quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Edward Mãos de Tesoura



Edward mãos de tesoura é um filme de 1990 realizado sob a direção de Tim Burton tendo como destaque o ator Jhonny Deep. Sendo um misto de fantasia e horror a história é um sobre um cara que, criado por um inventor de personalidade singular, tem tesouras no lugar das mãos. Ele morava sozinho num castelo no alto de uma montanha da qual a perspectiva permitia a vizualização de uma cidadezinha e certo dia recebeu a visita de uma vendedora do AVON que impressionada com a sua situação o levou para a tal cidade e lá ele conheceu a filha da vendedora, menina com a qual foi viver um breve romance. Tendo características diferentes daquelas de outras pessoas ele foi alvo de conversas inglórias e até de perseguissões. O filme sem dúvida tem um desenrolar fantástico e vale a pena assistir.



Vincent Malloy

Enclausurado no quarto, no universo fechado, a falta de limites para a imaginação dava formas ao desatino que brotava do corpo moribundo. Preso na masmorra, jogado no fundo do poço, passava a vida se perguntando o que faria, onde iria chegar. Acreditava desconhecer virtudes e fora das horas cantarolava mentiras que alegravam as ilusões da alma triste. Cambiava pensamentos com interlocutores que mesmo sendo mudos diziam muitas coisas. Sentia vontade de cair fora do mundo e sucumbir aos abatimentos e decepções condicionadas por uma realidade fúnebre. Inventava mundos novos que se caracterizavam por sombras e silêncios, sofrimentos e agonias, que ficavam presas no aquário de elementos que não existem.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Mort Rainey




Com o seu roupão descosturado, os cabelos despenteados e os óculos avantajados, ele é encantador. Em uma cabana à beira do lago, sozinho e isolado, se esforça para criar novas histórias. Escritor consolidado, recentemente traído pela esposa, sente a inspiração lhe faltar. Suas únicas companhias são o cachorro, a preguiça, o sofá e o sono. Psicologicamente desamparado, suas frustrações abrem a janela da mente cuja beleza é bizarra; a esperteza dela está em elaborar maneiras para sucumbir aos seus conflitos e desejos mais íntimos. Paradoxalmente, a abstinência criativa abre espaço para o nascimento daquilo que está dentro de si, isto é, enquanto acredita que tudo que tenta produzir não passa de lixo literário sua mente edifica a grande criação. Mistura a realidade e a ilusão para compor a perseguição entre autor e personagem, loucura e sanidade. Com atitudes um tanto cômicas, fala sozinho, gesticula quando não gosta de algo e sabe ser irônico. Demonstra introspecção e amedronta-se com aquilo que supõe não poder controlar, mas tudo se torna claro quando descobre que a fantasia faz parte do espetáculo. Sem Dúvida, um sujeito de comportamento singular que faz da desilusão a salvação que vai além dos limites da imaginação de testemunhas oculares. Denota o universo da invenção e da reinvenção propagada por verdades que só se tornam verdades no mundo daquele que as forjou. Sobre isso, a mente de Mort Rainey encontrou uma maneira de compensar a falta de engenho, mais do que isso desencadeou um modo perigoso de satisfazer seus anseios mais obscuros.

sábado, 27 de agosto de 2011

Alguns pontos da palestra sobre a História do movimento psicanalítico (27/08/11)

Sendo hoje o dia oficial do psicólogo tive a oportunidade de participar de uma palestra na UFTM ministrada pela professora e psicanalista Dr.ª Sandra Nunes Caseiro. Ela iniciou dizendo que Freud no início do século XX teve muitas dificuldades para inserir a psicanálise na Universidade e brincou: “Freud era um homem austero porque além de pobre e judeu ainda aparecia na Universidade falando umas idéias que para sua época não tinham nada a ver”; Neste sentido, Freud demonstrava seriedade para ajudar a dar validade as suas colocações que eram alvo sempre de muitas críticas, mas mesmo assim afirmava que “aquilo que você pensa que você é é só a pontinha do iceberg”. Destarte, a partir dessas breves menções a Freud Caseiro adentrou a explicação do processo histórico na antiguidade com ênfase nas civilizações grega e romana, mas esta explicação se deu é claro relacionando-se com seu olhar de psicanalista. Disse que “na Grécia antiga existia o culto aos deuses, mas a religiosidade não reprimia o pensamento racional das pessoas que tinham uma preocupação com a vida que se vivia”; falou também dos romanos que “gostavam de conquistar, davam importância a lutas, batalhas e guerras”. No entanto, Caseiro apontou que com o crescimento do Império a população romana aumentou e iniciaram-se as invasões bárbaras que fizeram com que as famílias ficassem cansadas de ser saqueadas e sofrer com a falta de alimento. Daí, de forma um pouco embaralhada a psicanalista contou que neste contexto surgiu a figura de Cristo que foi uma espécie de motivação para as pessoas viverem, pois se tinham uma vida difícil na Terra, na morte alcançariam os céus (se seguissem os mandamentos de Cristo, é claro). Então a figura de Cristo oferecia uma razão de viver, uma imortalidade pessoal. Seguiu falando que na Idade Média a mente do homem retrocedeu porque estava cerceada pela religião, sobretudo no que toca as ações da Igreja Católica. Disse também, que na visão medieval de mundo existia uma hierarquia na qual no topo estava Deus, depois os anjos, os homens, os animais, as plantas e as pedras. Isto por sua vez dava segurança ao homem que era norteado por uma estrutura teológica. Daí falou do Renascimento e do Iluminismo abordando alguns estudiosos destes períodos. Falou também do zeitgeist que nada mais é do que “aquilo que rola na cabeça das pessoas em uma determinada época” e deixou claro que a partir do Iluminismo ficou difícil identificá-lo tendo em vista que muitos pensamentos começaram a “pipocar” em lugares específicos e as modificações começaram a se dar de maneira muito rápida. Explicou ainda alguns aspectos da Idade Moderna e então retornou a explicações acerca de Freud que colocava que o homem era bem mais que razão, isto é, era um “homem psicológico” que possuía dois agrupamentos psíquicos: a consciência e a inconsciência. A razão para Freud, segundo ela, tinha seus limites e na mente havia mais coisas. Freud descentralizava o homem porque na sua ótica “nós tínhamos consciência apenas de uma parte do que nós somos”. Assim sendo, ele funda a psicanálise que vai tratar de teorias sobre a mente e pensar o homem no geral; saindo do que é patológico. Freud começou a trabalhar na idéia de inconsciente e dizia que os sintomas são símbolos, fragmentos para a verdade nos quais os sonhos são sintomas/símbolos que podiam ser decifrados permitindo a chegada em questões do inconsciente que era povoado de fantasias e desejos infantis. Caseiro neste ponto fez uma série de comentários e mencionou a criação da teoria das pulsões. Por fim, já nas perguntas da platéia, explicou que hoje em dia ninguém está livre da pressão cultural que de forma quase imperceptível está em todos os lugares e sempre nos submetemos a ela.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Tim Burton





"É curioso que esse rótulo me persiga... Deve ser alguma peculiaridade da cultura americana, onde você é rotulado por alguma característica quando é muito jovem, isso gruda em você para o resto da vida, não importa o que você faça. hoje, se eu sair na rua vestido de palhaço, rindo à toa, ainda vão dizer que tenho uma personalidade sombria".

A fantasia faz parte da realidade e a realidade faz parte da fantasia. Elas se misturam e dão vida a mundos que transcendem o natural. Criam um palco de variedades para dar vivacidade a platéias que apreciam a relação densa entre o tempo e o espaço, a loucura e a razão, a história e a ficção. Fronteiras para a imaginação não existem. As diferentes leituras para um mesmo tema e as imagens que criamos para estas podem ir além de nossas expectativas. Sobre isso, apreciar o seu trabalho significa ter a oportunidade de perceber que a profundidade da arte se entremeia com as possibilidades da estética. Um sujeito bem humorado que se dedica a carreira, a família e aos amigos. É rotulado como soturno devido ao comportamento de juventude, mas isto não é verdade. Em suas entrevistas e produções é possível perceber uma personalidade alegre e inteligente. No entanto, vangloriá-lo somente é estar sendo mesquinho, por que ele já enfrentou dificuldades, já recebeu muitas críticas e nem todos seus filmes foram sucessos de bilheteria. Ele tem um estilo próprio, por que sua obra contempla desde personagens pitorescos em ambientes escuros, até explosões de cores, fantasia e humor. Bizarro e estranho são adjetivos limitados para ele, tendo em vista que demonstra versatilidade. Livre de estereótipos consegue demonstrar que cada trabalho tem suas especificidades: envolve pesquisa, produção e todos os detalhes que abrangem a sua concretização. Mais do que dirigir, elabora animações, escreve e esboça os desenhos daquilo que tem em mente. Não faz tudo sozinho, conta com a participação de pessoas que muito o ajudam. É fato que adora trabalhar com Johnny Deep, os dois entrementes se entendem, pois, a amizade e a confiança que existe fora das telas servem como força motriz para o alcance de objetivos propostos. Também, é impossível não rir ao assistir programas de TV nos quais os dois participam. Sem dúvida, não são irmãos de sangue, mas, são de coração. Estão envelhecendo juntos, amadurecendo e trocando experiências. Vincent Price, Robert Smith, Edgar Alan Poe e Ed Wood foram alguns dos homens que o inspiraram. Uma coisa interessante, e nobre, é que além de explorar o universo da imaginação, ele evidência gostar de História. Utiliza-a para mostrar que as pessoas, reais ou fictícias, não são meras aberrações que podem cometer coisas grotescas. Mas, são seres de carne e osso que fazem o que fazem por alguma razão. O que esta fora do comum torna-se normal. E, perder-se em criações significa talvez encontrar o caminho correto para descobertas que encenam a complexidade da existência. Por isso, o “esquisito” ou “anormal” timburtiano superam fronteiras e reinventam o que parece ridículo. Sobre isso, a fantasia arrasta o imaginário para lá das representações ao confirmar que estas estão ligadas a processos de abstração.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Dostoiévski



"Uma outra circunstância ainda me atormentava sem cessar: verificava que não me parecia com ninguém e que ninguém se parecia comigo."



A mãe morreu de tuberculose e o pai foi assassinado. Sua relação com este último, ao que tudo indica, era tensa. Ingressou na Academia Militar e cursou engenharia, mas esta não era a sua vocação. Gostando de ler, criar e escrever foi levado a abandonar a carreira de engenheiro para se dedicar a literatura. Conheceu Balzac, um grande escritor de sua época. Entusiasmado, começou a realizar traduções, depois, se lançou na vida literária com todo fervor. Aos vinte e quatro anos teve reconhecimento, porém, as dívidas e os ataques de epilepsia se tornaram infortúnios presentes. Muitos eram os elogios, mas, também, muitas eram as críticas que o atingiam levando-o a depressão. Escrevia sobre temas íntimos do comportamento humano e mostrava a loucura, a humilhação, a vaidade, o assassinato, o egoísmo e as idéias suicidas dos seus personagens com perfeição. Algumas de suas obras abordam aspectos de suas experiências pessoais. Exemplifica-se “Recordações da Casa dos Mortos”, onde relata o período em que esteve na prisão por participar de reuniões com um grupo de intelectuais que eram acusados de forjar idéias que desagradavam o então governante da Rússia, Nicolau I. Foi condenado ao fuzilamento e no dia de sua execução, quando já estava em frente as armas, chegou-lhe a informação de que o czar havia poupado a sua vida. Em contraponto, ele teria de cumprir cinco anos de trabalho na Sibéria. A vida no cárcere implicou uma existência sofrida e modificou suas visões de mundo. Quando finalmente foi solto ficou proibido de voltar para Moscou ou São Petersburgo. Entretanto, conseguiu autorização para voltar no mesmo ano. Publicou algumas produções, se casou, fundou uma revista com a ajuda de seu irmão e viajou pela Europa. Ao retornar à Rússia estava completamente endividado porque gastara todo o dinheiro em jogos. Mas, mesmo assim, teve disposição para criar um jornal, tendo em vista que a revista fora proibida de circular. Contudo, a morte da esposa e do irmão renderam-lhe enorme desgosto pela vida: afundou em dívidas, foi embora do país e entregou-se a jogatina. Dentro deste contexto, a infelicidade e o abatimento envernizavam seus escritos. Quando foi para a Europa pela primeira vez, conheceu uma garota com a qual viveu uma aventura amorosa e ao retornar aquele continente tentou reatar o romance, mas foi recusado. Logo, começou a estruturar “Crime e Castigo” cujo fim era solicitado com urgência pelo editor da revista em que seria publicado. Para dinamizar o processo contratou uma moça para lhe ajudar, se apaixonou por ela e posteriormente se casaram. Viajaram juntos e tiveram uma filha que faleceu em seguida. Depois disso, escreveu “O Idiota”, “Os Endemoniados”, “Diário de um Escritor” e, por último, “Os Irmãos Karamazov”. Morreu em São Petersburgo, aos cinqüenta e nove anos, de hemorragia pulmonar associada com enfisema e ataque epilético. Seu legado abrange escritos esplendidos, porque mais do que histórias os seus personagens escancaram emoções que ilustram desejos e desilusões. Sobre isso, nos permite olhar para dentro de nós mesmos e refletir. Desnuda coisas que são dá natureza humana: aquilo que nos envergonha, aquilo que nos faz pensar no que realmente somos são apenas alguns dos elementos que fazem as suas produções serem intemporais.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Os idiotas não morrem

Dostoiévisk que me perdoe à ousadia, mas os idiotas nunca morrem. Entra século e sai século nós continuamos lá, perdidos no tempo e no espaço carregando o estigma social de loucos, antiquados, excêntricos, desarticulados, asnos e etc. Somos tímidos, disciplinados e ficamos facilmente encabulados; chamados de ridículos gostaríamos de ter o poder da invisibilidade para driblar as descomposturas tão valorizadas pela sociedade. E é desse mundo de enganos e fingimentos, dessa realidade de mesquinharia e patifaria que nasce o nosso sonho de reclusão e sossego. Procuramos os lugares mais isolados para nos curvarmos sobre nossos próprios pensamentos, para restaurar nossas pitorescas possibilidades. Também, para sucumbir aos eventos traumáticos, nos trancafiamos nos porões da mente, na escuridão do inconsciente. Velhos romancistas, filósofos, psicanalistas, teóricos da História e as canções de rock tornam-se o ópio que abre as portas de uma realidade paralela. Essa realidade liberta, alivia, galvaniza nossas frustrações; espanta nossas assombrações e pondera nossas fúrias. Contudo, o retorno ao mundo real, concreto e opressor também é traumático porque nos vemos obrigados a lembrar do estigma que todos os dias se cristaliza em identidade: somos idiotas, visto que procuramos encontrar as “bobagens” perdidas em algum lugar entre os devaneios.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Pink Floyd e a teoria das cores de Isaac Newton: uma leitura sobre o álbum "The Dark Side of the Moon"

Você deve estar aí pensando em como a banda Pink Floyd e a teoria das cores de Isaac Newton se relacionam. Pois bem, sabe aquele álbum The Dark Side of the Moon que tem um som muito apreciado pelos fãs, então, a capa daquele disco remete a teoria das cores de Isaac Newton. Em linhas gerais essa teoria diz que um “prisma não modifica e nem introduz novas características nos raios, pois estes já estão presentes no feixe de luz branca antes dele passar pelo prisma. Assim, o prisma simplesmente “decompõe” a luz branca em suas cores componentes” (2004: p. 62); exatamente como na capa do álbum que, por sua vez, envolve uma série de efeitos sonoros e trechos de entrevistas que são apresentadas em meio às canções. Nessas entrevistas as perguntas parecem um pouco desconexas e confusas, mas são interrogações que dizem respeito às angústias e inquietações do homem no cotidiano. O encarti lembra também a perspectiva psicodélica que é bem característica da banda no que toca a produção de efeitos sonoros e visuais; exemplifica-se a miscelânia de cores que causam certo impacto na consciência e na percepção. Prontamente, nas entrelinhas do álbum é possível perceber que somos como um feixe de luz branca que se decompõe em suas cores componentes em contato com um prisma, isto é, as cores da nossa essência só são realmente reveladas quando entramos em contato com as experiências que acumulamos ao longo da vida.

domingo, 21 de agosto de 2011

Realidade e Ficção no subconsciente

A mente é um labirinto que guarda os segredos do subconsciente. Enquanto a consciência é clara e plana o subconsciente é escuro e profundo porque está associado a uma parte de difícil acesso na psique. Nele geralmente estão escondidos nossos desejos reprimidos, recalcados, ou o resultado e o impacto advindo de eventos traumáticos. Implica o supra-sumo, o âmago, a essência da mistura de criações que estão longe de levar em consideração quaisquer discursos sobre lógica, pudor, razão ou moral. Desconhece os limites porque eles são fronteiras imaginárias que não existem; são invenções que desempenham a função de jaulas que só aprisionam. Produzir e observar, existir e modificar, transformar para novamente poder inventar outras criações que muitas vezes desencadeiam ações que deformam o espaço e alteram a percepção do tempo. Um tempo que não é aquele do relógio, mas aquele que permite a edificação de realidades concretas e abstratas, objetivas e subjetivas. Neste sentido, as criações podem modificar a realidade e esta pode corresponder aos elementos de criações que, como um nó cego e um salto no escuro, coexistem e se inter-relacionam. A realidade, prontamente, pode ser uma invenção que termina por desembocar no campo da ficção. Isto é, a realidade pode ter aspectos de uma ficção e uma ficção pode ter aspectos de realidades que num primeiro momento passam pelo ponto desconexo das idéias nunca pensadas. Uma realidade e uma ficção subconsciente que preenche o vazio e permite a eclosão do que está sufocado, reinventa o que está censurado, repugna as angústias e vive os devaneios arquitetados pela própria loucura. Aquela loucura subconsciente das mentiras que escondem os resquícios da verdade e das verdades que podem ser a montagem de uma grande mentira. Num movimento de escuridão e claridade fica complicado realizar a cartase, então, não é mais possível discernir o quê é realidade dentro da ficção e o quê é ficção dentro da realidade.

sábado, 20 de agosto de 2011

Por que ela matou o marido?

Na adolescência foi uma pessoa que sofreu muitas desilusões amorosas. No entanto, para atrair os garotos utilizava uma estratégia diferente: arrumava-se da maneira mais feia possível e falava sobre assuntos que fugiam ao comum pois, para ela o rapaz que sobrevivesse a tamanha inadequação ganharia seu coração. Isto porque mostraria que não ligava para a aparência e nem para as maluquices da sua cabeça. Isto nunca deu certo, porém, já na idade adulta um menino de olhar furtivo se encantou por sua estranheza e ela ficou estupefata porque aquilo nunca acontecera. Já passava dos vinte e não acreditava mais em galanteios. Contudo, como estava sofrendo de abstinência afetiva, não se fez de difícil. Ele era “problemático” e ela também, logo, o casamento não demorou a sair. O seu amor estava revestido de imortalidade e jurou trabalhar para que fosse sempre à única mulher em sua vida. Viveram anos muito felizes: liam e criavam poesias, iam com freqüência ao cinema e ao teatro, discutiam muitos livros. Na casa deles não havia televisão, nem telefone, nem computador, nem nada que os ligasse ao mundo exterior. A vida se passava numa cápsula onde nenhum mal poderia os atingir. Ela trabalhava de arquivista e ele era balconista numa pastelaria. A vida era simples, mas alegre. Não tiveram filhos, nem quiseram. Todavia, o tempo foi passando e a velhice os pegando. A saúde de ambos se tornou vulnerável e pôr uma infelicidade o câncer o atingiu. Ficaram abatidos e os tratamentos além de dolorosos, eram desgastantes. Ela passou quarenta dias com ele no hospital fazendo quimioterapia. Mas, com o decorrer do tempo, numa tarde chuvosa de domingo, ele recebeu alta. Foi um dia alegre e ela o tratou com muita afetuosidade, mas, na verdade morria o vendo sentir dores tão terríveis. Tudo ficou muito difícil. Em casa, dentro do quarto, montaram uma pequena estrutura hospitalar e uma enfermaria onde havia um grande armário abarrotado de remédios. Entretanto, o médico numa visita de rotina os reuniu e foi sincero: pelas condições em que ele estava teria no máximo mais três semanas de vida. O silêncio pairou no ar e eles se olharam entrementes. Não havia coisas a serem ditas, o médico foi embora, e ela se deitou ao seu lado. Depois ela se levantou, suspirou dolorosamente e ficou imersa nos seus próprios pensamentos. Os dias seguintes foram tensos, ele gritava de dores porque o câncer já havia se espalhado por todo o corpo. Destarte, ele não estava conseguindo aproveitar seus últimos instantes devido a debilidade física que só aumentava. Na segunda semana ela decidiu então dispensar a enfermeira para tentar ajudá-lo a esquecer da doença e voltar a viver no aconchego do lar onde haviam sido tão bem-aventurados. Mesmo assim, ela também teve dificuldades para conter o júbilo da sua desilusão, mas fez de tudo para fazer os últimos momentos dele os mais agradáveis possíveis. Ele, igualmente, tentava fingir estar bem, mas o aspecto físico e os gemidos denunciavam o sofrimento. Não obstante, na terça-feira daquela semana ela começou a pensar em tudo o que se passava. Sempre cultivou uma personalidade lúgubre, tinha as suas excentricidades e "imitava a sanidade com perfeição" (Poe). Pensou no plano que na sua mente significava libertação. Então, na manhã seguinte, antes dele acordar aos berros com a amargura da sua enfermidade pegou uma série de remédios, misturou e injetou na seringa que o mantinha vivo. Teve frieza tendo em vista que pensava estar o livrando de um martírio; era "a morte de um belo homem" (Poe) que nascia. E, por um instante ficou estática, mas quando recuperou a razão ligou para a ambulância e para a polícia. Contou tudo o que havia feito e foi acusada de assassinato; alguns vizinhos afirmam que ela sofria de doenças mentais. Contudo, quem sabia da intensidade das experiências que vivera era somente ela, que naquela prisão do seu querido em vida, tentava não se lembrar do semblante cadavérico que o massacrava.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Filmes, cartões postais e carros antigos





Filmes, cartões postais e carros antigos,
suicídios plurais num dia-a-dia sem sentido.
Mapas sem trajetórias e roteiros sem destinos,
para além do imaginário o desabafo é o desatino.
No poema desafino. Devaneios, invenções irreais;
decomposição do pensamento e vícios de linguagem.
A contingência do espírito, o singular na paisagem.
A alucinação é o juízo. No devir da solidão o
caminho é o delírio. Os reflexos reais do
pensamento no vazio. Como último suspiro,
convicções danificadas: lembranças para aqueles
que já foram esquecidos. Mas e os filmes, os cartões
postais e os carros antigos? Invenções reais,
devaneios plurais, lembranças onde o desabafo
se torna desatino, sonhos daqueles que já foram esquecidos.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Girassóis Envernizados



Para conseguir sobreviver
no limite entre a realidade e a
ilusão, desenho as palavras.
Porque é no tocar das palavras
simples que te encontro num
lugar muito além da imaginação.
Se a alma está doente, calma!
Existe um lugar lá fora do mundo,
onde não mais encontraremos
os girassóis envernizados. Lá,
onde o plano contempla os
carrosséis do imaginário.
Mas se mesmo assim a alma
continuar doente, calma!
A verdade qualquer hora deixa de
ser desilusão, pois se a realidade
agora te exonera, me acompanhe
por esses lugares lá fora do mundo;
lá, onde a realidade é ilusão.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

A Descrença de um Homem Ébrio

Perambulando sem rumo,
estava absorto em pensamentos.
Demasiado possesso,
pronunciava insultos e incomodava
com seu hálito ébrio.
Pouco lúcido, as mãos trêmulas,
debatiam-se no seu corpo inquieto.
Estava um trapo e parecia sofrer
com um evento muito certo.
Sua indiferença expressava
uma dor aguda, uma angústia arrebatadora.
Seu descompasso social, entretanto,
não era capaz de destruir a fisionomia
do seu rosto angelical.
Embriagado horas a fio,
não largava o bilhete que trazia consigo.
Balbuciando coisas sem nexo,
despia o significado das letras
que olhava possesso.
No papel alguém dizia que
para todo o sempre partiria
levando na memória uma vida de alegrias.
Tomado por um sentimento inacabado,
era um homem torturado.
Traído no passado, falava das artimanhas
de uma tímida sem embaraço.
Mas agora nada importava,
andava sem rumo pelas madrugadas.
Consumido pelas sombras
a vida era desgraça.
Para sucumbir, tornou-se alcoólatra;
o único sentido que encontrara.

domingo, 14 de agosto de 2011

Estratégias de um sedutor

Seu jeito de falar e se aproximar
é capaz de fazer qualquer uma titubear.
Inteligência é algo que parece não lhe faltar.
As mãos são delicadas e
demonstram doçura ao examinar.
Perto dele é impossível não
sentir o coração acelerar.
Em estado de graça, por ele,
até os moveis pelo chão podem rolar.
Cada minuto ao seu lado parece voar.
O fôlego é perdido e as
palavras ficam por completar.
Ficar febril, querer deitar,
são os primeiros sintomas que
podem surgir se você dele se afastar.
O diagnóstico não é difícil de interpretar,
porque o sentido da moléstia está
em por ele se apaixonar.