domingo, 29 de setembro de 2013

Circuito de leitura (Freud/Elias)

Interna ou externamente ninguém está livre de pressões. O primeiro tipo de pressão, a interna, diz respeito aquela que o indivíduo exerce sobre si mesmo e, a segunda, externa, é proveniente da convivência com o outro, situa-se num plano social. O que em outrora poderia ser exteriorizado por meio de explosões emocionais e violência física, por exemplo, foi sendo drenado ao autocontrole que, grosso modo, seria a moderação das paixões e previsão dos atos. Surge aí uma série de hábitos automatizados, mediados pela cultura, em que, pelo olhar do outro e olhar que se tem sobre si mesmo, o individuo, constantemente, tenta conciliar a satisfação de seus desejos e o controle dos mesmos. Vive em dilemas, pois, nem sempre sabe se o que está fazendo "é de menos ou de mais". E é nesse complexo de pressão que surge os medos, as angústias, os tormentos e as significações inconscientes que, não tem jeito, sempre encontram maneiras de escapar. É aí também que pode aparecer as psicopatologias.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Esquecer-te é lembrar

Fico devaneando na aula. Em quem eu penso? Você. Aqueles seus intermináveis impropérios. Involuntariamente, esboço umas risadinhas que me fazem corar. As pessoas olham e me policio para novamente concentrar nos debates. Fico numa luta constante com a memória que quer te esquecer, mas, ao mesmo tempo, lembrar. Projeto-te mentalmente e recrio seus dizeres. Então, as imagens latentes se transformam num quase tormento. Fico num dilema: lembro/esqueço; digo/não digo; penso/não penso. Mas esse “não penso” já me é elementar, eu penso. O inconsciente, de fato, é labiríntico e traiçoeiro. Gostaria de me auto enganar. Diabos! 

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Na noite

No início dessa última madrugada, no auge da minha amargura incógnita, senti saudades dos escritos de Edgar Allan Poe. Diante de tal fato não hesitei, fui até a estante, peguei o livro de contos e escolhi um: O Barril “Amontillado”. Nele, Poe desenvolve um texto cuja temática é a vingança. O personagem principal, sempre narrado em primeira pessoa, vinga-se de Fortunato que, além de insultá-lo, era um charlatão conhecedor de vinhos. Aproveitando-se de uma ocasião festiva, o carnaval, o personagem encontra Fortunato, que já estava ébrio. O outro, num plano parcialmente estruturado, o convida para ir até o seu palácio experimentar uma bebida, o Amontillado, que estava num barril em sua adega. Chegando, o espaço era úmido e Fortunato teve uma reação de tosse que, ironicamente e propositalmente, foi um pouco sanada com uns goles de vinho oferecido pelo personagem que foi ficando cada vez mais embriagado. O personagem levou-o para outros ambientes da adega; confins de caves que davam numas catacumbas cujos ossos, expostos, estavam tomados por musgos. Depois destas chegaram em uma cripta que dava passagem para outras mais pequenas. Persuadido, Fortunato entra na cripta menorzinha e, aturdido pela bebida, seu anfitrião o amarra, sai da cripta e começa a lacrá-la. Uma, duas, três... Várias fileiras de tijolos e concreto, “amontillado”. Assim termina o conto. Poe envolve o leitor no primeiro parágrafo porque dá dicas do quão sutil deve ser uma vingança; há ênfase para o grotesco dos espaços, a perversão e o trocadilho que fica entre o título e o texto: barril Amontillado _de bebida _ e, implicitamente,  Fortunato “Amontillado” _ de Fortunato amontoado no sentido de que o conviva foi literalmente fechado vivo atrás de fileiras intransponíveis de tijolos. Logo, fica claro o jogo simétrico de palavras, característico do Poe, bem como o tom de graça. Possivelmente, no(s) dia(s) que escreveu o conto estava de bom humor (um humor negro, vamos dizer assim, rsrsrsr).      

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Absolutismo? Breve parecer sobre "A Sociedade de Corte"


Para Norbert Elias, os monarcas no Antigo Regime não eram totalmente “absolutos”, pois, “tudo o que vinha das vastas possessões reais tinha que passar pelo filtro da corte antes de chegar ao rei; e tudo o que vinha do rei tinha que passar pelo filtro da corte antes de chegar ao país” (ELIAS, 2001, p.67). Neste sentido, aquilo que designamos como “absolutismo”, para este autor, deve ser colocado entre aspas visto que “mesmo o monarca mais absoluto só podia atuar sobre o seu país através da mediação dos indivíduos que viviam na corte” (idem: p.67). Deste modo, o rei dependia da corte e a corte dependia do rei dando significado aquilo que Norbert Elias chamou de "teoria sociológica da interdependência", isto é, o rei “precisava da nobreza como contrapeso às outras camadas de seu reino” (ELIAS: p.188) e a nobreza, igualmente, precisava do rei para criar o universo social cujo status e prestígio eram mediados pela existência de etiqueta e cerimonial.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Volúpia



Quero seus desejos! Afagá-lo; deixar em sobressaltos com minhas carícias e gosto dos meus lábios. Desejo que deseje ter suspiros, daqueles que fazem estremecer. Abraçá-lo a todo instante, beijar seu corpo inteiro, levá-lo ao frenesi, deixá-lo estupefato. Entre ternura e paixão ardente quero encontrar o amante, vários homens num só; exasperado e sedento de amor pecaminoso. Um amor que, contraditoriamente, não é só pecado; é também inocência. Desejo que deseje um furor de ardências que não sucumbem à embaraçosa situação de estar completamente perdido, sem saber o que dizer ou fazer, diante da atenção da pessoa que se anseia. Deste modo, imploro aos céus que não tenha medo de ceder ao deleite, que não fique trêmulo no momento de render-se a uma intimidade livre, deliciosa. Desejo que queira acalmar-se depois do ardor advindo da comunhão dos corpos que em cumplicidade compartilham o breve lapso de felicidade ilusória. Então, quando tudo acabar, só me deixe ajeitar a cabeça em seu peito e, no silêncio da ocasião, esmorecer.