sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Nonsense - Compondo seus versos na cidade fantasma


No mundo da irrealidade as dimensões do invisível são mensuráveis e as superfícies planas ganham profundidade. A partir de uma perspectiva que agride a racionalidade a cidade fantasma vai sendo projetada. Então, o espaço físico se torna o palco de um eterno simulacro.

Desrespeitando os limites entre a realidade e a ilusão encontro um lugar que está além da imaginação; um ponto no inconsciente. É lá que componho seus versos e estruturo o sentido da desrazão. Não obstante, alucinação e delírio alimentam a obsessão em estar contigo numa eterna paixão (a todo instante), na cidade fantasma; num lugar muito além da imaginação.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

À Sombra de Belos Cavalheiros

Numa roupa simples ou num smoking, o coração se enche de ternura quando os vejo. Com as faces perfiladas sinto-me embriagada por doses fartas de alegrias que se misturam a devaneios. Perto deles, sob seus olhares atenciosos, a sensação de proteção desencadeia volúpias. Frases afetuosas e abraços carinhosos multiplicam o desejo de aproximação. No cotidiano, ou fora dele, a presença de cavalheiros é uma necessidade, uma das principais fontes da inspiração. Loiros, ruivos, negros ou com a tez morena, passam de desconhecidos para amigos cujo nível de intimidade permite confidências guardadas nas caixas mais secretas. Mas, não são só alegrias e volúpias que os cavalheiros despertam. Eles também alimentam a alma e dão sentido a vida. Entre felicidades e desventuras nunca se negam a falar mentiras que confortam ou verdades que atormentam. Ajudam a abrir as portas da mente e esquecer os caminhos do abismo. Sempre ao meu redor fazem da troca de idéias um benefício constante. Quando longe, não se esquecem de mim. Quando perto, a simples presença causa venturas imensuráveis. Sozinhos ou em grupos tornam-se o teto da minha casa, a luz do meu dia, vivificam a minha fantasia. E quando não há nenhuma indagação a questionar, eles tomam conta dos meus pensamentos.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Entre as letras e o desatino: morte num beco e hotel de Uberaba

Devido aos desalentos da vida, Jardel perdera o coração aos quinze anos. Terminou o ginásio e ingressou na universidade, cujos conhecimentos adquiridos colaborou no amadurecimento de idéias e criação de um ser falso, descompromissado com a verdade. Cinco anos após se formar já estava completamente estabilizado financeiramente. Podia viajar pelo mundo e em cada cultura que conhecia descobria dentro destas muitas outras. Aos quarenta, a excentricidade efetivava o humor mórbido, contemplava as aventuras libertinas e apreciava o beijo do dragão para abater a melancolia que revigorava não as moléstias do corpo, mas a demência do espírito. Certo dia, numa tarde de inverno em um modesto hotel na aconchegante cidade de Uberaba, escreveu ferozmente o final do livro no qual há tempos trabalhava. A escrivaninha encostada na janela contrastava a antiga máquina de escrever com os galhos secos das árvores vistas no horizonte da pastagem também seca. Ao terminar, pegou a bengala apoiada na porta entreaberta, desceu calmamente as escadas que davam no hall de entrada do apartamento. Saiu do prédio e caminhou pela alameda, se dirigindo a um restaurante freqüentado por pessoas de vida promíscua. A mesa no canto sombreava a aparência do observador que para festejar a finalização do seu trabalho, escolheu a vítima: uma mulher pouco politizada que dançava uma música sensual no palco central. Discretamente convidada por ele, se sentou à mesa e tomou o primeiro de vários drinks. Sorrisos e uma agradável conversa abria caminho para o consumo de bebidas. Ela estava com fome e ele pagou um farto banquete. Depois de se deliciar com uma série de pratos raros, para agradecer, ela aceitou acompanhá-lo até ao hotel. Já era noite e a simpática alameda naquela hora parecia bizarra, os galhos retorcidos das árvores assemelhavam-se aos tentáculos dos monstros que habitavam as profundezas da mente dos desenhistas dos quadrinhos de horror. A escuridão e o deserto das ruas da circunvizinhança facilitaram, então, a realização dos planos fúnebres do autor que conduziu a mulher ao beco da morte. Fingiu oferecer uvas para lembrar-se do velho Jack e sacou a pequena foice com lâmina afiada para concretizar o ato que fazia palpitar na memória as ações de Pierre Rivière da comuna de Aunay. Num golpe certeiro retalhou vísceras para abstrair o órgão que aos quinze anos lhe fora roubado, o coração. Depois de retirar, enrolou-o cuidadosamente no mesmo lenço que usou no restaurante para enxugar o suor do rosto. Na maleta surrada, encontrada no beco, coloco-o. Como era habilidoso, poucos foram os pingos de sangue que tocaram a sua roupa devidamente alinhada. Cético, adentrou o hall do apartamento assoviando alegremente um ritmo baiano. Foi até a cozinha, retirou o coração da maleta, abriu a torneira e lavou. Picou em cubos pequenos, adicionou cebolinha verde e condimentos exóticos. O aroma singular tomou conta do ambiente e acompanhado da última taça de vinho saciou a angústia que o corroia desde a comemoração da finalização do livro que, antes daquele, havia sido, como todos os outros, um estouro nas vendas, muito elogiado por acadêmicos consagrados, literatos de sucesso e leitores problemáticos. Depois da sua festinha particular, bateu uma sensação de nostalgia e começou a se lembrar do tempo trágico de sua vida. Recordou o dia do parricídio em que o seu pai, num cesso de loucura, degolou o seu avô. Deixou o pensamento voar para a infância marcada por um comportamento diferente: assustava outras crianças, conversava com interlocutores invisíveis, corria pela casa sem roupa, ria sem motivos, sacrificava sem dó animais pequenos. Também, contava histórias que causavam estupor. Ao se recuperar do instante de divagação, olhou ao redor e notou a solidão que era mascarada pela invenção das vidas imaginárias que criava nos livros. O sucesso não lhe salvou, nem tampouco o dinheiro de uma carreira próspera. Olhou para o horizonte, caminhou até a sacada e pulou.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Nonsense – Um jantar com o fantasma de Dostoiévski



O corpo está encabrunhando. As folhas da árvore secam e o tempo se perde para os telespectadores da vida. O fundo do poço exala um cheiro acre. Lodo e concreto impedem a circulação do ar; a escuridão decompõe a decoração do espaço que torna-se grande para abarcar os sentimentos viciados. Entretanto, o lugar já abrigou tantos desatinados que suas águas secaram, foram absorvidas para alimentar os monstros das mentes doentes. Todos os dias são o fim do mundo e o fim já não tem mais importância porque neste local vivo você morre. Todavia, a escuridão é a luz que cega, os excessos que sufocam e as frases tristes que não fazem sentido.


Assim que adentrei aquele recinto fui engolfada por uma tristeza massacrante. A morte estava onipresente, um arrepio me subiu pela espinha e senti vontade de chorar. Na verdade, fiquei impressionada com a hostilidade dos seguranças para com os famintos que se aproximavam da porta do estabelecimento. Isto significava que fora daquele restaurante refinado Uberaba tinha fome e sofria com a miséria dos muitos andarilhos que vagavam pelas ruas sem a esperança de amparo. Eu tinha uma reserva e logo fui levada ao local que me foi destinado. Não pedi nada e esperei por uns oito minutos até que ele começou a se materializar na cadeira à minha frente. No seu primeiro suspiro foi possível perceber o cheiro do hálito ébrio e, de imediato, indagou onde estavam as cartas para jogarmos. Mas quando perguntou não teve coragem de me encarar nos olhos, suas mãos estavam trêmulas e pude notar que de maneira subtendida ele me analisava. Gostaria de ter sabido o que ele pensava e supus que aquele mundo físico estava entrando em confronto com seu mundo psicológico. Ele fez uma observação sobre o calor do nosso país tropical, pois estava acostumado com o frio de São Petersburgo e as tempestades de neve da Sibéria. Demonstrou ser uma pessoa inquieta e atormentada porque os mesmos paradoxos presentes em suas obras se estendiam às suas falas. Em quanto isto, lá fora o vento e a chuva tentavam arrebentar as vidraças. “Eu imaginava aventuras e criava para mim uma existência fantástica para viver de um modo ou de outro” (DOSTOIEVSKI, p.32), disse ele calmamente ao levar a taça de vinho aos lábios. E eu ali, estática, ouvia atenciosamente cada palavra que ele falava. Conversamos sobre “As memórias do subsolo”, as “Recordações da casa dos mortos”, os “Irmãos Karamazov”, o “Eterno marido”, “O idiota” e o livro de contos. Foi aí então que percebi como ele era singular e o quão fascinante era o mundo em que vivia: “em casa lia a maior parte do tempo, tentava assim extinguir sob impressões exteriores o que fervilhava constantemente em mim. As únicas impressões exteriores de que dispunha me vinham da leitura. Elas eram para mim um grande conforto, naturalmente: comoviam-me, distraíam-me, atormentavam-me; porém um momento chegava em que ficava fatigado. Sentia necessidade de agir: então, de repente, mergulhava na libertinagem, numa sórdida libertinagenzinha hipócrita, subterrânea. Minha irritação contínua tornava minhas paixões ardentes. Meus impulsos apaixonados terminavam em crises de nervos, com lágrimas e convulsões” (DOSTOIEVSKI, p. 58).

Quando dei por mim já passava das onze, o garçom me sacudia porque queria fechar o bar. Coloquei a mão sobre as têmporas, enxerguei a garrafa de vodka, fiz uma careta e senti minha cabeça latejar. O meu jantar com Dostoievski havia sido um sonho e estava na hora de voltar para o buraco onde eu morava.

Nonsense – Memórias do Sanatório Espírita de Uberaba (15/08/1935)




O que é real para nós pode não ser real para os outros. A força da imaginação pode criar realidades mentais tão reais quanto à realidade concreta. Entretanto, as realidades imaginárias, sozinhas, não transformam realidades concretas só pelo fato de existirem. Mundos dentro do mundo onde os homens alcançam a abstração dos olhos e da percepção; mundos dentro de mundos mentais que transcendem a utopia da razão. Então, o que é realidade, o que é ilusão no universo da criação já não faz o menor sentido.


Hoje pela primeira vez comparecemos ao Sanatório. O prédio de 1933, embora surrado pelo tempo, continua belíssimo. O contato mantido com os loucos não foi estonteante, mas interessante. Subimos as escadas com um corrimão que as nossas mãos não alcançavam. Entramos no hall e nos deparamos com três recepcionistas; mulheres do tipo que lançam olhares de julgamento por cima da armação dos óculos. Saindo do Hall adentramos uma sala cuja decoração era constituída por um quadro intrigante. Nesta sala havia dois bancos de madeira no estilo daquele que compõe o cenário da “Praça é Nossa”. Nas extremidades do ambiente existiam duas portas que iam dar em outras salas da enigmática arquitetura que no seu estado inicial tinha a forma de âncora. Foi em uma dessas salas que tivemos o primeiro contato com um “louco” que dizia ser o braço direito de Napoleão. E, por isso, ele reivindicava o recebimento de suas gratificações. No início sentimos um pouco de medo, mas depois não. Ele tinha os olhos vermelhos, parecia atordoado e queria fumar um cigarro. Convidou o meu amigo para se sentar a seu lado (foi hilária a cara dos enfermeiros). Mas logo, apareceu à senhora que iria abrir a biblioteca. Ela pediu que a acompanhássemos até um corredor estreito no qual fomos apresentados a um responsável da instituição. Após isto ela nos levou até a última sala no fim do corredor. Neste percurso observamos uma peculiaridade: todas as portas ficavam trancadas e as mulheres que se inseriam no espaço não podiam usar brincos e nem objetos cortantes, eram medidas de segurança.


Quando a senhora abriu a sala não havia biblioteca e todas as minhas perspectivas de vida naquele momento se exauriram porque que me foi explicado que quando cheguei ao sanatório estava sozinha, que não tinha nenhum amigo comigo. A realidade neste momento se tornou insuportável e os indecifráveis mundos imaginários se tornaram superfícies de sentidos vazios. E talvez por isso tivesse chegado a hora de pensar na minha própria significância enquanto organismo vivo; o momento de colocar em julgo as toneladas de incertezas cultivadas ao longo de uma vida planejada a partir da criação de testemunhas oculares, de imagens que deram vida ao meu amigo Marley. Aquele menino favorito que só a minha mente enxergava, o eterno companheiro, o conteúdo ilusório que o psiquiatra afirmava ser a fonte da minha esquizofrenia.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Nonsense – No divã “o falso é a verdade”


De onde nascem as idéias? De onde vem o tiro? Qual é a verdade? E a mentira da verdade? O público pode ir além da imaginação e criar ilusões que servem para sustentar uma realidade falsa. De onde vem o tiro? De quem é a culpa? Quem sabe? Talvez a mentira que é verdade está no grande truque que é a vida. “O público gosta de ser manipulado por verdades falsas”. Neste sentido, “o falso é a verdade” que demonstra desejos inconscientes. Para além da imaginação esses desejos denotam o universo da criação e da opressão propagada pela invenção de coisas que só fazem sentido no mundo daqueles que as criam.


Deitado comodamente no divã ouvia o psicólogo explicar que quando ele negava determinados assuntos era porque existiam tensões que convergiam em afirmação. Nessa lógica do terapeuta negar era afirmar e a mentira era a verdade que o paciente criava para sucumbir às pressões sociais. Sofria com os desrespeitos do patrão, ganhava mal, chegava a casa e sua mulher só reclamava da situação. Mas a verdade era que não estava tendo dinheiro nem para manter as necessidades básicas de sua família. Em meio a tudo isso seus parentes ainda ficavam perguntando por que ele ainda não havia comprado um carro. Em contraponto a essas desventuras tentava demonstrar estar satisfeito: com uma vida boa e tranqüila. Imaginava mundos felizes e criava realidades nas quais divagava por horas e quando acordava não suportava. Pegou o revólver, pensou um pouco e puxou o gatilho. No último suspiro, no instante que antecedeu o tiro, convicções danificadas. Nasceu para a morte e saiu do abismo.

Nonsense – As vacas, os bifes e as idéias no abate


A vaca está prenha e o restante do gado lança o seu olhar bovino sobre ela. O momento que se antecede é o do abate, mas ela não sabe. A sua vida mais a de sua cria será interrompida para satisfazer desejos: filé, paleta, picanha, fraldinha, cupim; carnes nobres, outras nem tanto. Quem se importa? O bife mal passado sangra no prato, ele está berrando assim como outra vaca berra no pasto. Mais vidas serão interrompidas, por quê? Simplesmente, porque tem de matar a fome de alguém.


Ela está prenha, suas idéias são sua cria. O momento que se antecede é o do abate. Mas, neste caso ela sabe. A sua vida mais a de sua cria será interrompida para satisfazer desejos. Métodos, conceitos, teorias, procedimentos, cientificidades; perspectivas nobres, outras nem tanto. Quem se importa? A idéia que transcende os conceitos comungados por acadêmicos está quase sempre propensa ao abate. Ela já sangra, é chegado o massacre. O abate estabelecido pela cientificidade.

Suada e trêmula Maria acordou ofegante no meio da madrugada. No dia seguinte iria defender a sua tese para aquisição do doutorado. Estava ansiosa e tinha medo de não conseguir responder a todos os questionamentos da banca examinadora, isto é, temia ao abate intelectual. E, numa área afastada da cidade, num sítio bem organizado, estavam às vacas e no prato do dono, o bife mal passado.