sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Campos Ermos - Acerca da leitura dos sonhos e dos devaneios

Prendeu os cabelos com um lenço de chita e com as próprias mãos foi arrancando as ervas daninhas que nasceram entre o muro e os túmulos mais próximos. Fez tudo aquilo com ar inquieto e, devido ao calor, suava-lhe as têmporas. Para conseguir limpar a lápide teve até de arregaçar as mangas do luxuoso vestido de veludo azul.

Magnólias suspensas guardam as reminiscências dos últimos acontecimentos. Os móveis se perdem na sombra e o tic-tac do relógio dá ao ambiente uma atmosfera lúgubre. As paredes da casa ainda parecem guardar sua alma.

Após perder o marido começou a freqüentar campos ermos; está presa num mundo de idéias e ociosidade. Não se importa mais com as luvas bordadas; só sente o coração palpitar. Para terminar de sucumbir fechou as cortinas para impedir a entrada dos raios de sol. Acendeu as lamparinas e emergiu de um sonho.

Urtigas Madressilvas - Acerca da leitura dos sonhos e dos devaneios

Inerte, permanece horas inteiras sem falar. Sob a luz avermelhada do crepúsculo deixa a imaginação vaguear; procurando o infinito com os olhos fixos no horizonte. Enquanto isso, um cheiro de brisa perfumada vem com as pétalas de madressilvas. Urtigas, porém, crescem em todo lugar.

Depois de desamarrar os espartilhos colocou a camisola branca, delicadamente ornada. Suas rendinhas caíam-lhe dos dois lados da cadeira na qual sentou para descansar. Desvaneceu e conseguiu notar que por trás do muro havia um jardim de flores murchas (as urtigas estão em todo lugar).


Com a leitura de alguns versos adormeceu na poltrona. A luz das velas esmoreceu e a chuva, lá fora, danifica o telhado. Mas, na sala, em cima da mesinha de canto, um vaso com madressilvas flutua no ar. Está ou estava sonhando.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Sobre pessoas fictícias em lugares reais

Escritores excêntricos, atentados pelos desvarios da mente, compunham constantemente os enredos do best seller favorito de Pavoroso. Fascinado pelos hits do horror se esforçava para assimilar pequenas frações da genialidade de um raciocínio brilhante. No Overlook ou no Dolphin, tentava perceber como as minúcias da criação davam significados a universos gigantes. De leitor para personagem e deste para inventor começou com pequenos contos. Tinha dificuldades em saber sobre o que escrever, mas agora que estava desempregado sobrava mais tempo para trabalhar no hobbe. Perturbado, passou dias se esforçando para criar um protagonista para suas histórias. Pensou em seres problemáticos como ele, baixou filmes do Burton no Youtube, refletiu muito sobre os livros de Dostoievski e Foucault. Depois do processo de gestação deu vida à Marley, que se tornou um pacifista sem causas, adorador dos girassóis. Em contraponto, Pavoroso, era tão dependente dos pais que não conseguia nem amarrar os cadarços do sapato. O outro, intransigente, começou a se irritar. Já estava tão convencido de seu poder que possuía vida própria. Partindo o coração das namoradinhas que afagava nos contos, Marley tentou várias vezes se comunicar. No entanto, Pavoroso só sabia divagar para além das idéias. Consumido pela abstração de seus mundos, naufragou. Todavia, Marley estava indo salva-lo ou pelo menos tentar. Um braço, depois o outro e o personagem foi saindo do livro devagar, parecia a menina do “Chamado” saindo da televisão. Os cachos do cabelo bagunçaram, a jaqueta jeans encobriu a camiseta branca de rocker star. Estava fora... Fora das letras, fora da mente de seu criador. Sentia-se bicho grilo procurando Mort Rainey. O pensamento agora era de carne e osso. Andou de um lado para o outro, olhou o quarto, a escrivaninha e o objeto mágico de onde saíra. Não viu Pavoroso, mas ouviu a mãe chamar para lavar as mãos e almoçar. Assustado, Marley saiu desengonçado para se esconder. Não houve tempo e a mulher chegou. Com os olhos estatelados levantou os braços, ficou verde e parado. Mas que estranho, ela passou por ele como se fosse invisível. Assim que houve oportunidade, saiu da casa para procurar o dito cujo. Ao vagar pela ruas ficou impressionado com a beleza da cidade e até duvidou da sinceridade de Pavoroso que sempre descrevia uma Uberaba negra, soterrada pela altura dos prédios e manchada pela poluição da fumaça. O dia da semana era sábado e visitou a Praça Dr. Jorge Frange onde se encantou com a riqueza da Feira Arte e com a singularidade do obelisco do andarilho Bento. Ao passar pela São Benedito, ficou vislumbrado com as luzes. Devorou um pastel assado de bacalhau no Balbec porque seu inventor lhe contara que naquele estabelecimento a comida era boa e barata, não se arrependeu. O tamanho do Manhattan lhe deu náuseas. E, depois de andar por horas, se sentou em um banco na Praça Rui Barbosa. Contemplou a Catedral e observou o casamento que lá acontecia. De longe viu a decoração, o vestido branco e o romance dos noivos que o deixou emocionado. Os olhos encheram de lágrimas e sozinho ele chorou por ter sido condenado a uma vida falsa, fictícia. No mesmo momento, Pavoroso, que nunca havia tomado bebidas alcoólicas, enchia a cara na escuridão do Müchen Pub. Os olhos parados atravessavam o fundo do copo e enxergavam o vazio da vida. Queria fugir da realidade porque não agüentava mais ter de viver. Só pensava em cavar a sepultura para enterrar-se no universo da fantasia, um lugar onde o real é ficção e a ficção é a realidade que liberta. O ritmo da música tinha som de solidão. Desnorteado, saiu trocando os passos ignorando a luz da lua. Estava vagando rumo à ponte que cruzava a lagoa existente no Parque das Acácias. A lagoa era funda e a ponte era alta. Um pulo certeiro, “um salto no escuro”, colocariam fim nas angústias. Ao se recuperar do instante de tristeza, Marley percebeu que já era noite e no rastro de Pavoroso chegou ao pub e perguntou para a moça do caixa se ela havia visto um cara ruivo, de olhos esbugalhados que usava uns óculos semelhantes aos do John Lennon. Lembrou que os olhos peculiares do homem justificavam o nome. Inconvenientemente, saiu andando sem esperar a resposta. O litro de conhaque importado fez Pavoroso rememorar todo um passado de fracassos. Na sarjeta encontrou o sentido para as esquisitices que fazia nas noites de insônia quando de minuto em minuto deitava e levantava sem saber o que fazer. Tomava café e colocava óculos escuros na penumbra assinalada pela iluminação precária do abajur ganhado naquelas pescarias de quermesse. Quase atropelado por um carro abarrotado de universitários, pensou naquelas dores mudas que sofrera nos seus tempos de estudante sonhador. Sonhou tanto ao longo da vida que ela passou. Na calada da madrugada alcançou seu destino. O parque estava lindo e não havia ninguém para admirar. A ponte não era reta, possuía uma forma de arco. No ponto mais alto, bem lá no meio, segurou na “balaustrada” (não sabia o nome daquilo) e, ao contrário do que as pessoas falavam, ele não viu a vida passar diante de seus olhos como um filme. Sentiu somente o desejo de querer pular. E, pulou. Na queda, não teve frio, nem medo e não pensou em nada. Só viu quando o estouro cortante de seu corpo na água fez fatigar os desalentos. Afogou para a vida, nasceu para a morte. Marley chegou, mas já era tarde demais. Chorou novamente por não ter conseguido salva-lo ou, ao menos dizer, o quanto o amava e admirava. Mesmo sendo uma criação, sentiu a dor advinda dos sentimentos. Implorou a morte aos céus. No entanto, agora não era personagem, mas sim, um ser humano. Amaldiçoado à vida, fechou os olhos e lembrou que a carne morre, mas as idéias do seu criador, não.

Sobre pessoas reais em lugares fictícios

Thrin! Thrin! Fez o relógio de Marley às sete da manhã. Escravo deste objeto colocou o travesseiro sobre a cabeça e não acreditou que tinha de levantar. Passou a mão pelos cabelos negros, levemente ondulados. Sentou encostando-se à cabeceira da cama. Em frente, havia uma penteadeira cujo espelho refletiu os olhos rubros. Com seu estilo desengonçado e meio débil vestiu o uniforme do trabalho, pôs os óculos e colocou o All Star de bolinhas azuis que comprara depois de economizar dois meses de salário. Atrasado, saiu levando somente o aparelho de MP3 que tocava a Dança do Quadrado. Desceu a Orlando Rodrigues da Cunha e pegou a Guilherme Ferreira. Foi a pé porque os ônibus da única companhia de transporte público presente na cidade andavam sempre muito cheios, as condições de segurança não eram confiáveis e os seus horários eram imprevisíveis. Já no centro, driblou os carros que circulavam pelas antigas ruas tortuosas que não foram construídas para agüentar um movimento tão intenso. Atravessou o calçadão da Arthur Machado tendo também que enfrentar o fluxo de pessoas. Enquanto isso, a música tocada ecoava na mente. Ao chegar ao trabalho, uma lanchonete que estava se transformando em restaurante self-service, o patrão mal educado o advertiu pelo atraso. Todavia, Marley nem ligou porque já estava acostumado com as grosserias daquele que não se importava com a situação insalubre em que trabalhavam seus funcionários. Ele, o garoto Marley, ficava no caixa onde observava a Praça Rui Barbosa. Nas horas vagas podia contemplar o cotidiano; somava números, tentava diminuir os prejuízos e distribuir por igual à atenção oferecida aos clientes. Mas neste dia o espírito desinquieto questionou a finalidade de uma existência que naquela idade estava considerando como vazia. Olhar a movimentação tornou-se exercício de devaneio, um anestésico. Terminado o expediente, voltou para casa, desta vez de ônibus. Detestava, entretanto, era ele que permitia chegar mais rápido, engolir a comida, correr a água no pêlo e sair novamente (foi à Universidade onde cursava o último ano do curso de Arquitetura). Depois da aula, retornou e no momento em que ficou completamente sozinho teve medo dos monstros nascidos da sua própria criação. Para sucumbir, inventou lugares fictícios e recriou seres encantados. Retornou à Terra do Nunca, pois lá sentia a liberdade de poder voar para todo lugar e não ter que voltar para lugar nenhum. No tocar da madrugada incorporou dom Quixote desbravando gigantes imaginários para despistar a loucura. Perdeu-se procurando encontrar, representou o histérico, sentiu dor e invocou os amigos invisíveis, mas eles não vieram. Ficou desesperado e não teve medo de caminhar novamente para outros mundos. Suicídio noite à dentro? Não, não tinha coragem.

domingo, 18 de dezembro de 2011

O silêncio que musicaliza o amor para a eternidade

Entrementes, o silêncio é
embelezado por uma musicalidade.
Ao amolecer entre meus braços
o ardor se mistura a serenidade e
percebo que a grandeza dos
sentimentos está na simplicidade,
na ternura dos instantes de intimidade,
na expressividade dos pensamentos
subtendidos, nas constelações
entrepostas de corações sem maldade.
Os sentimentos não são meras abstrações,
porque concretizam a imensidão de uma realidade.
Calados, o silêncio tem reciprocidade.
A sombra de um protege o outro
e da sombra nasce a luz que
musicaliza nossas canções mudas.
Secretamente, criamos e recriamos
o compasso da invisibilidade que
só é entendida por aqueles que
encontram um amor de verdade,
um amor que está entrementes,
nas constelações entrepostas,
na brandura que musicaliza o silêncio
de um amor para a eternidade.

Resposta à tuas cartas



Não me canso de reler suas palavras envolventes.
Perco-me entre as letras e esqueço dos contratempos.
O dinheiro, a beleza e o glamour das noites festivas,
tudo se foi e só as tuas cartas me fazem companhia.
Os papéis estão amarelados pelo tempo e
com a tinta manchada pelas tuas lágrimas,
mas quem agora chora em cima delas sou eu.
Todos os meus familiares e verdadeiros amigos
já apodreceram no seio da nossa mãe terra.
Estou sozinha, nem cadela, gato ou cachorro eu tenho.
A não ser estas cartas em que o meu amor é implorado,
mas, quem o implora hoje sou eu.
Certamente não me lançaria de joelhos aos seus pés,
mas pediria com honra o seu perdão.
Escolhi ser do mundo, experimentei tudo o que podia.
Sai com muitos homens, provei comidas,
bebidas e drogas arrebatadoras, andei por todos
os continentes e vi coisas maravilhosas.
Devido as minhas aventuras, tive a
oportunidade de superar limites.
Não nego que foi alucinante e não me arrependo por nada.
Minto, me arrependo somente por nunca
ter respondido as tuas cartas.
Sempre adotei a filosofia do livre-arbítrio,
este mesmo livre-arbítrio que não me deixa ter
poder sobre a vida ou a morte. Neste instante,
estou num leito de hospital, num quarto frio e lúgubre.
Esforço-me para escrever a primeira
e a última carta em resposta a você.
Não é tão bonita quanto as suas e as
frases foram compostas num rascunho.
Minhas mãos estavam trêmulas e pedi
ao enfermeiro que a digitasse.
Espero que o seu endereço ainda seja o mesmo,
espero que ainda queira recebê-la, agora eu só espero...
Espero, estar junto das tuas cartas
que dão sentido aos meus últimos momentos.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Eternamente Corintiana



A cor alva e negra colore nossas vidas;
no delírio das vitórias e no silêncio das derrotas,
ganha destaque porque é ave de rapina.

A cor alva e negra colore nossas vidas;
ganha destaque com os contornos do
gramado sempre propenso aos naufrágios.

A cor alva e negra colore nossas vidas;
sempre em frente, garras firmes,
digna das aves de rapina - Gaviões.