quarta-feira, 9 de março de 2011

Entre lágrimas e convulsões

O amiguinho havia quebrado seu brinquedo:
cavalinhos no carrossel de luzinhas.
Elas brilhavam e os cavalinhos rodavam,
rodavam e rodavam no ritmo da agonia.
Perturbação no pensamento,
sentiu falta da heroína.
Cocaína era melhor, mas o corpo
contra a parede ela batia.
As mãos tremiam, os olhos choravam
e a boca espumava; era a crise
de abstinência que crescia.
No entanto, supunha estar no lugar errado.
Seu problema era com as drogas
e não com um psiquiatra renomado.
Enfiaram-lhe uns remédios goela abaixo
e foi parar no quarto alcochoado.
Estirada num canto, os olhos vidrados
e os cavalinhos rodando no
carrossel das luzinhas que brilhavam.
Mas agora seu amiguinho imaginário
remontava o antigo brinquedo quebrado;
no sanatório vendo as luzes que rodavam.

terça-feira, 8 de março de 2011

Entre pulsões de leitura e crises de nervos

A leitura era o seu vício,
um território sem fronteiras,
um caminho para o abismo.
Subterrâneos; lugares obscuros
abriam espaço para os delírios.
A mente caia, se abria,
era a mão da loucura que batia.
Um tormento profundo submergia
em crises de nervos e sem dúvida
a pulsão de leitura repercutia.
Eram as crises de nervos,
o despertar da loucura que aparecia.

sábado, 5 de março de 2011

Entre Fumaça de Cigarros e Copos de Cerveja

“Eu desisti de mim mesmo” disse Antônio no auge da infelicidade. Sua tristeza contemplava o comportamento recatado. Quanto mais abria a mente, mas estranho ao meio social se tornava. Fora do contexto, antiquado, lia Diehl para ver “os sonhos do futuro no passado”. Não sabia decodificar nas palavras seus pensamentos desumanos. Do boteco observava a movimentação no bordel. Embora fosse tímido, seu estilo andróide atraia muitas mulheres. Cativava tanto que podia escolher as que achava mais belas possuindo, conseqüentemente, uma vida sexual ativa. Certo dia uma garota do bordel foi buscar uma bebida e perguntou por que tão simpático homem se perdia entre a fumaça de cigarros e copos de cerveja. Cabisbaixo respondeu que bebia para esquecer do amor atribuído a uma menina que na juventude conhecera na universidade. Segundo ele, fazia muito tempo e nunca mais à havia visto. Confessou ter tido muitas mulheres, mas aquela que nunca tocou foi a única que alcançou seu coração. Não sabia se ela estava viva ou morta, casada e com filhos. Só sabia que ela não havia se tornado uma profissional famosa porque não ouviu, nem leu, nada que se relacionasse ao seu nome. Com os cabelos grisalhos, no mesmo momento, uma mulher levantava o copo cheio de rum do outro lado do mundo. Sozinha num pub em Liverpool bebia para esquecer o amado da juventude. Fazia muito tempo, mas ela lembrava. Imaginava que agora ele estaria gordinho e calvo. Divagava ao criar filmes em que os dois um dia se encontrariam. Mas não, na realidade desapaixonante da vida isso nunca aconteceria.