domingo, 27 de outubro de 2013

Escritos coléricos para emoções exasperadas


Fatigada por uma natureza que não se basta em si mesma, sinto-me engolfada por uma constante sensação de incompletude. Os desejos pululam! Antanho o corpo acabrunha e o inconsciente promove arranjos susceptíveis à ações variadas. Daí surge situações que me compelem à ambientes abissais. Os entusiasmos são tolhidos; violentamente cortados na marra e refletidos na face de feições sempre tristes. Então, torna-se comum andar de um lado a outro na vã ilusão de sucumbir ao desatino, de livrar-se da solidão. Esta, inevitavelmente, insiste em se apresentar em ambientes que parecem eternamente lúgubres. Mas, como afirma Dostoievski, “o desespero guarda as volúpias mais ardentes”. Neste ponto, o desespero, a solidão, o desatino, são estados que repercutem em perspectivas abrasadoras; de amores e desamores arrebatadores, de paradoxos...        

sábado, 5 de outubro de 2013

Sobre "O Clube da Luta"

Possui vários eixos passíveis de intermináveis leituras e discussões. No entanto, quero falar somente do personagem do Edward Norton, o Jack. É preciso enxergá-lo em sua totalidade que, antes de tudo, antes do social, começa nele mesmo, é ...individual. Por este viés o clube da luta é o encontro do Jack com o Jack, do homem com o homem. Gestos violentos com os outros? Inicialmente não. A mente projeta, o alter. A violência primeira não é externa. Ou é? A projeção que vai nascendo da falta de sono e da inércia enreda o conflito marcado por ansiedades interiores que vão sendo automatizadas numa vida em que quase nada acontece. Então, a mente de Jack prega-lhe uma peça, encontra uma maneira, cria um mecanismo, para vencer o tédio: adrenalina. Da pressão que o individuo Jack exerce sobre si mesmo surge o personagem do Brad (Tyler) cuja máxima está em mostrar o quão violento pode ser a vida não diante do outro, mas a vida diante de si mesmo. Sozinho! Pulsões, compulsões, impulsões, explosões de fúria, retrações, proibições, funções controladoras que encontram maneiras de sucumbir; que se articulam ao social, mas cujo efeito é elementar no âmbito individual. Neste sentido, Jack chega ao ápice quando percebe que Tyler não existe... Atira na cabeça!

Cúmulo Nimbos

Senhora de eventos pluviométricos intensos. Surge no horizonte em tons acinzentados e seu impacto pode ser devastador. É tão imponente que nem sempre é possível equacionar suas dimensões. Cobre os raios de sol, presenteia com... raios e trovoadas, cria noites e dias nebulosos, gesta tormentas climáticas. Encanta e amedronta, mostra o quão pequeno e frágil é o homem diante das dinâmicas da Terra. O mesmo homem que cria paisagens artificiais é o mesmo que nem sempre tem controle sobre os eventos naturais.

Nerd de coração partido

Tento dar fim a alvura da folha. Pobre folha! Escrevo nela meus pensamentos coléricos, minhas angústias. E, no auge da solidão, que está em mim, que está na folha, tento diálogos. Sofro! Todas palavras me soam mudas. Minto, elas não soam.

Nerd de coração partido

A nerd de coração partido (II)

Rememora e teoriza. Procura os fundamentos do fim. Na maior parte das vezes tem dificuldades para superar. Mas, vencida a desilusão, coisa que pode levar anos, formula mecanismos de defesa. Orna-se com sua armadura imaginária e torna-se, eternamente, uma desconfiada das agruras do amor.

Bauman

Há algumas coisas em seu pensamento que me retrai. Na realidade não é o mundo que é líquido, são as relações entre as pessoas. Fluídas, descartáveis, passageiras, incertas! É muita insegurança que paira na cabeça do indivíduo. Não se pode contar com nada; é preciso estar sempre preparado para lidar com as desilusões. Apaixonar-se e desapaixonar-se torna-se algo banal! Os sentimentos são mutantes; gosta-se e desgosta-se muito rápido. Isso quebra as almas frágeis!

Baixei "O amor líquido" na Internet. Em termos de quantidade de páginas ele não é muito grande e é de fácil leitura. Nunca havia lido Bauman, mas foi do jeito que eu esperava: líquido. Seu fio de meada são os riscos, as ansiedades e os sentimento...s de insegurança que perpassam os vínculos humanos na contemporaneidade. A individualização somada à perspectiva de sentimentos descartáveis criam no ser constantes desejos conflitantes. Conflitantes no sentido de que cada um de nós se vê compelido a “administrar” o amor-próprio e o amor do outro, sempre. Contudo, esse “sempre”, no contexto desse aterrorizante mundo liquido, termina mesmo em intermináveis incertezas, aflições e fragilidades oriundas do risco, de fracasso, em se estreitar os laços.
 

Delineado Brevemente

Você é texto e sua escrita me permite visualizá-lo nu. Nas entrelinhas, desabafos elegíacos, arrebatamentos, angústias e sublimações; pensamentos, muitas vezes, (im)precisos: há soberba e há lirismo (mais soberba que lirismo). É um romântico enrustido, ainda que negue até a morte. Vejo-te desesperado, alhures. Vive no afã não só de amar, mas de ser amado. Lança-se numa jornada de simultaneidades e aspirações plásticas que cambiam entre pulsões contidas e paixões descontroladas. Sua estética é minuciosamente arquitetada, ora é aberta, ora é fechada. Vai do bem humorado ao infausto. Cheio de contradições!

Efêmero

É só de instante. O que vale é o aqui e o agora. Incendeia para safar-se. Logo se satura. Não há lamento, não há abandono, não há sofrimento; não tem lacunas. É só de excessos. É puro desejo, sem autocontrole e censura. Livre! Criatura insaciável. Pleno no momento.

O fulcro de uma situação desconfortável

Já vive em constante dilema: fala/não fala, chama/não chama, pensa/não pensa. Como se ainda não bastasse os conflitos interiorizados é preciso lidar com uma gama de informações, compromissos, comportamentos e pensamentos. Daí, que as vozes são dissonantes todo mundo já sabe. O que fica em pauta é a simultaneidade, a fragmentação e a pluralidade. Como conciliar? O indivíduo chega num ponto que tem de se desdobrar, se multiplicar. Mesmo sendo um, tenta ser vários e, na interdependência, cria um complexo multifacetado de experiências.

Luxuriante

No ímpeto de afagar e beijar a face, comete intempéries. Sente um desejo esmagador, o corpo incendeia e se sente corar; furores. Não consegue moderar os entusiasmos, sempre intensos. Se perde entre sorrisos voluptuosos e intenções sinuosas. Certamente descende de uma linhagem demasiado libidinosa, de lumes. A vida embriaga com sensualidade e torpor; é sempre uma relação amorosa. Não existe ermo, tudo é fértil! Nada de hipocrisia, apenas desejo absoluto e prazer extremo.

Ratos

Tem o rato e o rato clarividente. Criatura soberba. Não basta ser normal; é preciso elevar-se (estar no alambique). Nada é páreo para seu refinamento. Sempre precisa fazer chover escarros sobre todos que o cercam, afinal é demasiado inteligente e deselegante seria comportar-se normal.

Dostoiévski

"Outrora, eu sofria muito por parecer ridículo. Não parecia, era. Sempre fui ridículo e sei que o sou, realmente, de nascença. Acho que tinha apenas sete anos, quando soube que era ridículo. Em seguida, estudei na Universidade e quanto mais estudava, mais sabia que era ridículo. De maneira que toda a minha ciência universitária parecia não existir senão para me provar e me explicar, à medida que a aprofundava, que eu era ridículo. Aconteceu na vida como na ciência. De ano para ano, adquiri cada vez mais certeza de que, sob todos os pontos de vista, eu me mostrava um personagem ridículo." (p.131)

Escritos coléricos

Minha afeição por Dostoievski e sua obra antecede você. Entretanto, depois de conhece-lo e ouvir atenciosamente suas elaborações, a leitura ganhou novo sentido. Quando conversávamos a respeito dos livros me sentia incentivada em tentar apreender o significado mais profundo daquilo. Suas observações, ainda que toscas, me faziam enlouquecer! Em suma, ficava me sentindo uma idiota perto de você. Mas agora tudo é passado e tilinta nessa minha memória moribunda.

Só lamento

Quem me falará sobre Borges, Breton e Camus? Quem me explicará o amor-próprio em Dostoievski? Quem me contará as façanhas da estruturação dos livros de Nabokov? Quem me indicará outras obras de Maupassant e Balzac? Quem concordará comigo que os escritos de Proust, apesar de inteligentes, são um porre; quase um pé no saco? Quem me afirmará que madame Bovary não foi descontrolada no fin...al e que Flaubert não era um apaixonado? Quem comigo ficará perfilado se gabando que Cervantes é um máximo? Quem me deixará boquiaberta no que toca o fato de o Sade, muitas vezes, ser lembrado apenas como um lunático? Quem terá interesse em bater na tecla de que a dinâmica dos espaços em Stephen King também é um máximo? Quem me dirá que não gosta de joguete de palavras e que Edgar Allan Poe é um tipo de leitura muito juvenil? Quem me fará pensar melhor na personalidade do primo Basílio e insistir que Eça de Queirós é, de fato, muito brilhante? Quem me recitará Shakespeare? Quem puxará a minha orelha em relação à não dar maior atenção à alguns escritores brasileiros? Quem me incentivará nos estudos de teoria literária? Quem me mostrará uma escrita rebuscada e sussurrará besteirinhas eróticas em meus ouvidos? Quem me ensinará sobre fetiches? Quem me mostrará com clareza o que é donjuanismo? Quem irá me asseverar que para ser bonito não precisa necessariamente ter lirismo? Quem poderá se equiparar a você: lindo, incógnito, contraditório, labiríntico? Um chatinho de galocha, é verdade! Mas o chatinho de galocha mais intrigante e cheio de lume que já conheci! Um verdadeiro amante!

domingo, 29 de setembro de 2013

Circuito de leitura (Freud/Elias)

Interna ou externamente ninguém está livre de pressões. O primeiro tipo de pressão, a interna, diz respeito aquela que o indivíduo exerce sobre si mesmo e, a segunda, externa, é proveniente da convivência com o outro, situa-se num plano social. O que em outrora poderia ser exteriorizado por meio de explosões emocionais e violência física, por exemplo, foi sendo drenado ao autocontrole que, grosso modo, seria a moderação das paixões e previsão dos atos. Surge aí uma série de hábitos automatizados, mediados pela cultura, em que, pelo olhar do outro e olhar que se tem sobre si mesmo, o individuo, constantemente, tenta conciliar a satisfação de seus desejos e o controle dos mesmos. Vive em dilemas, pois, nem sempre sabe se o que está fazendo "é de menos ou de mais". E é nesse complexo de pressão que surge os medos, as angústias, os tormentos e as significações inconscientes que, não tem jeito, sempre encontram maneiras de escapar. É aí também que pode aparecer as psicopatologias.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Esquecer-te é lembrar

Fico devaneando na aula. Em quem eu penso? Você. Aqueles seus intermináveis impropérios. Involuntariamente, esboço umas risadinhas que me fazem corar. As pessoas olham e me policio para novamente concentrar nos debates. Fico numa luta constante com a memória que quer te esquecer, mas, ao mesmo tempo, lembrar. Projeto-te mentalmente e recrio seus dizeres. Então, as imagens latentes se transformam num quase tormento. Fico num dilema: lembro/esqueço; digo/não digo; penso/não penso. Mas esse “não penso” já me é elementar, eu penso. O inconsciente, de fato, é labiríntico e traiçoeiro. Gostaria de me auto enganar. Diabos! 

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Na noite

No início dessa última madrugada, no auge da minha amargura incógnita, senti saudades dos escritos de Edgar Allan Poe. Diante de tal fato não hesitei, fui até a estante, peguei o livro de contos e escolhi um: O Barril “Amontillado”. Nele, Poe desenvolve um texto cuja temática é a vingança. O personagem principal, sempre narrado em primeira pessoa, vinga-se de Fortunato que, além de insultá-lo, era um charlatão conhecedor de vinhos. Aproveitando-se de uma ocasião festiva, o carnaval, o personagem encontra Fortunato, que já estava ébrio. O outro, num plano parcialmente estruturado, o convida para ir até o seu palácio experimentar uma bebida, o Amontillado, que estava num barril em sua adega. Chegando, o espaço era úmido e Fortunato teve uma reação de tosse que, ironicamente e propositalmente, foi um pouco sanada com uns goles de vinho oferecido pelo personagem que foi ficando cada vez mais embriagado. O personagem levou-o para outros ambientes da adega; confins de caves que davam numas catacumbas cujos ossos, expostos, estavam tomados por musgos. Depois destas chegaram em uma cripta que dava passagem para outras mais pequenas. Persuadido, Fortunato entra na cripta menorzinha e, aturdido pela bebida, seu anfitrião o amarra, sai da cripta e começa a lacrá-la. Uma, duas, três... Várias fileiras de tijolos e concreto, “amontillado”. Assim termina o conto. Poe envolve o leitor no primeiro parágrafo porque dá dicas do quão sutil deve ser uma vingança; há ênfase para o grotesco dos espaços, a perversão e o trocadilho que fica entre o título e o texto: barril Amontillado _de bebida _ e, implicitamente,  Fortunato “Amontillado” _ de Fortunato amontoado no sentido de que o conviva foi literalmente fechado vivo atrás de fileiras intransponíveis de tijolos. Logo, fica claro o jogo simétrico de palavras, característico do Poe, bem como o tom de graça. Possivelmente, no(s) dia(s) que escreveu o conto estava de bom humor (um humor negro, vamos dizer assim, rsrsrsr).      

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Absolutismo? Breve parecer sobre "A Sociedade de Corte"


Para Norbert Elias, os monarcas no Antigo Regime não eram totalmente “absolutos”, pois, “tudo o que vinha das vastas possessões reais tinha que passar pelo filtro da corte antes de chegar ao rei; e tudo o que vinha do rei tinha que passar pelo filtro da corte antes de chegar ao país” (ELIAS, 2001, p.67). Neste sentido, aquilo que designamos como “absolutismo”, para este autor, deve ser colocado entre aspas visto que “mesmo o monarca mais absoluto só podia atuar sobre o seu país através da mediação dos indivíduos que viviam na corte” (idem: p.67). Deste modo, o rei dependia da corte e a corte dependia do rei dando significado aquilo que Norbert Elias chamou de "teoria sociológica da interdependência", isto é, o rei “precisava da nobreza como contrapeso às outras camadas de seu reino” (ELIAS: p.188) e a nobreza, igualmente, precisava do rei para criar o universo social cujo status e prestígio eram mediados pela existência de etiqueta e cerimonial.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Volúpia



Quero seus desejos! Afagá-lo; deixar em sobressaltos com minhas carícias e gosto dos meus lábios. Desejo que deseje ter suspiros, daqueles que fazem estremecer. Abraçá-lo a todo instante, beijar seu corpo inteiro, levá-lo ao frenesi, deixá-lo estupefato. Entre ternura e paixão ardente quero encontrar o amante, vários homens num só; exasperado e sedento de amor pecaminoso. Um amor que, contraditoriamente, não é só pecado; é também inocência. Desejo que deseje um furor de ardências que não sucumbem à embaraçosa situação de estar completamente perdido, sem saber o que dizer ou fazer, diante da atenção da pessoa que se anseia. Deste modo, imploro aos céus que não tenha medo de ceder ao deleite, que não fique trêmulo no momento de render-se a uma intimidade livre, deliciosa. Desejo que queira acalmar-se depois do ardor advindo da comunhão dos corpos que em cumplicidade compartilham o breve lapso de felicidade ilusória. Então, quando tudo acabar, só me deixe ajeitar a cabeça em seu peito e, no silêncio da ocasião, esmorecer.