quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

As viagens de Aubre Sky – Um ponto de fuga

A melancolia e a tristeza inevitavelmente a abatiam. Para sair de tais infortúnios ficava absorta em pensamentos, eles eram como uma anestesia; uma forma de esquecer aquela dor atroz e ofensiva. Devaneava. Precisava se sentir entorpecida, embriagada por ilusões. Todavia, as pessoas a sua volta criticavam seu ar débil e afirmavam que aquele comportamento era sintoma de fraqueza no espírito. Mas para ela tal situação ocorria porque percebia a realidade como nociva, sentia-se torturada por aquela eterna atmosfera de cerimônia e formalidades que envolviam a vida social. Na verdade, reconhecia que seu estado era resultado da convivência num grupo de pessoas hipócritas e mesquinhas. O remédio então poderia ser trocar de grupo.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

As viagens de Aubre Sky – Correndo na estrada do infinito

Para superar os impactos da violência psicológica deixava os olhos fixos no horizonte, pois acreditava que olhar ao longe era uma forma de refugiar-se em si mesma. Neste momento, projetava na mente a estrada do infinito que, rompendo as barreiras do mundo racional, era transformada e criada a seu bel-prazer. Então, sem empecilhos de deslocamento, corria por lugares fabulosos. Estes, por sua vez, eram norteados pelo irrealismo, de ficção caleidoscópica. Deste modo, a felicidade durava enquanto durava o devaneio. Entretanto, quando acordava lembrava-se da vida que a esperava: um chefe e um marido que a mal tratava, um filho envolvido com drogas, uma pilha de contas que não acabavam...

As viagens de Aubre Sky – O universo está caindo

O silêncio que enchia a sala dava ao ambiente uma atmosfera lúgubre. Sozinha e encolhida no sofá sentia a dor amarga da desonra. Sempre fora uma esposa de virtudes, mas agora, tomada pelo desalento, fazia sinistras conjeturas. Era preciso castigar o marido por traí-la com aquela “puta”. Então começou a pensar. Matar e mutilar foram as primeiras hipóteses que lhe vieram a mente, porém, eram grotescas demais. Precisava de algo mais simbólico e sutil, mas que tivesse o mesmo teor de violência. O intuito era atacar e aterrorizar emocionalmente. Queria levá-lo a morte social; desmoralizar, envergonhar, expor ao ridículo, fazer enxergar o quanto havia sido um idiota e refletir sobre o quão doce era a mulher que havia perdido. Mas, perdida, com o olhar turvo, estava Aubre Sky que sabia que era seu universo que estava caindo.

As viagens de Aubre Sky – As facetas de uma mente diabólica

Detestava aduladores. Trabalhava num escritório de contabilidade e depois de concluir as tarefas gostava de ficar observando o comportamento dos colegas. Havia os que passavam mais tempo na Internet ao invés de fazer o serviço, os que de cinco em cinco minutos iam tomar café, os responsáveis e os aduladores. Estes últimos, para Aubre, eram uns patifes. Mais conhecidos como “puxa saco” sentia vontade de trucidá-los. Eles ficavam paparicando o chefe e tentavam estabelecer uma política de boa vizinhança com todo mundo. Mas isso, nada mais era que uma máscara, pois, na prática, tramava intrigas e disseminava fofocas. Este adulador, na ótica de Aubre Sky, queria ser sempre mais... Não media esforços para conseguir o que queria. Mas assim estava Aubre Sky. Refletindo... Não sabia se sua mente era diabólica por querer assassinar o puxa-saco ou se a mente diabólica era a do puxa-saco, visto que era tão meticuloso e sem escrúpulos. Talvez Aubre só estivesse com inveja do esforço do puxa-saco.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

As viagens de Aubre Sky – Uma dose de morfina por favor!

Suas mãos estavam trêmulas, mas mesmo assim sentia uma vontade incontrolável de escrever. Sabia que fazia parte de um contexto mais amplo, de pessoas que esboçavam umas frases para abater as angustias. Isto ocorria porque ninguém agüentava mais aquele tempo (um dos males da época era a depressão).


“Os livros de auto-ajuda só ajudam quem escreve” dizia o psicólogo. Todavia, Aubre Sky ficava horas e horas lendo aquilo. Fazia porque não estava conseguindo acompanhar as demandas de seu tempo. Já passava dos trinta e ainda morava com os pais, estava desempregada e não havia conseguido comprar um carro. Por isso, na dicotomia entre “os bem sucedidos” e “os fracassados”, pensava que estava na última categoria.


Para escapar às pressões (social e/ou cultural) escrevia; encontrava nas letras momentos de alegria. Era como o efeito estonteante da heroína ou da cocaína. Um up na mente, uma ilusão que cativa, que alivia. Mas, depois do efeito, destruição. Então novamente escrevia; era como injetar na veia um sorvo generoso de morfina, uma maneira de sobreviver às dores advindas daquela realidade que oprimia.

As viagens de Aubre Sky – Uma oração a Nossa Senhora da Bala Chita

O terno creme? Não, o preto. Minhas mãos estão suando (vou à entrevista de emprego). Preciso demonstrar confiança e responder com objetividade o que me for perguntado. Sinto que vou ser avaliada e qualquer gesto ou palavra inadequada poderão me fazer ser eliminada (preciso prestar atenção em tudo). O que você acha da cor desse batom? É muito vulgar? E os sapatos? O que será que o entrevistador vai perguntar? Oh céus, preciso me controlar. Cadê o calmante? Estou uma pilha, preciso conseguir esse emprego de qualquer jeito. Hum, já sei. Vou fazer uma oração à Nossa Senhora da Bala Chita...



... Nossa Senhora da Bala Chita me dê autocontrole emocional e psicológico, me ajude a reprimir as emoções, mascarar as subjetividades...

As viagens de Aubre Sky – Ficando perturbada

Aubre Sky ganhou uns quilinhos e começou a pensar em malhar. Queria emagrecer para entrar no vestido justinho, de florzinhas vermelhas. Iria encontrar o Juan, mas toda aquela gordura poderia espantá-lo. Tinha também que esconder as espinhas e pintar os cabelos de amarelo-dourado (queria estar bonita como as garotas da TV). Achava fundamental acompanhar a moda e aprender a se comportar numa mesa de jantar (não mastigar de boca aberta e utilizar direitinho os talheres). Ensejava impressionar o garoto com sua educação e boas maneiras e, além dele, os amigos (queria aprovação do grupo). Assim, Aubre Sky perdia seu tempo pensando em frases que poderia falar; queria parecer inteligente. Logo, ficava sempre preocupada, ansiosa. Sentia-se pressionada. Para sucumbir, procurou o revólver, mas não sabia colocar as balas.