coisa ambígua,
porque ao mesmo tempo em
que dá significado à vida
ele também mata.

É uma cólera noturna disseminada
por poetas pérfidos,
desnutridos de emoção.
É como um parasita, sanguessuga,
que se apega ao outro numa
simetria sem junção; é um
mundo desconexo e sem razão.


É uma peste fatal,
tão mortal quanto a Peste Bubônica
ou a filosofia platônica legada de tempos distantes.
É como um muro imaginário edificado por pessoas
que se encontram lado a lado comungando um
sofrimento que não é imaginário.


É saber o que acontece e não ter coragem pra dizer,
um não dizer sustentado por olhares que se cruzam
que se arrastam pela beleza de sarjetas bizarras.
Tão sincero quanto às verdades narradas de Boccaccio,
tão falso quanto o patife de sentimentos
variáveis e amores simultâneos.


Por assim dizer, o que é o amor:
É o sofrimento que mata e, ao mesmo tempo,
revigora a alma cristalizando um ferimento que não sara.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Gigantesca Paixão

Moço bonito,
de simplicidade na fala,
ajude-me a desvendar
os mistérios da paixão.
Por meio do carinho,
dos gestos, dos olhares
e das palavras decifre os
segredos do meu coração.
Leve-me para o alto de
uma montanha para
juntos contemplarmos
uma enorme constelação.
Sei que sou muito doce,
recatada e tímida, por isso,
me acompanhe com respeito,
dedicação e uma farta
dose de discrição.
Não tenha medo de parecer
excessivamente bucólico ou
estupidamente romântico,
pois é isso que dá sentido
a nossa envolvente paixão.
Sinta-se à vontade para
expor suas desventuras
ou deixe no silêncio a
intensidade de uma ilusão.
Crie o nosso “ninho do amor”
para que, no recolhimento,
possamos viver com
sensibilidade as agruras
de uma arrebatadora emoção.
Me ame com calma e não
invente amarras para
a nossa plena realização.
Fique sempre ao meu lado
e se sentir-se sufocado
diga-me com jeitinho
porque assim farei um
tratamento psiquiátrico.
Enfim, não tenha medo;
você está em meu coração e
é o muso da minha eterna paixão.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Um dia só para nós dois

Fora da rotina do cotidiano
queria reservar um
dia só para nós dois.
Sentar ao seu lado, contemplar
o pôr-do-sol ou aventurar-me
contigo rumo ao horizonte.
E, num lugar isolado, deixar
os nossos corpos perfilados
para admirar as belezas do
mundo, das estrelas e do luar.
Queria estar contigo para poder
afagá-lo, mimá-lo, cobrir
de beijos e encher de abraços.
Queria, queria, queria apenas estar
contigo num lugar bem bonito e isolado
vivendo um dia só para nós dois, lado a lado.

sábado, 1 de janeiro de 2011

História e Literatura: uma está no cérebro e a outra no coração

A História e a Literatura são companheiras e “se fundem numa relação de troca e cumplicidade” (REZENDE, 1993, p. 42). Ambas falam da realidade, contudo, não são a mesma coisa. A primeira tem um discurso que leva em conta o compromisso de lidar apenas com fatos reais e a segunda tem um discurso que lida com fatos fictícios. Mas, ao fazer suas escolhas e construir suas análises acerca dos documentos, os historiadores fazem uma espécie de ficção (Hayden White que o diga). Da mesma forma que o literato, ao escrever seus textos, não está desvinculado de uma realidade. A Literatura é uma representação e interpretação que o literato dá para o real, não muito diferente do ofício dos historiadores que utilizam de procedimentos, teorias e métodos para pensar esse real. Na Literatura, os eventos narrados são de coisas que podem não ter acontecido, mas que na época em foram escritos são passíveis de ter ocorrido. Temos então, por parte da Literatura, uma representação poética e, por parte da História, uma representação científica. O discurso da Literatura revela a junção entre arte e consciência estética. Já o discurso da História integra ciência e consciência social. Neste sentido, a Literatura é uma fonte documental para a História, porque é um sismógrafo do imaginário social que é formado historicamente e confere identidade. Para esse imaginário ser apreendido pelo historiador é preciso ir do texto feito pelo literato ao contexto vivido por ele; é preciso lembrar também que a Literatura não é o espelho do real, embora parta dele. Em linhas gerais, a análise historiográfica às vezes é um pouco frígida e difícil de entender. Logo, para sucumbir a esta dificuldade, a Literatura se faz soberana, porque a sua linguagem permite que o leitor identifique “atividades materiais e espirituais dos homens, como seus sonhos, frustrações, angústias e utopias” (RZENDE, 1993, p. 39). Destarte, a História está no cérebro e a Literatura no coração; a História é o esqueleto e a Literatura, a circulação. Uma completa a outra e as duas em articulação enriquecem o sentido da vida.