domingo, 11 de setembro de 2011

As Viagens de Aubre Sky – Estado de Consciência Alterada

Depois de aspirar, acordou no campo em meio aos girassóis envernizados. O céu estava claro e ao longe vislumbrou o carrossel do imaginário. Entrou num bosque de árvores gigantes e cogumelos dourados. Os animais eram grandes e no meio da estrada caiu um raio cujo som desencadeado arrepiou-lhe o corpo e alterou a cor das faces. O terror causou risos resignados e, inacreditavelmente, aquele espaço do bosque começou a ser deformado. E, de repente, estava numa sala de móveis claros. Uma atmosfera pouco atraente dominava o ambiente e o despertar foi traumático, porque, descobriu que agora era a flor que se voltava para o sol em colapso. Revelou sua beleza e enxergou ao longe o seu predador mais macabro: o homem. Ele vinha armado e destruía o esplendor dos campos que outrora foram claros. A escuridão tomou conta de tudo devido as suas capacidades de representação que geravam muitos estragos. Mas, então, como defesa, a flor que se voltava para o sol era agora um daqueles girassóis envernizados. Abriu os olhos e estava sozinha no conjugado compartilhando o espaço com as agulhas, as seringas e os vestígios do pó cobiçado.

As Viagens de Aubre Sky - A Página do Diário de uma Viciada

A febre está tomando conta do meu corpo. Desvaneço sobre este leito e me rendo aos delírios advindos de um passado alucinante. A realidade e a ilusão se confundem e ponho-me a falar dos homens pelos quais me apaixonei das desventuras intelectuais e dos sofrimentos psicológicos. Antes de perder todo o entusiasmo procurei o sentido da vida, mas não encontrei. Atônita com o comportamento mesquinho das pessoas fui ficando inconsolável. Digo que não foi nas festas de Rock que conheci este caminho tão temido pela maioria dos pais, porém, não nego que foi nas diversões da noite uberabense. Ingressei nesta jornada aos quinze e, por incrível que pareça, nenhum dos meus familiares e amigos desconfiaram de algo. Sempre demonstrei ser uma garota tímida e estudiosa; nunca faltei com as minhas obrigações. Por muito tempo sustentei uma imagem falsa. No entanto, não foi possível continuar teatralizando. A máscara caiu e a situação ficou em perspectiva. Fui obrigada a passar por várias clínicas e não suportei as crises de abstinência. Então, me entreguei à bebida e a concupiscência. Elas, em conjunto com os elementos nocivos, serviram de passaporte para este lugar amedrontador. Nele, sou perseguida por seres fantásticos. Para acalmar, sou torturada, amarrada na camisa de força, dopada com remédios que colocam a mente numa condição vegetativa. Todos os quartos e cômodos possuem uma atmosfera densa, os gritos de horror ecoam no horizonte e os meus companheiros lutam para sobrevier aos ataques de suas próprias assombrações. O tratamento médico é articulado com o espiritual, por isso, estou otimista. Acredito que a debilidade anuncia a libertação do espírito deste corpo fatigado.




quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Entre a Fantasia e o Espetáculo

Algumas histórias são fantásticas que às vezes duvidamos da sua autenticidade. Seres encantados e criaturas mágicas... Fantasia e espetáculo. No palco da vida os homens são os grandes astros, conseguem fazer da fantasia a realidade que liberta. Mas o que é realidade? O que é representação? O tempo do mundo ou o tempo de mundos a parte? Pensamentos com nexo para seres criadores de universos desconexos. Ilusão, ficção, truque ou enganação? Muitos fazem da vida uma arte; um mundo lúdico de interpretações, invenções de ideais irreais (o que está fora do natural é extraordinário e impressiona). Mas, Aristóteles já dizia que “cada arte se propõe a multiplicar indefinidamente aquilo que constitui seu objeto”: super-heróis, seres mágicos e homens inventados que encaram fabulosos perigos, derrubam gigantes, dão voz ao inanimado, romanceiam aventuras, destroem astros, criam vítimas, geram vilões, dão cores, voz e sentidos a outros tempos de cenas e personagens, de imagens projetadas, de focos de luz, de mundos fora do mundo. Mas não estamos no tempo do efêmero? Computador, rádio, televisão... O mundo tem pressa e o homem, ingênuo, persegue a informação. Saturados, automatizados num autocontrole, cada vez mais presos numa realidade que é ficção, de fantasia e espetáculo.



quarta-feira, 7 de setembro de 2011

História da vida privada no Brasil: Famílias e vida doméstica

“Tratar da vida doméstica na colônia, no seu sentido mais estrito, implica penetrar no âmbito do domicílio, pois ele foi de fato o espaço de convivência e intimidade dos seus indivíduos”.

A distância que separava os membros de uma família, a falta de mulheres brancas, a presença da escravidão negra e a precariedade de recursos eram aspectos que afetavam o cotidiano no Brasil. Desta forma, as pessoas eram forçosamente levadas a repensar costumes e comportamentos no tocante à constituição das famílias, os padrões de moradia, a alimentação e os hábitos que sofriam transformações, por sua vez, elucidadas neste livro que aborda um pouco da vida privada nos tempos de colônia. Nele são recuperados um pouco dos espaços de intimidade, sobretudo, na morada e nas atividades desenvolvidas no seu interior. Logo, o livro é interessante porque leva o leitor a entender elementos das formas de sociabilidade doméstica, pois era efetivamente no domicílio que se inovava nas formas de viver. Vale a pena ler!

domingo, 4 de setembro de 2011

Apologia à História - Nos confins do Império Inca




BERNAND, Carmen e GRUZINSKI, Gerge. História do Novo Mundo: da descoberta à conquista, uma experiência européia (1492 - 1550 ). São Paulo: Editora da USP, 1997.

"Cansado de viajar por toda extensão de seu império acompanhando as tropas de seu filho, o grande soberano Tupac Inca , se retira para a cidade de Cusco. No desenrolar de sua vida , ele se orgulha de ter prosseguido com as conquistas iniciadas por seu pai e ter conseguido submeter dezenas de povos guerreiros. Senão o próprio Tupac Inca , confia a seu filho Titu Huallpa a continuidade dessa importante missão, embora ele fosse muito jovem. Titu Huallpa acompanhado de suas tropas, examina às terras da planície, que acabara de passar para o controle de Cusco. O Inca, estendeu a essas terras planas e desérticas seu idioma quíchua. Os povos que ali estavam foram forçados à rendição, cortando os canais de irrigação que lhes traziam a vida, e os antigos rebeldes tornaram-se dóceis tributários, transformando orgulho em servilismo. No interoir de seu Império , a ordem se sucedeu ao caos. No entanto, o filho do Sol sabe que as vitórias muito rápidas são frágeis e que existem espaços irredutíveis à sua lei. As tropas incaicas estavam sempre em atividade. Contiveram Chiriguanos , Kollas e Charcas. Em direção ao noroeste, continuaram sua progressão, devastaram o país dos cañaris, dizimando a população masculina e deportando para Cusco aqueles que tiveram suas vidas poupadas.O filho do Sol percorreu pessoalmente a maioria das terras "conquistadas"; as pessoas afastavam-se de seu caminho em sinal de veneração, arrancavam cílios e sombrancelhas invocando seu nome. Tupac Inca benefíciava seus capitães, soldados e senhores que lhe prestava obediência, coisa que não tinha preço, pois, tinham sido iluminados pela luz do Sol. Este parecia ser o seu lema - os soldados manejavam a fenda e os porretes com habilidade, escolhendo a lua cheia para atacar. Graças a esse sistema, a paz parecia haver triunfado das disputas regionais. Nesse período uma tranquilidade relativa reinou sobre os quatro orientes do Império. A beira do oceano, Titu Huallpa descobre a prosperidade do Senhor das Planícies. O Inca, que não aprecia atividades mercantis, tenta limitar seu alcance no seio de seu império. Tolera, no entanto, as do Senhor das Planícies, que dispõe de uma frota de milhares de embarcações, pois sabe que elas trazem bens tão inestimáveis quanto raros em suas terras. Diante disso o Senhor das Planícies resolve selar um casamento entre sua filha e Titu Huallpa . A beleza da princesa cativa de imediato o coração do moço, contradizendo, ela o repele. Segundo sua palavra o casamento só aconteceria, se ele fizesse com que a água chegasse nos seus "domínios". Então, Titu Huallpa passa à apelar para todos os meios possíveis. Mandou sacrificar cem recém nascidos lá onde os rios que alimentam os canais tem sua fonte . Mandou abrir a montanha, para fazer chegar a neve dos picos e inundar o vale com sua água benéfica. Esvaziou lagos e fez ofertas às forças do céu e das profundezas centenas de conchas. Enfim, quando tudo parecia perdido, um filete de água jorrou de uma fonte seca; o filete tornou-se riacho, e o riacho corredeira. A corrente penetrou nas canalizações e a substância vital chegou a todas as plantas que a seca destruíra. A bela finalmente se rende a seus braços, e os dois ficam em harmonia com as forças telúricas, por um instante. Mas infelizmente Titu Huallpa conheceu a felicidade muito tarde; a medida que o verde voltava a crescer nas planícies, o jovem ia ressecando e encolhendo, tornando-se a múmia que viria a ser após a morte."

sábado, 3 de setembro de 2011

Apologia à História - As Múltiplas Faces da Escravidão

Quando ouvimos falar na palavra escravo logo nos lembramos dos africanos que foram trazidos para o Brasil em outrora. Mas, você sabia, por exemplo, que o sentido de escravidão, servidão, escravismo e cativo são diferentes? Se você é daqueles que não sabe, pois é! Desde a antigüidade os povos lidaram com essas formas de relações, sem ter, ao que tudo indica a noção clara do que é e como funcionavam essas formas de subjugação. Ao se referir, por exemplo, em escravidão na Idade Antiga estamos falando de homens que foram reduzidos a condição de cativos ou, por assim dizer, prisioneiros de guerra que eram obrigados a conviver no meio social de forma inferior, mais que, todavia tinham direitos e deveres limitados. Pode-se dizer que escravos e cativos são sinônimos; escravo não era basicamente aquele que era obrigado a trabalhar contra a vontade tendo que se submeter à força e a exploração bruta de outros homens. Quando estudamos os movimentos de expansão também das civilizações antigas percebemos que os exércitos e seus generais vinham conquistando terras e capturando homens que por sua vez se tornavam cativos do povo vencedor, mas muitas vezes esses homens eram inseridos nos exércitos desses povos para ajudá-los nas próximas conquistas, isto é, auxiliavam e trabalhavam para a população do Império ao qual estavam submetidos. Assim, adquiriam o estigma de combatente perdedor, mas não perdiam o valor de ser humano. Simplesmente ficavam sujeitos a uma participação mais restrita na sociedade. Servem de exemplo ainda as civilizações das regiões Andinas e Mesoamericanas. Com ênfase nos Astecas; eles faziam cerimônias de sacrifício humano em homenagem a seus deuses. Para isso, recorriam a povos com os quais tinham diferenças regionais, capturavam-nos e ofereciam em seus rituais. Na costa do Brasil os Tupinambás também apanhavam adversários e os sacrificavam e devoravam. Prontamente, tanto os Astecas como os Tupinambás prendiam e aprisionavam pessoas para realizarem suas manifestações religiosas, no entanto, não estabeleciam relações escravistas, pois dentro da realidade que estavam inseridos, não estavam criando situações anormais, apenas tornando cativos, pessoas necessárias a seus rituais. Conclui-se então que escravo ou cativo é aquele que é obrigado a se submeter a uma forma de dependência social, que pode se dar à base da força e da violência. Essas condições não necessariamente fazem escravos estes sujeitos. Assim podem fazer parte do meio social ó que de forma inferior. Tratando-se do termo escravismo percebe-se exatamente o elemento que o difere de escravidão. Ao falarmos em escravidão não consideramos o ser humano como mercadoria. No escravismo as relações que se fixam ao ramo social se passam de forma fria e indiferente. Cria-se em torno do escravo um invólucro de servidão, isto é sugere-se a relação de senhor e servo. Onde o escravo é comprado, vendido, alugado, doado e submetido a tratamentos hostis e subumanos. Ganha acima de tudo o status servil, que deveria ser vitalício e hereditário. É estabelecida uma forma de exploração sistemática onde o servo é obrigado a produzir o máximo e receber o mínimo e/ou nada. A vontade do senhor vigora num patamar de superioridade; a totalidade lucrativa dos produtos gerados pelo trabalho escravo vão todos para o bolso do senhor. Os africanos citados no início do texto, o indígena brasileiro do século XVI, os vassalos e suseranos da Idade Média, os índios americanos que foram forçados pelo encomiendeiro espanhol. Todos eles foram subordinados a formas de conduta pré-estabelecidas por homens que visavam concentrar o poder e desenvolver grandes mercados. Seria o que poderíamos chamar de “eventual” negociação de pessoas, ou seja, definir como escravismo. Multidões de habitantes em diferentes eras caíram no escravismo. Os romanos e os gregos, por exemplo, faziam de escravos “prisioneiros de guerras, devedores de insolventes, mulheres e homens capturados em razias, crianças e jovens vendidos pelos parentes, etc”. Até aí, nada parece ter sofrido modificações. Só parece porque a partir do momento que o escravo é utilizado como mercadoria, sendo vendido como mero objeto de produção, sujeitando-se às humilhações que dilaceram a resistência física e mental fica claro a diferença entre escravidão e escravismo. Ressalta-se: escravidão envolve trabalho cativo; escravismo trabalho servil. Em Roma e na Grécia o escravismo era mais voltado para um pensamento de bem “comum”; do que se refere à administração do Estado. No Brasil e na América latina em geral estava totalmente voltado para a exploração incondicional que visava atender interesses individuais e da coroa portuguesa. O ser humano que negocia outros seres humanos em condições de superioridade, forçosamente implanta diversas modalidades de exploração do trabalho produtivo e improdutivo que, seja no passado ou no presente, colaboraram e colaboram para a formação de boa parte da desigualdade social que temos atualmente. Pensarmos em escravidão com o olhar que temos hoje implica a necessidade de um olhar crítico que distingue fundamentações que já estabelecemos entre escravismo e escravidão. No século XIX, pensadores como Marx e Engels afirmaram que relações sociais antagônicas sempre estiveram presentes em nossas sociedades: “homem livre e escravo, patrício e plebeu, barão e servo, mestres e companheiros, numa palavra, opressores e oprimidos”2. Prontamente, nesse raciocínio é possível perceber a formação “estrutural” das relações que dizem respeito à subordinação de homens como instrumento de produção que independente do período sempre estiveram presentes na História. Agora nos perguntamos: será que na sociedade contemporânea as relações entre chefe e operário, trabalhador pensante e trabalhador braçal nada têm a ver com escravidão vigorando como camuflagem chamada de mais valia? Assim como em tempos anteriores os escravos trabalhavam para ter o direito de receber alimentação, habitação e vestimentas, hoje os trabalhadores recebem formalmente um salário que eqüivale o quanto produzem e o quanto trabalham? Isto é, recebem o mínimo para sobreviver com qualidade? O antagonismo de classes citado por Marx e Engels existe só entre proletários e burgueses, ou estão presentes quando países mais desenvolvidos exploram países menos desenvolvidos? Será que esses antagonismos não se relacionam com o escravismo africano no Brasil colonial? Não se incorporam no pensamento eurocêntrico de expansão marítima do século XV e XVI? Incógnitas para um assunto que parece não chegar ao fim em pleno século XXI. É entristecedor quando ligamos a televisão e ouvimos notícias que denunciam o trabalho escravo que ainda existem no Brasil, ele se estende desde crianças que trabalham nas ruas das grandes cidades e são exploradas com trabalho compulsório, até cidadãos que se concentram nas áreas rurais dos extremos e interior do país. Sem estar registrados como trabalhadores não possuem carteira assinada, nem tão pouco recebem pelos serviços prestados. É lamentável saber que esses trabalhadores sabem que estão se sujeitando a condições de escravidão e mesmo assim têm de se submeter. Parece uma faca de dois gumes: se uma pessoa tenta assumir o papel de cidadão que produz, recebe e paga suas contas, mas não encontra emprego e vê sua família passando fome, o que é preferível? Migrar para o interior do país e se submeter a “escravidão” em troca de moradia e alimentação? Se marginalizar para trazer o sustento à família? Mandar as crianças e a esposa arrumar uma atividade que acarretará o recebimento de dinheiro nos sinais de trânsito? É complicado. Em muitas dessas situações acontece o que já falamos: o trabalhador vai para o interior, leva a família e se submete ao trabalho escravo para não morrer de fome, que seria o que aconteceria se ele ficasse na grande cidade esperando a oportunidade de emprego. Se voltarmos um pouco na história, perceberemos que quando foi editada a lei que aboliu a escravatura no nosso país, muitas pessoas que eram escravas, preferiram continuar sendo escravas para não ter que mudar para os morros das cidades e correr o risco de não conseguir ter acesso aos meios mínimos necessários a sua sobrevivência. Ver um escravo, no presente ou no passado é como olhar um quadro. São várias as formas de observá-lo. Porém, o olhar do artista nunca será compreendido em sua totalidade, assim como a experiência de quem já foi ou participou de alguma forma de escravismo e escravidão será insubstituível e impensável para aqueles que não viveram a experiência na prática.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Apologia à História - O tempo na História





O tempo do relógio e do cronômetro é uma criação que foi resultada do engenho humano. Na história esse tempo diz respeito ao tempo do homem, ele não é contínuo e varia de sociedade para sociedade. Entretanto o que importa são as experiências humanas no tempo. Estamos localizados num tempo e espaço diferentes daquele em que nossos antepassados viveram. A solução dos problemas de ontem não servem para os de hoje. Logo, é essa diferença é que faz com que o nosso tempo seja diferente. Voltar no tempo é um ideal irreal porque como poderia o homem se libertar do presente e se transportar para o passado? Ainda que para o historiador o passado seja sempre um tempo presente não vai simplesmente fazer igual quando se locomove de ônibus ou de carro. Até por que o tempo é relativo, pode variar de pessoa para pessoa, passar mais de vagar ou mais rápido. Por exemplo, o calendário cristão é diferente do mulçumano, as comemorações orientais são diferentes das ocidentais, nos países mais desenvolvidos as pessoas vivem sempre correndo enquanto nos países menos desenvolvidos o tempo parece sempre igual. Os povos cristãos ocidentais dividiram o estudo dos homens em História e pré- história, porém, nenhuma periodização é adequada para abarcar tema tão vasto como História. Desde nossos antepassados, quando começaram a desenvolver seu raciocínio já estavam fazendo História. Por isso a colocação “pré-história” é um equívoco porque convencionar que o ser humano só se desenvolveu enquanto ser social depois da invenção da escrita dá a impressão de que antes dela os homens primitivos não tinham história. Pensando assim, até parece que o homem já nasceu com um alto desenvolvimento de inteligência, capaz de inventar a escrita. Demarcar o tempo histórico em períodos foi só uma forma didática de situar o leitor no tempo e servir de referencial tendo em vista que o cenário histórico não é contínuo, mas sim, dinâmico. Coisas de ontem não seram as mesmas de hoje e o contexto passa a ser outro. Um fato junto com apenas um personagem histórico, sozinhos, não pode ser responsável pela modificação de um período. Todas as transformações ocorrem dentro de um contexto, uma estrutura que não está livre de um processo histórico. Juntando o conjunto desses enredos temos a modificação da história que possibilita entender que o tempo não é linear, mas de continuidade e rupturas. E que é justamente essa complexidade do tempo que move o elo que permite entender que a História não pode ser uma ciência fragmentada e nem separada em compartimentos onde se pode acessar sem fazer relação com outros momentos, pois não existe história da revolução francesa ou história da revolução industrial sem um contexto que condicionou a eclosão de ambos os momentos. Por isso existe a importância de se problematizar os fatos visando transformá-los em conhecimento. Porque ao se relacionar fato histórico e acontecimento é necessário que se tenha o entendimento que nem todo acontecimento merece a qualificação de fato histórico. Acontecimento só se torna fato histórico se for direcionado para uma forma de conhecimento que atinja a sociedade de alguma maneira. Todavia, o homem constrói a história a partir de suas práticas, representações e interpretações que cria para a vida e para o próprio tempo dela.